O bar é um lugar de passagem. Não só de gente e de copos, mas também de ciclos. Ali a gente nunca está exatamente chegando nem totalmente indo embora — está atravessando. O bar não resolve a vida, mas ajuda a entendê-la melhor, principalmente nesses dias meio suspensos como o 1º de janeiro, quando o ano ainda não começou direito e o anterior ainda custa a acabar. É justo aí que um bom balcão de boteco surge como espaço honesto para fazer a retrospectiva não-oficial do ano que terminou, traçar planos sem euforia e aceitar que algumas respostas só aparecem quando a conversa esfria e o chope esquenta a ideia. A mesa de bar funciona nesses tempos como território neutro, onde não é preciso anunciar resoluções nem sustentar um entusiasmo artificial. História, cerveja e axé: do samba no Renascença à batidinha no Bar do Momo, um roteiro para aproveitar os encantos do Rio no verão Caipirinha: um cartão-postal líquido do Rio Meu primeiro chope do ano costuma ser sempre no Príncipe de Mônaco. Se tudo correu bem, como de costume, enquanto você lê esta coluna, devo estar lá, encostado no balcão, observando a ressaca do réveillon de Copacabana — a dos corpos, a das promessas e a das expectativas exageradas. Mantenho esse ritual mesmo em anos difíceis, justamente por isso. O 1º de janeiro nunca foi, para mim, sobre excesso de otimismo. É mais sobre tradução: entender o que ficou pelo caminho, misturar o que sobra na taça com o que falta no coração e perceber o que, com algum cuidado, ainda dá para levar adiante. Um chope bem tirado não organiza a existência, mas ajuda a entender em que parte do caminho a gente está. Uma gelada tomada sozinho num dia como esse também ajuda a aprender, com o tempo, que não há como ter controle sobre a manchete do próprio ano que passou. Há temporadas em que o título vem em letras garrafais, como um troféu do seu time depois de anos de espera. Em outras — e pode ser logo a seguinte — o destaque é bem menos festivo: o fim de um amor após mais de uma década de paixão. Não foi o bar que contou isso para mim, mas foi ali que deu para ler melhor o subtítulo. Com um chope no balcão, sem plateia, entendi que algumas histórias não acabam: mudam de lugar. Saem da rotina, permanecem na formação. Meu primeiro chope de 2025 não imaginava como o ano viria. Que venha o de 2026 Thales Machado/ O GLOBO O bar, nessas horas, é menos um refúgio e mais um espelho. Não elimina a tristeza, mas ajuda a organizá-la. Ela não some, apenas encontra um canto onde cabe melhor. A maturidade emocional também não surge numa grande epifania, dessas que dariam um belo parágrafo final de romance. Ela aparece depois do terceiro ou quarto chope, entre uma conversa atravessada e outra, no intervalo em que você percebe com alguma nitidez quem já não é — e quem talvez esteja começando a ser. É ali, sem fogos ou solenidade alguma, que o ano passado se acomoda e o próximo começa a ganhar forma. Com o ano novo, vem também a chance de enxergar o futuro com menos cobrança. Não como promessa, mas como possibilidade. O bar ajuda nisso porque é um lugar onde ninguém exige grande coerência: dá para querer mudar tudo e, ao mesmo tempo, não ter certeza de nada. Dá para brindar o que passou e respeitar o que ainda dói. Entre um gole e outro, o amanhã vai se desenhando sem discurso motivacional, só com a calma de quem entende que seguir em frente também pode ser um gesto discreto, quase silencioso — tal qual o sujeito que chega sozinho no botequim, pede seu remédio com um gesto simples, engole, paga e sai sem dar um pio, na poética melancolia de simplesmente prosseguir. Não sei exatamente o que esse novo ano vai ser. Mas já sei em quais balcões pretendo estar quando ele, de fato, acontecer. Porque, no fim das contas, planejar o ano pelos bares é um jeito honesto de planejar a vida: sem roteiro fechado, mas com bons pontos de apoio. É menos sobre beber e mais sobre desejar — desejar continuar curioso, disponível, inteiro o suficiente para sentar, pedir um tira-gosto um pouco mais arriscado e se pegar pensando na vida sem tanto drama. Alguns balcões ajudam a organizar o passado, outros empurram gentilmente para frente. Todos lembram que o amanhã não precisa vir em discurso motivacional: às vezes ele chega só pedindo licença, puxando um banquinho e perguntando se pode ficar mais um pouco. Um feliz ano novo.