Drones, IA e 'enxames': as armas que podem redefinir as guerras em 2026 e tornar combates 'eternos'

A guerra na Ucrânia consolidou, em escala industrial, uma transformação que vinha sendo gestada há décadas: veículos não tripulados e inteligência artificial deixaram de ser “apoio” para virar o centro do campo de batalha. O que era visto como vantagem tecnológica de potências militares passou a ser também uma arma assimétrica — barata, replicável e adaptável — capaz de prolongar conflitos, impedir vitórias rápidas e impor custos econômicos desproporcionais ao adversário. Veja mais: Com 'Relógio do Juízo Final' perto da meia-noite, retórica nuclear assumiu tons ainda mais perigosos em 2025 'Mão Morta': Conheça 'Máquina do Juízo Final' que a Rússia usa como ameaça aos EUA Em 2026, a tendência é que esse modelo se torne ainda mais contundente por três razões combinadas: produção em massa, ciclos de inovação cada vez mais curtos e autonomia crescente (ainda que, formalmente, mantida sob supervisão humana em diversos sistemas). A Ucrânia, que virou laboratório vivo dessa nova era, segue como principal vitrine: além da expansão da indústria local, há um movimento de exportação da capacidade de fabricação para dentro da Europa, com projetos industriais desenhados para produzir dezenas de milhares de unidades e sustentar um esforço prolongado. A consequência é direta: 2026 tende a ser o ano em que “drones” deixam de ser uma categoria genérica e passam a ser entendidos como um “ecossistema de armas” — do micro ao oceânico; do reconhecimento ao ataque; do ar ao mar e ao subsolo. 1) O “novo calibre” do combate: FPVs em massa e munições guiadas por IA O que começou como adaptação de tecnologia civil evoluiu para uma lógica militar em grande escala. Na prática, o drone FPV (de visão em primeira pessoa), barato e altamente letal em curtas distâncias, tornou-se um dos instrumentos mais eficientes para negar terreno, perseguir alvos e saturar defesas — e sua proliferação já é tratada como central na contabilidade de perdas na linha de frente. Trump adverte Putin após teste de míssil: 'Temos o melhor submarino nuclear na costa deles' A próxima camada — com impacto potencial ainda maior em 2026 — é a incorporação sistemática de IA embarcada para guiar ataques e resistir a bloqueios eletrônicos. Um exemplo emblemático é o contrato para entrega de 33 mil “kits” de ataque com IA destinados a drones ucranianos, financiado pelo Pentágono, que aponta para o salto de escala da automação aplicada ao “último quilômetro” do ataque. Na prática, esse tipo de solução reduz o peso do operador humano no momento crítico e aumenta a capacidade de operar em ambientes de guerra eletrônica. Para 2026, o risco geopolítico é claro: mais atores terão acesso a um poder de ataque de precisão antes restrito a mísseis caros, elevando o custo de proteção de infraestrutura crítica (energia, telecomunicações, bases aéreas, logística). Initial plugin text 2) Guerra eletrônica acelera a corrida: drones por fibra óptica e contramedidas “hard kill” À medida que interferência e bloqueio de sinal se tornam rotina, o combate entra numa dinâmica de “ação e reação” com prazos curtos. A Ucrânia e a Rússia evoluíram rapidamente de modelos dependentes de rádio para alternativas mais resilientes — e a tendência para 2026 é a consolidação de soluções como drones controlados por fibra óptica, que reduzem vulnerabilidades ao jamming e empurram o conflito para uma disputa de sensores, câmeras e algoritmos. Initial plugin text Do outro lado, cresce o investimento em contradrones que tentam resolver um paradoxo: derrubar um alvo barato sem gastar munição cara. A aposta inclui desde camadas tradicionais (armas cinéticas e defesa aérea de curto alcance) até soluções “de área”, como sistemas eletrônicos e micro-ondas, num mercado que se expande rapidamente. Em termos estratégicos, isso altera a própria arquitetura de defesa: proteger o céu de drones exige densidade, não apenas sofisticação. 3) Mar e subsolo entram no jogo: drones navais e plataformas autônomas Se 2025 consolidou a maturidade dos drones aéreos, 2026 tende a ampliar o foco para o domínio marítimo e submarino, onde autonomia e persistência são vantagens decisivas. A Ucrânia já demonstrou que drones marítimos podem reduzir a liberdade operacional de uma marinha maior no Mar Negro — e as grandes potências avançam com plataformas de superfície e submarinas que dispensam tripulação. Nos EUA, a DARPA batizou o USX-1 Defiant, navio experimental “sem necessidade de humanos a bordo”, como símbolo de uma geração desenhada para operar com manutenção e produção mais simples do que navios tradicionais. O modelo de navio não tripulado americano USX-1 Defiant Reprodução: Darpa 4) Drones “para todos”: a difusão que muda guerras regionais O ponto mais disruptivo para 2026 não é apenas o avanço tecnológico, mas a difusão. Drones se tornaram, como a metralhadora em outros ciclos históricos, um multiplicador de força para atores com menos recursos. A experiência ucraniana reforça essa lógica, enquanto governos europeus buscam acelerar parcerias e capacidade industrial ligada a sistemas não tripulados. Drone FPV usado pelo exército ucraniano Reprodução: X / @DefenceU Essa democratização aumenta a probabilidade de conflitos prolongados e reduz o espaço para vitórias “relâmpago”: mesmo forças inferiores podem impor desgaste constante e custos altos, criando impasses e guerras longas. 5) O efeito colateral: mais “guerras longas” e pressão sobre civis e infraestrutura O avanço de drones e IA não apenas altera como se combate; altera o que vira alvo. Infraestrutura energética, logística e centros de produção passam a ser visados com maior frequência, porque drones e munições guiadas baixam a barreira de entrada para ataques de longo alcance e para operações de saturação. A Rússia, por exemplo, tem apostado em campanhas de drones e mísseis contra a rede energética ucraniana — um lembrete de que a guerra com sistemas não tripulados não se limita a frentes de batalha e pode produzir efeitos humanitários amplos. O que observar em 2026: maquinário e armas que podem mudar o jogo Drones FPV (kamikaze) e enxames de baixo custo São hoje o “calibre básico” do campo de batalha. Custam pouco, são rápidos de montar e altamente letais a curta distância. Modelos usados na Ucrânia como FPV Vampire, R18 e versões improvisadas com peças civis têm destruído tanques, artilharia e posições entrincheiradas. Em 2026, a tendência é o uso coordenado em enxames, saturando defesas e tornando obsoletos blindados sem proteção ativa. Munições vagantes (loitering munitions) Funcionam como um híbrido entre drone e míssil: voam, patrulham a área e atacam quando identificam o alvo. Exemplos incluem o Shahed-136 (Rússia/Irã), Switchblade 600 (EUA) e Harop (Israel). Em 2026, devem ganhar mais autonomia, maior alcance e ogivas mais pesadas, substituindo parte da artilharia convencional. Drone iraniano Shahed-136 da Rússia interceptado pelo exército ucraniano Reprodução: Ministério das Relações Exteriores da Ucrânia Drones com IA embarcada A próxima geração não depende totalmente do operador. Sistemas com software da Auterion, por exemplo, permitem que o drone identifique, siga e ataque alvos mesmo sob interferência eletrônica. Isso reduz o tempo de decisão humana e torna o ataque mais difícil de bloquear. Em guerras futuras, esses drones podem operar quase como “caçadores autônomos”. Drone com IA da fabricante dinamarquesa Dropla Tech Reprodução: Dropla Tech Drones guiados por fibra óptica Resposta direta ao jamming russo e ocidental. Esses drones permanecem conectados fisicamente ao operador por cabos de fibra, como já ocorre na Ucrânia. Operam até 40–50 km, praticamente imunes a interferências. Em 2026, devem se tornar padrão em frentes estáticas, como trincheiras e zonas urbanas. Modelo de Drone via fibra ótica usado pelo exército ucraniano Reprodução: Forças Armadas da Ucrânia Sistemas anti-drone dedicados Com drones baratos dominando o campo, surgem defesas específicas: – Canhões de curto alcance como o Skynex (Rheinmetall) Canhão anti-drone Skynex, da alemã Rheinmetall Reprodução: Rheinmetall – Interceptadores como o Coyote (EUA) O interceptador anti-drone Coyote, da americana Raytheon Reprodução: Raytheon – Armas de micro-ondas e lasers, testadas por China e EUA Modelo de defesa anti-drone via microondas Leonidas, da americana Epirus Reprodução: Epirus Em 2026, a defesa aérea deixa de mirar só aviões e passa a focar alvos pequenos, lentos e numerosos. Guerra eletrônica (EW) portátil Bloquear, confundir ou “sequestrar” drones virou rotina. Equipamentos móveis de jamming — usados por Rússia e Ucrânia — disputam o controle do espectro eletromagnético metro a metro. Em 2026, a guerra eletrônica será tão importante quanto artilharia ou blindados. Modelo de jammer móvel desenvolvido pela americana Arthos Reprodução: Arthos Drone Detection Artilharia integrada a drones (kill chain acelerada) Obuseiros como o M777, Caesar ou PzH 2000 tornam-se mais letais quando conectados a drones de reconhecimento. Um alvo que antes exigia dezenas de disparos passa a ser destruído com poucos tiros guiados em tempo real. A artilharia não desaparece — ela fica mais precisa e mais barata por alvo. Obuseiro M777, do exército americano Reprodução: Dover Air Force Base Mísseis de cruzeiro e balísticos de teatro Armas como o Tomahawk (EUA), Kalibr (Rússia) e Storm Shadow (Reino Unido) seguem centrais para ataques profundos contra infraestrutura, energia e logística. Em 2026, o foco será integração com drones de reconhecimento e uso combinado para saturar defesas aéreas. Missil do modelo tomahawk sendo lançado Reprodução: Raytheon Tanques e blindados com kits anti-drone O tanque não morreu — mas mudou. Blindados como Leopard 2A8, Abrams SEP v3 e Merkava Mk4 ganham proteção ativa (APS), sensores superiores, redes anti-drone e fumaça inteligente. Em 2026, veículos sem defesa contra ataques verticais serão alvos fáceis. Tanque do modelo Leopard 2A8 Reprodução: Reddit Veículos terrestres não tripulados (UGVs) Robôs começam a assumir tarefas perigosas: – Logística (munição, água, evacuação) – Metralhadoras remotas – Desminagem Exemplos incluem o Milrem THeMIS (Estônia) e protótipos ucranianos. Em 2026, reduzem baixas humanas em áreas expostas. Veículo não tripulado Milrem Themis Reprodução: Milrem Drones marítimos (USVs) e “porta-drones” A Ucrânia mostrou o impacto com drones como o Sea Baby e o Magura V5, que afundaram navios russos no Mar Negro. Em 2026, USVs atuarão como plataformas de ataque, reconhecimento e lançamento de drones aéreos, ameaçando portos e rotas comerciais. Drone marinho do modelo SeaBaby Reprodução: Forças Armadas da Ucrânia Veículos submarinos não tripulados (UUVs / XLUUVs) A China lidera com grandes drones submarinos exibidos em desfiles militares; os EUA e aliados avançam com projetos como o Ghost Shark (Austrália/Anduril). Em 2026, esses sistemas ampliam espionagem, sabotagem e guerra de minas — especialmente em estreitos estratégicos. Submarino não tripulado Ghost Shark, da Anduril Reprodução: Anduril Navios de guerra autônomos Projetos como o USX-1 Defiant (DARPA/EUA) mostram uma nova classe naval: navios sem tripulação, mais baratos, produzidos rápido e ideais para missões de risco. Singapura já lançou seu Multi-Role Combat Vessel para operar drones aéreos, de superfície e submarinos. O modelo de navio não tripulado americano USX-1 Defiant Reprodução: Darpa Satélites, ISR e sensores persistentes Constelações comerciais e militares (como Starlink, OneWeb e sensores militares dedicados) tornam o campo de batalha quase transparente. Em 2026, esconder grandes movimentos de tropas será cada vez mais difícil. Soldados americanos instalando sistema Starlink para uso militar Reprodução: Departamento de Guerra dos EUA Sistemas de comando e controle com IA O verdadeiro “cérebro” da guerra moderna. Plataformas que unem dados de drones, satélites, radares e tropas em tempo real. Quem dominar esse C2 com IA decide mais rápido — e vence batalhas antes mesmo do disparo. Painel de controle com IA adaptado usado pela marinha dos EUA Reprodução: Forças Armadas dos EUA Helicópteros de combate multifuncionais Segundo o site oficial da Boeing, existem mais de 1.280 helicópteros Apache em serviço em diversos países, tendo acumulado mais de cinco milhões de horas de voo, das quais 1,3 milhão foram em combate.A letalidade do helicóptero reside também no fato de poder transportar 16 mísseis Hellfire, 76 foguetes de 2,75 polegadas e 1.200 cartuchos para seu canhão automático de 30 mm, que dispara até 650 tiros por minuto. O helicóptero Boeing AH-64 Apache Reprodução: Boeing