Meu Réveillon inesquecível

Passei muitos e muitos anos sem perder um réveillon. Ano Novo é a minha data favorita; a gente sabe que nada muda só com a virada do calendário, mas o desejo de mudança é genuíno e bonito e, pelo menos na praia, a energia é real: milhões de pessoas mentalizando a mesma coisa no mesmo instante, sonhando juntas com um mundo melhor. Tânia Maria. Estrela de 'O agente secreto', é louvada por revista americana: 'Autoridade arrebatadora' Ano novo. Conheça a tradição do Ano Novo no Equador que queima bonecos e máscaras na virada Houve anos em que emendei uma festa na outra e vi o sol nascer, houve anos em que fiz programa romântico a dois, houve anos em que fui sozinha para a praia com as crianças e voltei cedo para casa: levávamos palmas brancas para Iemanjá, víamos os fogos, pulávamos as ondas. Durante muito tempo, independentemente da programação do dia 31, eu ia também à Praia da Urca, na véspera da véspera, para acompanhar os barcos de Iemanjá. Quem me apresentou a esse ritual foi Ricardo Cravo Albin, que tinha a casa mais bonita do mundo logo ali em frente e que fazia, ele mesmo, um barco bem carregado de oferendas que ia para a água com os pedidos dos amigos reunidos. Meu réveillon inesquecível foi, é claro, o pior. Um grupo de amigos decidiu alugar uma escuna e lá fomos nós, as crianças e eu, ver a queima de fogos pelo outro lado. Foi ruim desde o começo: o tempo não estava firme, o mar estava batido e os fogos foram mais fumaça do que outra coisa. Ainda assim nos divertimos bastante entre nós, a tal ponto que, na volta, parte da turma quis seguir até a Ilha Grande. Nessa parte estava o Paulinho; a Bia e eu desembarcamos, pegamos um táxi e, antes das duas, chegamos em casa. Só que... O prédio estava trancado, e descobrimos que a única chave que havíamos levado tinha ficado com o Paulinho. Àquela hora, ele e chaveiro já estavam para lá de Grumari. O prédio não tinha interfone. Os primeiros celulares só chegariam ao Brasil dois anos depois. Esperamos, esperamos — e nada. Pelo visto todos os vizinhos já tinham se recolhido. Resolvi que íamos dormir num hotel. Não havia táxi. Fomos a pé até a orla. Eu tinha um cartão de crédito e minha carteira de identidade. — E a criança? A Bia não tinha identidade porque, naquela época, criança ainda não usava carteira de identidade, e ninguém era maluco de levar certidão de nascimento para o barco. — Minha filha. — Lamento, mas não posso deixar criança subir sem documento. E ela era a minha cara! Expliquei a situação, pedi, implorei, a Bia chorou; porta nenhuma se abriu. A cena se repetiu em meia dúzia de hotéis, um depois do outro. Estávamos morrendo de sede, de fome, de cansaço. Conseguimos água num hotel, nos deixaram usar o banheiro em outro. Quarto, porém, nem pensar. No fim, mortas, atravessamos a rua, deitamos na areia, ficamos olhando para o céu e esperamos clarear. É possível que a gente tenha dormido um pouco, não sei mais. Depois, dia claro, voltamos para casa, onde ainda esperamos um tanto pelo Paulinho. Ele chegou felizão do passeio, chave na mochila.