O ano de 2025 entrou oficialmente para a lista dos três anos mais quentes já registrados em escala global, e marcou um episódio histórico na trajetória do aquecimento climático: pela primeira vez, a média de temperatura dos últimos três anos superou de forma consistente os 1,5 °C acima da era pré-industrial, limite estabelecido pelo Acordo de Paris de 2015 para evitar alterações climáticas perigosas e irreversíveis. Leia também: O que é um ciclone extratropical e como ele se forma? Entenda em infográficos Ciclone visto do espaço pela Nasa: satélite mostra dimensão do fenômeno sobre o Sul do Brasil As informações são de um relatório da World Weather Attribution (WWA) e identifica 157 eventos climáticos extremos em 2025 que preencheram critérios de impacto humanitário, indicando condições como mais de 100 mortes, mais da metade da população de uma área afetada ou a declaração de estado de emergência pelos governos. Entre eles, destaca-se a frequência excepcional de ondas de calor e inundações, que estiveram entre os fenômenos mais recorrentes e danosos do ano. No Brasil, 2025 também foi marcado por eventos climáticos extremos que afetaram cidades de norte a sul. Chuvas intensas, ondas de calor, granizo e tornados provocaram mortes, desalojamentos e prejuízos generalizados, mostrando como o país ainda enfrenta dificuldades para lidar com fenômenos de grande intensidade e frequência crescente. O primeiro grande alerta veio ainda em janeiro, quando um forte temporal atingiu a cidade de São Paulo. A chuva intensa e concentrada provocou alagamentos em avenidas e estações de trem e metrô, arrastou carros e deixou parte da capital sem energia elétrica. O volume registrado em poucas horas superou o acumulado esperado para todo o mês, paralisando o transporte público, agravando o trânsito e levando a Defesa Civil a acionar, pela primeira vez, um sistema de alerta direto nos celulares da população. Telefone celular exibe alerta severo da Defesa Civil para tempestade em São Paulo X/reprodução Segundo a análise da WWA, ondas de calor e inundações foram os tipos de evento mais registrados, seguidos por tempestades, incêndios florestais, secas prolongadas e ondas de frio. Desses extremos, 22 ocorrências receberam análise aprofundada para investigar como as mudanças climáticas alteraram sua probabilidade e intensidade. Em abril, foi a vez do Rio de Janeiro enfrentar uma das situações mais críticas do ano. Chuvas intensas atingiram a Região Serrana e levaram Petrópolis a decretar situação de emergência. Em apenas um dia, os acumulados ultrapassaram a marca de 300 milímetros em alguns pontos, provocando deslizamentos, alagamentos e danos à infraestrutura urbana. O impacto das chuvas se espalhou por diferentes regiões do estado, da capital à Costa Verde, colocando o Rio em estágio máximo de atenção. Em fevereiro, o Rio Grande do Sul enfrentou uma onda de calor intensa, com temperaturas acima dos 40 °C em várias cidades do interior. O calor prolongado afetou a rotina da população, pressionou o abastecimento de água, trouxe prejuízos ao campo e expôs a dificuldade das cidades em lidar com temperaturas cada vez mais elevadas. Ainda no Sul, o avanço de tempestades severas voltou a provocar estragos. Em Erechim, no norte gaúcho, uma forte chuva de granizo atingiu dezenas de bairros, deixou centenas de pessoas feridas e causou danos em escolas, unidades de saúde e prédios públicos. A cidade decretou situação de emergência, suspendeu aulas e precisou acolher famílias que ficaram sem condições de permanecer em casa após a destruição de telhados e estruturas. Chuva de granizo afetou 17 mil moradores em Erechim (RS) Milena Mezalira/Comunicação Prefeitura Municipal de Erechim A grande São Paulo voltou a enfrentar um episódio de vento extremo associado à passagem de um ciclone extratropical, que derrubou árvores, interrompeu serviços. Com rajadas próximas de 100 km/h em pontos da capital, o vendaval deixou cerca de 2,26 milhões de imóveis sem energia na Região Metropolitana — número equivalente a cerca de um quarto dos clientes — e afetou também o abastecimento de água em bairros que dependem de bombeamento, além de provocar cancelamentos de voos em Congonhas e Guarulhos, impactar a circulação de trens e levar ao fechamento temporário de parques e equipamentos públicos; no interior, houve registro de deslizamento com morte em Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira. O episódio mais extremo do ano, no entanto, foi registrado no interior do Paraná. Um tornado de grande intensidade atingiu municípios da região central do estado, com impacto especialmente severo em Rio Bonito do Iguaçu. O fenômeno deixou ao menos seis mortos, provocou destruição generalizada e obrigou milhares de pessoas a deixarem suas casas. Classificado entre os tornados mais fortes já registrados no Paraná, o evento levou à decretação de calamidade pública e mobilizou uma força-tarefa estadual e federal para atendimento às vítimas e início da reconstrução. A avaliação da WWA aponta que, em muitos casos, o aquecimento global induzido por atividades humanas — especialmente a emissão contínua de gases de efeito estufa pela queima de combustíveis fósseis — tornou esses eventos mais prováveis e mais severos. Em algumas ondas de calor, a frequência foi estimada como até dez vezes maior do que ocorreria uma década atrás. A análise evidencia também diferenças significativas de impacto entre regiões e grupos sociais. Em áreas com infraestrutura de alerta e adaptação limitada, o relatório registra lacunas sérias de dados e limitações metodológicas que dificultam quantificar o total de danos humanos. Entre os eventos estudados, as ondas de calor foram os mais mortíferos, enquanto secas prolongadas intensificaram incêndios florestais em várias regiões. Tempestades tropicais e ciclones causaram destruição generalizada, e chuvas intensas e enchentes em diferentes continentes resultaram em dezenas de mortes e deslocamentos em massa. O relatório aborda ainda os chamados “limites de adaptação”. Em muitas comunidades, a frequência e intensidade dos eventos climáticos ultrapassaram a capacidade de resposta, deixando populações vulneráveis sem tempo, recursos ou infraestrutura adequada para se proteger ou se recuperar. Os números gerais reforçam que a influência humana no sistema climático é evidente. A presença de altas temperaturas globais, mesmo em anos com fenômenos naturais de arrefecimento como La Niña, indica que o aquecimento de fundo causado por emissões de gases de efeito estufa está sobrepondo os ciclos naturais. A WWA conclui que cada décimo de grau de aquecimento importa, não apenas em termos de médias globais, mas também na manifestação prática de riscos climáticos extremos. Embora ainda seja possível limitar o aquecimento futuro com políticas adequadas de redução de emissões, a vulnerabilidade crescente e a escassez de capacidade adaptativa em muitas regiões tornam esses esforços urgentes. O relatório serve como um retrato detalhado dos desafios enfrentados em 2025 e alerta sobre a complexidade dos impactos das mudanças climáticas em curso, reforçando a necessidade de ações climáticas robustas para enfrentar fenômenos extremos que tendem a se tornar cada vez mais frequentes e severos.