Após mais um Ano Novo em guerra, militares ucranianos duvidam que paz chegue em 2026

Enquanto a contagem para a chegada de 2026 começava, um oficial ucraniano olhava as telas à sua frente. No ar, vários drones procuravam tropas russas e estavam prontos para atacar. Pode ter sido o começo de um novo ano, mas para aqueles na linha de frente, era apenas um dia como outro qualquer. Discurso de Ano Novo: 'Acordo de paz está pronto em 90%', diz Zelensky aos ucranianos Território e usina nuclear: Entenda quais são os impasses que ainda travam o acordo de paz entre Ucrânia e Rússia Para muitos soldados em seu batalhão, conhecido como “Lobos Da Vinci”, não era momento para fazer votos ou resoluções. As forças russas estão avançando, as recentes negociações de paz não chegaram a conclusões, e eles não veem a guerra perto do fim. Para o novo ano, um soldado disse que o objetivo era apenas sobreviver. — É difícil fazer planos — concordou o oficial, que atende ao nome de guerra de Sam. Este será o quarto ano da invasão russa. Poucos soldados no leste ucranianos acreditam que seja o último. 'Contando cada dia': Sargento ucraniano passou mais de um ano preso em bunker No começo de 2025, o então presidente eleito dos EUA Donald Trump dizia que poderia encerrar a guerra em 24 horas. Em fevereiro, Trump humilhou o líder ucraniano, Volodymyr Zelensky, na Casa Branca, ameaçando cortar a ajuda e exibindo o que muitos em Kiev veem como simpatia declarada a Moscou. Os meses seguintes foram de altos e baixos. Negociações começaram e terminaram sem sucesso. A relação entre EUA e Ucrânia teve momentos bons e ruins. Ao mesmo tempo, a guerra estava mudando. Drones dominaram o campo de batalha, tornando movimentos de tropas mais perigosos. Forças russas passaram a usar agrupamentos menores em seus ataques. A Ucrânia, mesmo em minoria, foi forçada a se adaptar e a se manter na defensiva. Brasileiro contra como é a dramática luta na linha de frente contra os russos  A linha de frente se moveu a passos lentos, sem os mesmos holofotes da diplomacia. De maneira arrastada e sangrenta, o cálculo favorecia as forças russas, que começaram a avançar mais rapidamente nos últimos meses. Isso, segundo analistas, convenceu o presidente da Rússia, Vladimir Putin, de que tinha a mão mais forte na mesa de negociações. Ele repetiu que a Ucrânia deveria se curvar às suas demandas antes que a guerra se tornasse ainda pior. Entre elas, a cessão dos territórios que Kiev ainda controla no leste, um objetivo prioritário do Kremlin. 650 drones: Ataque russo em larga escala deixa ao menos três mortos e provoca apagões na Ucrânia As forças russas no leste marcharam em direção a Pokrovsk. Os ucranianos se entricheiraram, usando forças para defender a cidade e áreas próximas, que ainda seguem sob seu controle. Analistas dizem que o movimento deu aos russos uma abertura para avançar mais rapidamente em outras áreas, como a região de Zaporíjia, no sul. O mesmo aconteceu em Dnipro, disse um soldado de uma brigada que atuou na área no último dia de 2025. — Eles dizem que só precisam da região de Donetsk, mas veja quanto conquistaram em Dnipro — disse o soldado, que se identificou apenas pelo nome de guerra Dyak, se referindo aos russos. Três décadas de parceria: Quem é o aliado de Vladimir Putin que se levantou contra a guerra na Ucrânia Perto de um pequeno fogão, Dyak disse que seu Ano Novo, o quinto nas Forças Armadas, não parecia um feriado, mas apenas “o fim do mês”. Ele não se mostrou confiante nos recentes esforços de paz, afirmando que a guerra se arrastará por pelo menos mais dois anos. — Se Trump pode encerrar a guerra, então que o deixem fazer isso mais rápido — acrescentou. O chefe da inteligência militar ucraniana, Kyrylo Budanov, alertou na semana passada que o objetivo russo para 2026 é a conquista completa das regiões de Donetsk e Zaporíjia. Moscou também quer avançar o máximo possível na região de Dnipro, afirmou o militar ao portal Suspline. Soldados russos erguem bandeira do país no centro de Pokrovsk, cidade estratégica na Ucrânia Ministério da Defesa da Rússia / AFP Na véspera do Ano Novo, as equipes de drones comandadas por Sam, na direção de Novopavlivka, tentavam impedir isso. Por volta das 19h, houve muita atividade, com ataques e transporte de suprimentos. Ao lado do oficial havia outros quatro militares, trabalhando em turnos de 12 horas. Quando um deles chegou ao fim de seu dia de trabalho, seu colega perguntou sobre o ambiente. — Não está muito bom — respondeu. — Te vejo ano que vem. Pouco depois, a longa mesa no centro de comando se viu livre das armas e computadores. Pequenos pratos de peixe em conserva, salsichas, queijo, repolho e outros pratos ucranianos foram servidos, ao lado de xícaras e uma garrafa de vinho espumante sem álcool. Serhii Filimonov, o comandante do batalhão, disse que embora a refeição não substitua uma ceia com amigos ou parentes, ele quis levar algum conforto ao posto de comando. Afirmou que foi um ano duro para os militares ucranianos, e que “estamos todos cansados”. Militares ucranianos em posto de comando no leste acompanham discurso do presidente Volodymyr Zelensky, na noite de Ano Novo Cassandra Vinograd/The New York Times Mesmo assim, disse que era importante lembrar que a Rússia não atingiu seus principais objetivos em 2025, como a captura de Pokrovsk e outras cidades. — Quando vemos o estado do inimigo e suas ações, nos dá a fé de que tudo ficará bem — afirmou. Mas ele não queria fazer resoluções, dizendo que elaborar planos de longo prazo em meio à guerra era um “tema doloroso” para os ucranianos. Filimonov tem dois filhos, um menino de oito anos e uma menina de dois, que estão “crescendo sem ele”. — Minha única esperança é que a guerra acabe antes que meu filho cresça, para que assim não tenha que lutar.