O império da dor

“O império da dor” é o terrível título do livro de Patrick E. Keefe, que depois virou uma série de seis episódios na Netflix contando como a família Sackler se tornou em pouco tempo uma das mais ricas dos Estados Unidos quando seu patriarca, com talento para medicina e para marketing, e alma de gângster, inventou, no início dos anos 1990, um analgésico mais poderoso que a morfina que eles vendiam como seguro, mas provocou milhares de mortes e milhões de dependentes até ser desmascarado, fazendo desabar o império construído sobre a dor nos Estados Unidos. O sucesso do OxyContin foi espetacular. Realmente ele cessava ou aliviava qualquer dor, crônica ou pontual, de qualquer intensidade. Um milagre em comprimidos. Sackler usou tudo, primeiro para conseguir uma aprovação da rigorosa FDA para vender a droga, corrompendo funcionários e políticos, gastando fortunas em marketing mentiroso, vendedoras que seduziam médicos para receitar a droga. O problema era que o remédio tinha que ser tomado de 12 em 12 horas, mas depois de oito horas deixava de fazer efeito e as dores voltavam mais fortes, até chegar a hora da seguinte dose, num interminável círculo viciado, em doses cada vez maiores. Os processos de desintoxicação são terríveis. A pessoa entra em síndrome de abstinência e sente dores pavorosas em todo o corpo, que só passam justamente com os analgésicos de que ela está tentando se livrar. O único jeito é aguentar firme e esperar passar. Ou voltar à dependência e suas consequências. Dor é assunto sério, ponto fraco da fragilidade humana. Uma simples dor de dente pode enlouquecer o homem mais poderoso e mais rico do mundo. Imagine outras piores. Pior do que dor, só falta de ar. A dor ao menos tem remédios poderosos para vencê-la, ainda que com consequências graves como a dependência. Já a falta de ar só tem aparelhos para alívio temporário... Michael Jackson morreu de uma overdose de Propofol e Prince de uma overdose de Fentanil. Morreram de drogas contra a dor, analgésicos ultrapoderosos receitados por médicos que criaram seis milhões de dependentes. Mas os remédios e receitas foram ficando tão caros que os dependentes foram buscar a heroína de rua, muito mais barata, mas devastadora. Essas mortes de ícones e epidemia dos analgésicos parecem uma metáfora dos Estados Unidos atual, em que as pessoas morrem para não sentir dor. Mas só quem sente dor sabe o que é isso. Falo das dores físicas, porque as morais, as humilhações, as rejeições, os abandonos, as difamações, essas não há dr. Slacker que dê jeito. * * * * * * É absurda a história de que um barco abatido pelos Estados Unidos no Caribe estava contrabandeando cocaína e maconha para os consumidores americanos. Quem faria a estupidez de levar maconha para um país onde ela é liberada, cultivada e comercializada na maioria dos estados ? Quanto à cocaína, para acabar com o narcoterrorismo basta Trump mandar os americanos pararem de cheirar. Eles são o maior mercado consumidor do mundo.