Você saberia o que fazer se descobrisse que sua filha foi exposta por um colega de escola na internet? E a sua enteada, você sabe o que ela acessa pelo celular? Sua sobrinha, com quem ela está conversando online agora? Essas são as perguntas que moveram a criação do “Empoderadinhas Digital em Ação”, uma iniciativa do Programa Empoderadas para promover segurança digital para jovens e crianças. Encabeçada por Erica Paes, bicampeã Mundial de Jiu-Jitsu brasileira, o Empoderas integra o Programa Estadual de Enfrentamento ao Feminicídio no Estado do Rio de Janeiro, e ensina, de forma gratuita, meninas e mulheres a fortalecerem a autonomia e se protegerem em casos de violência. Em 2025, o grupo fez parceria com a Meta para oferecer orientações sobre como agir em casos de violência digital infantil. A seguir, o TechTudo conta a história do Programa Empoderas, os bastidores da parceria com a Meta e explica de que maneira mulheres e crianças podem se proteger no ambiente virtual. Adultização nas redes sociais: o que é e como evitar exposição do seu filho Canal do TechTudo no WhatsApp: acompanhe as principais notícias, tutoriais e reviews Lutadora Erica Paes em atividade de prevenção e leitura corporal com crianças Divulgação / Empoderadas Instagram: legenda da foto sumindo, como resolver? Entenda no Fórum do TechTudo Como surgiu o Programa Empoderadas? O Programa Empoderadas surgiu a partir da vontade da lutadora de MMA Erica Paes retribuir à sociedade o que o jiu-jitsu e as artes marciais proporcionaram na vida dela. Com 14 anos, já atleta de jiu-jitsu, Erica colocou em prática ensinamentos de defesa para escapar de uma tentativa de estupro - a segunda ocorrida quando era jovem. Decidiu, a partir da experiência, que queria ensinar outras meninas e mulheres a também terem a oportunidade de resistir a ataques ou riscos de vida. Em 1997, Erica organizou em sua cidade natal, Belém do Pará, a primeira turma, exclusiva para mulheres, de ensino de técnicas preventivas de segurança oriundas do Jiu-Jitsu. "Com o passar dos anos eu fui me especializando e aprendendo cada vez mais. Sou uma das mulheres pioneiras no MMA mundial a lutar profissionalmente no mundo. Já estava no meio dos grandes, fazia parte daquele cenário. Então, ali eu pude ampliar as ferramentas preventivas de segurança para mulheres", disse Erica. Atuação de Erica no Programa Empoderadas em 2020 Reprodução / Empoderadas Integração do Empoderadas com Governo Estadual do RJ Em 2017, a personagem Jeiza, interpretada por Paolla Oliveira na novela de Gloria Perez "Força do Querer", foi inspirada na vida de Érica Paes. Na época, a campeã mundial de jiu-jitsu foi contactada pela então Ministra da Mulher, Fátima Pelaes, para apresentar o Programa Empoderadas em Brasília. Na capital federal, Erica integrou a Secretaria Nacional de Enfrentamento à Violência contra Mulheres (SENEV). Dois anos depois, quando saiu da presidência, apresentou o trabalho social ao Governo do Estado do Rio de Janeiro e recebeu o convite para incluir o programa à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos. "Assim nasceu essa grandiosidade que a gente tem hoje. Eu comecei como um projeto, onde todos os colaboradores e as colaboradoras eram voluntárias. Então foi tomando uma proporção tão grande que logo eu consegui um orçamento junto ao Estado e o projeto se transformou em um programa de governo", contou Erica. A partir disso, o Programa Empoderadas passou a ser uma iniciativa do Programa Estadual de Enfrentamento ao Feminicídio no Estado do Rio de Janeiro, conforme a Lei Estadual n.º 9.985. Érica Paes e Paolla Oliveira nos bastidores de uma das gravações da luta de Jeiza Fábio Rocha / Gshow Desde 2019, o Empoderadas alcançou mais de 2,7 milhões de mulheres em todo o estado. Hoje, o programa conta com mais de 68 polos ativos em 35 municípios do Rio, onde mulheres são ensinadas técnicas de defesa em tatames e recebem assistências nas áreas jurídica, social, financeira e psicológica. A parceria com o Governo Estadual permitiu que o Programa Empoderadas identificasse outros crimes cometidos contra mulheres, como perseguições, ameaças e chantagens feitas em ambiente virtual. Muitos desses delitos ainda estão sendo identificados; o crime de estupro virtual, por exemplo, foi tipificado recentemente e uma condenação já foi feita, em outubro deste ano. O Empoderadas passou a atuar na ponta, como um ambiente de escuta para mulheres vítimas desses ataques. "Damos a orientação técnica correta para dar uma resposta mais eficiente para uma mulher e principalmente para evitar a revitimização. Uma mulher que acabou de ser estuprada tem que ir para casa se lavar, ir para delegacia ou ir para o hospital? As pessoas não sabem o que fazer quando isso ocorre com elas. Esse é o nosso papel: informar", disse Erica. Parceria da Meta com as Empoderadinhas Lançamento do programa Empoderadinhas, em 2023, na Mangueira Reprodução / João Miguel Jr. Em dezembro de 2023, na quadra da Mangueira, foi lançado o Empoderadinhas, uma vertente do Programa Empoderadas voltado para crianças e jovens de 4 a 12 anos, com foco em territórios vulnerabilizados. O objetivo do projeto é empoderar meninas por meio de atividades lúdicas, esportivas e pedagogicas, além de ensina-las como se proteger fisicamente em caso de necessidade. São feitas dinâmicas lúdicas que abordam temas como respeito ao corpo, limites, autocuidado, identificação de situações de violência e como pedir ajuda. O processo é acompanhado por uma equipe multidisciplinar que garante um ambiente seguro e educativo para crianças e famílias. Uma das vias de atuação estabelecida por esse braço programa Empoderadas foi a parceria consolidada, em dezembro deste ano, com a Meta, empresa que possui gerência sobre as redes sociais Instagram, WhatsApp, Facebook e Threads. A nova etapa do circuito educacional se chama Empoderadinhas Digital em Ação e passa a incluir a conteúdos sobre segurança online, com jogos educativos, teatro de fantoches, cartilhas com QR codes e histórias ilustradas que ensinam como pedir ajuda. O objetivo do programa é treinar multiplicadores, os distribuidores de conteúdo em rede social, oferecendo oficinas com as ferramentas de segurança da Meta. Além de ensinar artes marciais com foco em desenvolver confiança, leitura corporal e estratégias de proteção, o Empoderadinhas reforça a capacidade das meninas de perceberem possíveis ameaças no ambiente digital. Erica conta que já houveram "empoderadinhas" abordadas por estranhos no jogo online Roblox, perguntando onde elas estudavam. "Eu perguntei para ela: 'O que você fez?'. As outras ficaram escutando. 'Eu bloqueei, saí do celular e contei para mamãe', a menina respondeu. A gente bateu palmas para incentivar que aquilo é o certo, que é o correto", contou Erica Paes. Crianças participam, no tatame, de atividades conduzidas por professoras especialistas. Divulgação / Empoderadas Atuação da Meta na segurança digital Uma das ferramentas de prevenção criadas pela Meta é o Take It Down, plataforma lançada em 2023 para impedir que imagens íntimas de jovens se espalhem pela internet. A equipe de segurança da Meta capacitou a equipe do Empoderadas para propagar e ensinar o uso desse tipo de ferramenta entre os responsáveis das crianças. Mais de 200 colaboradoras do programa, entre elas professoras de tatame, pedagogas, psicólogas, assistentes sociais e advogadas, já foram preparadas em oficinas para repassar instrumentos de defesa para que responsáveis protejam jovens no ambiente digital. Em rodas de conversa, workshops, aulas práticas nos tatames e formações em escolas e creches, esses profissionais devem ensinar táticas como o uso de controles parentais no Facebook e Instagram, ferramentas de proteção para perfis adolescentes, mecanismos de bloqueio e denúncia, limite de interações e análise de casos reais envolvendo violência online. No caso das intituiçoes de ensino, diretores, coordenadores e educadores terão acesso a formações específicas sobre prevenção e enfrentamento à violência digital no ambiente escolar, aprendendo a identificar sinais de cyberbullying, acolher e encaminhar vítimas, configurar redes escolares com segurança e fortalecer o vínculo com órgãos como o Conselho Tutelar e o Ministério Público. A iniciativa também prevê uma linha direta de atuação com instituições de ensino. Diretores, coordenadores pedagógicos e educadores terão acesso a formações específicas sobre prevenção e enfrentamento à violência digital no ambiente escolar. A programação inclui estratégias para identificar "Existem várias ferramentas desenvolvidas pela Meta de controle parental. Estamos ensinando esses pais a como acionar e colocar em prática o controle parental dentro do tablet, do computador, do celular. Também temos também o treinamento lúdico para essas crianças. Perguntamos para elas se é proibido falar ou aceitar bala, presente, ou objeto de estranho na rua, se é permitido manter pacto de segredo com estranhos ou com conhecidos que falem para você não falar para o papai e para a mamãe", explicou Erica Paes. A Meta atua principalmente no fornecimento de recursos e informações sobre suas redes sociais para que esses multiplicadores possam orientar suas comunidades - crianças, jovens, adolescentes, pais, adultos, mestres, responsáveis, professores e comunidade acadêmica escolar - sobre como agir em situações de crimes e violências digitais, como bullying, stalking e divulgação de mensagens ou notícias íntimas. Meta faz parceria com Empoderadas para promover segurança para crianças Reprodução/Meta Segundo Mario Vilhena, que atua na articulação de projetos de impacto social da Meta Brasil, a parceria da Meta não é diretamente com o Governo do Estado do Rio, mas com a ONG Empoderadas, embora o projeto também tenha uma parceria com o governo do estado. “A Meta conheceu o pessoal do projeto Empoderadas casualmente na Amazônia. Após se inteirar mais sobre o projeto, a Meta procurou a ONG para formalizar a parceria. Inicialmente, a colaboração começou informalmente no Carnaval, com a distribuição de informações de segurança para mulheres, e evoluiu para a formalização da parceria no final do ano”, afirmou. Além da parceria em si com o programa, a própria Meta tem um blog online onde mostra conexões feitas com secretarias de educação, grupos de pais e mestres e outras instituições visando instruir melhor os adultos responsáveis sobre como proteger as menores nas redes sociais. As redes da empresa também possuem o recurso da conta de adolescente, cujo objetivo é que os adultos responsáveis possam orientar, ensinar e vincular sua conta ao do menor de 18 anos, mantando a segurança online do jovem. Como meninas e mulheres podem se proteger nas vias digitais? Tentativas de golpe, stalking e invasão de contas são fenômenos cotidianos no ambiente digital. Em entrevista ao TechTudo, a Dra Marcela Machado, advogada do Programa Empoderadas e coordenadora da equipe multidisciplinar do Programa, detalhou como os pais e responsáveis podem atuar no sentido de proteger menores e garantir a segurança nesse meio. O Empoderadas oferece assistência a mulheres vítimas de violência no âmbito digital por meio de orientação jurídica inicial, registro de ocorrência, medida protetiva, suporte psicológico, articulação com o Ministério Público e conscientização e prevenção. “É fundamental que os pais conversem abertamente com os filhos, criando um sistema de confiança em casa para que a criança se sinta segura em contar tudo. Também é muito importante usar as ferramentas de segurança parental disponíveis nas redes sociais e plataformas, como controles para saber o que a criança acessa, limitar o tempo de uso e bloquear palavras. O Programa Empoderadas oferece capacitações para os pais aprenderem a usar essas ferramentas e implementarem o "reletramento digital" com as crianças". Dra. Marcela Machado explica como mulheres podem se proteger no meio digital Reprodução / Freepik Segundo dados do Instituto de Segurança, o Rio de Janeiro teve um aumento de 1.252%, entre 2018 e 2024, no número de crimes sexuais cometidos pela internet. Na pesquisa, o ISP também registrou que o número de registros de divulgação de imagens íntimas, estupro ou pornografia no estado do Rio de Janeiro cresceu 39% entre 2023 e 2024. As vítimas foram mulheres em 86,6% dos casos, o que evidencia que esse tipo de violência é praticada em especial contra o público feminino. Muitos desses cenários são favorecidos pelo anonimato que o ambiente online acaba oferecendo para os usuários. "Criminosos se escondem atrás da tela ou de uma aba anônima de um IP desconhecido, mas a legislação tem avançado. Então da mesma forma que ela tem previsto esses novos crimes, adaptado para essas situações digitais, a legislação também garante que o conteúdo seja retirado do ar independente de uma ordem judicial", explicou a Dra Marcela Machado. Recentemente, o tribunal, o STJ e o STF decidiram que as plataformas têm que retirar esses conteúdos só com uma notificação da vítima ou do seu representante legal, removendo a obrigatoriedade de uma ordem judicial. Além disso, outras medidas de investigação aumentaram. Nas próprias delegacias, há mais ferramentas para investigar esses crimes, como a quebra de sigilo telefônico em algumas situações de extrema urgência. Além das atuações penais, os pais ou adultos responsáveis podem consultar assessoria jurídica especializada para conceder proteção a vítimas de crimes virtuais. É importante observar sinais de alerta no comportamento da criança, como queda no rendimento escolar, mudança de comportamento (de agitada para quieta) ou agitação ao tocar em assuntos específicos. Com informações de Meta, Empoderadas, Gshow, Globo (1 e 2) Mais do TechTudo Veja também: 15 ANOS DE TECHTUDO! Veja como o site mudou desde 2010!!! 15 ANOS DE TECHTUDO! Veja como o site mudou desde 2010!!!