Chuvas intensas devem seguir ao longo do 1º trimestre Rede Amazônica Em meio à cheia atípica que atingiu mais de 20 mil pessoas, Rio Branco fechou 2025 com o mês de dezembro mais chuvoso da história, com 561,6 milímetros acumulados, conforme a Defesa Civil Municipal. O índice representa mais que o dobro do esperado para o período, que era de 268,4 mm. Ainda segundo o monitoramento, a média diária de chuvas foi de 18,1 mm. Participe do canal do g1 AC no WhatsApp Rio Branco viveu, em pleno mês de dezembro, um cenário que não se repetia há 50 anos para a época: alagações provocadas por fortes chuvas registradas na última semana que fizeram igarapés urbanos e o Rio Acre transbordarem no sábado (27). A situação atípica envolvendo o principal manancial do estado atingiu mais de 20 mil pessoas. Rio Acre fica abaixo da cota de transbordo após cinco dias de cheia na capital "A média diária do mês de dezembro, se chovesse todos os dias, seria 8 ou 9 mm. Dessa vez deu quase 20 [milímetros] por dia. Então, mais do que o dobro. É por isso que nós dobramos também a quantidade de chuva", explicou o coronel Cláudio Falcão, coordenador do órgão. Foram 293,2 mm a mais do que o estimado. E, ainda segundo a Defesa Civil, a influência das chuvas deve continuar constante nos próximos meses, com chuvas acima da média, até o fim do primeiro trimestre de 2026. Ainda segundo Falcão, mesmo com o nível do Rio Acre em vazante e esteja abaixo da cota de transbordo, a situação pode mudar rapidamente, com isso, a Defesa Civil de Rio Branco segue em alerta para novos transbordamentos. LEIA MAIS: Contato com água de enchentes aumenta risco de doenças, alerta infectologista Por conta de cheias, Acre decreta situação de emergência em cinco municípios Com sistema em teste, Defesa Civil diz evitar disparo amplo de alertas durante enchente em Rio Branco: 'Vai trazer pânico' "A água que o Rio Acre está recebendo não é suficiente para aumentar o nível, por isso vai continuar decrescendo, e talvez agora com uma velocidade maior. Entretanto, tem chuva vindo, mas tudo em proporções que não devem alteram muito o cenário, mas isso pode mudar, estamos falando de previsão", ponderou. Estragos Em dezembro, a capital acreana chegou a acumular mais de 100 mm de chuvas em 24 horas, com uma tempestade que causou a interdição de residências e remoção de três famílias de suas casas no dia 17. Somente naquela data, foram feitos mais de 200 atendimentos com distribuição de cerca de 220 kits de limpeza. Contudo, do dia 6 daquele mês, a capital acumulou 79,8 mm em 24 horas, o equivalente a oito dias da média diária esperada para o mês. O rio, que marcava 5,57 metros antes das chuvas, registrou um salto de 2,28 metros e atingiu 8,03 metros. A forte chuva, inclusive, fez com que o governo e a prefeitura adiassem o acender das luzes de Natal no Centro da capital. As chuvas seguiram intensas ao longo de todo o mês, e o Rio Acre transbordou após subir 3,84 metros em 24h. O que explica a cheia atípica? O doutor em Meteorologia e professor da Universidade Federal do Acre (Ufac), Rafael Coll Delgado, explicou que o episódio é considerado atípico do ponto de vista climático, mas explicável do ponto de vista meteorológico, já que foi causado pela atuação de um sistema atmosférico raro na região. ⛈️ O principal fator por trás das chuvas extremas foi a atuação de um Vórtice Ciclônico de Altos Níveis (VCAN), um sistema atmosférico mais comum no Nordeste, mas que se deslocou de forma incomum para o oeste do país. "Nesse caso de Rio Branco, ele se posicionou como uma alta pressão em torno de 10 quilômetros de altitude e começou a se deslocar para o interior do continente, atingindo a região oeste do Brasil", detalhou. De acordo com o especialista, os alertas de tempestade já vinham sendo emitidos para a Região Norte. Inclusive, os modelos meteorológicos já indicavam, entre os dias 24 e 25 de dezembro, o deslocamento desse sistema em direção ao Acre. O VCAN, que tem grandes dimensões, favoreceu a formação de tempestades severas na região. “Não é um vórtice pequeno. A dimensão dele é realmente muito grande, atingiu a Bolívia, a faixa de Goiás e, na sequência, avançou em direção ao estado do Acre. Isso já vinha sendo observado nos modelos meteorológicos", afirmou. Cheia Igarapé São Francisco - dezembro de 2025 - Rio Branco, AC Lucas Thadeu/Rede Amazônica Instabilidades intensas e chuvas concentradas O meteorologista explicou que, embora o núcleo do VCAN seja associado à estabilidade atmosférica, suas bordas, chamadas de vanguarda, favorecem a formação de nuvens profundas e tempestades severas, como as que atingiram Rio Branco e municípios do interior. "No núcleo do vórtice, há ausência de formação de nuvens. Mas, na vanguarda do sistema, ou seja, nas áreas frontais do vórtice, há uma instabilidade atmosférica muito intensa que favorece a formação de células convectivas profundas, tempestades e volumes elevados de precipitação", complementou. Imagens de satélite analisadas durante o evento mostraram nuvens com desenvolvimento vertical extremo, indicando alto potencial de chuva. "Quando a gente observa imagens de satélite com topos de nuvens atingindo temperaturas inferiores a -100ºC, isso significa que essas nuvens ultrapassaram a troposfera e alcançaram a tropopausa. Isso é um indicativo claro de atividade convectiva muito intensa e, consequentemente, de chuvas volumosas, afirmou. VÍDEOS: g1