Menos planos e mais surpresas

E na roleta russa dos jornais diários, saio presenteado com uma coluna no primeiro dia do ano. O dia da esperança, dos votos, da limpeza das casas, das listas, das promessas, do perdão, das promessas de perdão, da ressaca depois da euforia e do ócio antes do retorno triunfal à velha vida. Gostaria de estar em festa pela caprichosa escolha do acaso, mas quase sinto culpa por eu, um paulista de poucos amigos (desculpem o pleonasmo), ocupar o nobre espaço no mais inspirador dia do ano. Tânia Maria. Estrela de 'O agente secreto', é louvada por revista americana: 'Autoridade arrebatadora' Ano novo. Conheça a tradição do Ano Novo no Equador que queima bonecos e máscaras na virada Sento-me a escrever sem um plano, e percebo ser este o primeiro dos meus 52 anos que inicio assim, como começo esse texto, sem planos. Até no ano um seguimos planos traçados dia a dia, meticulosamente, por nossas mães. Agora que ela se foi e os planos também, talvez seja a hora de investir no contraplano, ou no não plano. Ser menos paulista, menos capricorniano, menos metódico, menos estratégico e, por 15 ou 20 dias do ano, menos eu. Ser menos pode ser o tal do plano. Falar menos, pensar menos, julgar menos e (o.k., coragem): ler menos. Sim, porque não me sai da cabeça o dia em que, depois de uma palestra em uma feira de livros em Bonito, no Mato Grosso do Sul, no meio do ano, o jovem das melhores perguntas dentre seus amigos, afiado e espirituoso, se aproximou para fazer uma confissão ao lado deles: “Eu só li um livro inteiro em minha vida.” Julgamos pessoas pela quantidade de livros que elas leem e nos sentimos piores por, mesmo trocando dias de sol por quartos refrigerados, não lermos tanto o quanto gostaríamos. Nos apegamos à ideia de que só grandes leitores serão pessoas que realmente valem a pena. E aí, falando com aquele jovem, entendi que sua sensibilidade era talhada pela história de sua própria vida. Enquanto os amigos que riam dele liam, ele vivia. Pensei sobre a relação obsessiva com os livros e o quanto não estamos submetidos a uma espécie de livrocracia. Vale mais quem lê mais? Será? Conheci na mesma feira adolescentes que não largavam livros nem para assistir aos debates. Quando tentei falar com eles, duas ou três vezes, foi uma tragédia monocórdica e desinteressada. Havia repertório gramatical, mas não havia vida. Eu tinha bem mais a dizer sobre isso, mas o espaço está acabando. Pena, adoraria continuar. E pensar que há alguns minutos nem plano eu tinha. Que o ano de 2026 seja assim, menos planos e mais surpresas pelo caminho.