Ao darmos as boas-vindas ao Ano-Novo, uma prática comum em muitas culturas é estabelecer resoluções. O Ano-Novo representa um marco temporal significativo no calendário, quando muitas pessoas definem novos objetivos para o ano que começa. Na Austrália, por exemplo, mais de 70% de homens e mulheres (mais de 14 milhões de australianos) relataram ter feito pelo menos uma resolução de Ano-Novo em 2022. Promessas ou compromissos de Ano-Novo não são novidade. Essa prática existe há muito tempo. A maioria das culturas antigas realizava algum tipo de tradição religiosa ou festival no início do novo ano. Cartões de resoluções de Ano-Novo do início do século XX. Wikimedia Os babilônios Historicamente, os primeiros registros de pessoas que fizeram promessas de Ano-Novo (que mais tarde passaram a ser chamadas de resoluções) vêm dos antigos babilônios, há cerca de 4.000 anos. Os babilônios também foram a primeira civilização a realizar celebrações registradas em homenagem ao Ano-Novo. Para eles, porém, o ano não começava em janeiro, mas em meados de março, quando as plantações eram iniciadas. As resoluções de Ano-Novo estavam profundamente ligadas à religião, à mitologia, ao poder e aos valores socioeconômicos. Acredita-se que os babilônios tenham iniciado a tradição de um festival de Ano-Novo de 12 dias chamado Akitu. Estátuas das divindades eram desfiladas pelas ruas da cidade, e rituais eram encenados para simbolizar a vitória sobre as forças do caos. Durante esse festival, as pessoas plantavam colheitas, juravam lealdade ao rei reinante ou coroavam um novo rei, e faziam promessas de pagar dívidas no ano seguinte. Os babilônios acreditavam que, se cumprissem suas promessas de Ano-Novo, os deuses os favoreceriam no novo ano. Akitu era o festival babilônico do Ano-Novo. Wikimedia Roma Antiga A Roma Antiga deu continuidade à tradição de celebrar o Ano-Novo e fazer promessas. Inicialmente, o Ano-Novo romano era comemorado em 15 de março (os Idos de Março), pois era nesse período que os mais importantes oficiais romanos (cônsules) assumiam seus cargos. O festival de Anna Perenna, uma deusa italiana do Ano-Novo e do início da primavera, também era celebrado em 15 de março. O calendário juliano O imperador Júlio César introduziu o calendário juliano em 46 a.C., declarando o dia 1º de janeiro como o início do Ano-Novo. Essa nova data homenageava o deus romano Jano. Simbolicamente, Jano tem duas faces: uma voltada para o passado e outra para o futuro. Ele era o protetor das portas, arcos, limiares e transições para novos começos. Estátua representando Jano Bifronte nos Museus do Vaticano. Wikimedia A cada Ano-Novo, os romanos ofereciam sacrifícios a Jano e renovavam os laços entre os cidadãos, o Estado e as divindades. Bênçãos e presentes eram trocados (como frutas doces e mel), e alianças eram reafirmadas ao imperador. As celebrações e promessas de Ano-Novo estavam profundamente inseridas na espiritualidade, nas estruturas de poder e no tecido social da cultura romana. A era da cavalaria Na Idade Média (aproximadamente entre 500 e 1500 d.C.), cavaleiros medievais juravam lealdade e renovavam seus votos de cavalaria e bravura a cada Ano-Novo. Diz a lenda que os votos de cavalaria mais célebres eram conhecidos como o Voto do Pavão ou do Faisão. Os cavaleiros colocavam as mãos sobre um pavão vivo ou assado e renovavam seus compromissos com os valores da cavalaria. Acredita-se que as cores esplêndidas e variadas dessas aves simbolizassem a majestade dos reis e da nobreza. Além da bravura e da honra, a cavalaria exercia funções sociais e religiosas. Ela reforçava divisões sociais de riqueza, prestígio e superioridade que serviam aos interesses da nobreza dominante e da aristocracia fundiária. Assim, a cavalaria tornou-se semelhante a um clube exclusivo da elite. Na Idade Média, o Ano-Novo era celebrado em diferentes épocas do ano por diferentes sociedades. Devido a um erro de cálculo, o calendário juliano havia acumulado sete dias extras até o ano 1000. Manuscrito alemão do início do século XIV retratando um cavaleiro e sua dama. Wikimedia Commons Tempos modernos Para resolver os problemas associados ao calendário juliano, o calendário gregoriano foi instituído pelo papa Gregório XIII em 1582. O Ano-Novo foi oficialmente restabelecido em 1º de janeiro. A religião continuou a exercer forte influência social e cultural sobre o propósito e a função das promessas de Ano-Novo. No século XIX, por exemplo, o protestantismo enfatizava resoluções fortemente alinhadas à religião, à espiritualidade e ao caráter moral. No entanto, no século XIX há indícios de que as resoluções começaram a ser satirizadas. Uma série de resoluções satíricas foi publicada na *Walker’s Hibernian Magazine* (1802), como: “Os estadistas resolveram não ter outro objetivo em vista além do bem de seu país”. As resoluções tornaram-se uma prática comum, e as pessoas passaram a fazer e quebrar promessas, assim como acontece hoje. Já em 1671, a escritora escocesa Anne Halkett registrou em seu diário a resolução: “Não ofenderei mais”. Assim como no passado, pessoas de diferentes culturas continuam a celebrar o Ano-Novo (embora em datas diferentes) e a estabelecer resoluções. Da mesma forma que as civilizações antigas rezavam por colheitas abundantes, as resoluções atuais também refletem valores sociais. As resoluções contemporâneas tendem a ser mais seculares do que religiosas ou sociais. Conceitualmente, porém, as resoluções de Ano-Novo continuam a capturar a imaginação, as esperanças e as promessas de melhoria pessoal. Mesmo após 4.000 anos, o Ano-Novo segue simbolizando um novo limiar — uma oportunidade de recomeço. * Joanne Dickson é Professora de Psicologia e Saúde Mental na Edith Cowan University. * Este artigo foi republicado do The Conversation sob uma licença Creative Commons. Leia o artigo original.