Neste começo de 2026, viva sua vida e vá ser feliz: nada de esperar o amanhã

Sentado no Manolo, tomando um chope e comendo um sanduíche, vejo um universo de memórias passar na minha frente. Era uma terça vadia, dessas em que terminamos antes o expediente e nos brindamos com o que gostamos. Havia tempos que não parava ali. Havia tempos que não andava pela Bambina, rua de Botafogo pertinho de onde estudei até a quarta-série e onde Marina, a dona das melhores festas da época, morava. Petrópolis: a sensação é de assistir ao mesmo filme a cada nova chuva Vassouras: Nas histórias do novo museu, um passado que não cabe na vitrine Com o chope a tiracolo, conseguia observar o antigo prédio de Marina e uma tasquinha do play. Foi ali que minha turminha da escola descobriu o que era “festinha americana”, dançar música lenta e até o fatídico (e dificílimo pra alguns) primeiro beijo. Marina não mora mais ali. Tia Marisa, mãe dela e uma das mulheres mais bacanas que conheci, também não. Daquela turminha das descobertas, só sei algo pelas redes sociais e, mesmo assim, quando o algoritmo me brinda com alguma atualização. Casa destruída No finalzinho da Bambina há uma casa em estado de abandono. Raízes já tomaram conta de parte da fachada e do telhado. Quem vê, acha que não teve importância alguma. Ali morou um ex-presidente da República. Quando garoto, Fernando Henrique Cardoso corria de um lado para o outro na hoje construção em ruínas. Apesar de nascido no Rio, a carreira acadêmica e política do sociólogo foi em São Paulo. Mistura do balé europeu tradicional e repertórios das ruas cariocas: um passeio pela história dos teatros no Rio Casa na rua sem saída Quando minha avó Yolanda me chamava pra almoçar, não tinha negociação. Não largava a bola até ela aparecer no muro da Floriano Peixoto, em Petrópolis. Ela assoviava e ai de mim se não fosse. Perdi vovó com 13 anos. Até hoje lembro do assovio dela. Terreiro da tia Assunta Falei de minha vó e lembrei de tia Assunta e Ivana, a filha dela e grande educadora do estado do Rio. Italiana, tia Assunta liderava um terreiro no Valparaíso, em Petrópolis. Sem entender nada de nada, cansei de jogar bola no espaço onde teria logo, logo o ritual de fé. Gentilmente, na hora exata, pediam que parássemos com o futebol. Sob protestos, parávamos. Hoje, o local é um hotel. Não preciso nem dizer que infelizmente tia Assunta e Ivana não estão mais aqui, né? Praça Onze: local que o Rio destruiu foi de Tia Ciata, do samba e da religiosidade Cuidado Nostalgia costuma ser um prato que sempre comemos cru, mas não observar o tempo é um pacto com a perda. Escrevo essa coluna escutando duas músicas, “Oração ao Tempo”, de Caetano Veloso, e “Tempo Rei”, de Gilberto Gil. Saber que eles estão na casa dos 80 me deixa tão angustiado. As histórias escondidas do Catumbi: bairro era sinônimo de elegância e prestígio no século XIX Por fim Tudo isso pra dizer, neste começo de 2026, que viva sua vida e vá ser feliz. Nada de esperar o amanhã. Coluna dedicada Essa coluna é dedicada à memória do repórter Caio Alex, um dos grandes nomes do jornalismo policial no Rio de Janeiro. Aos 52 anos, nos deixou. Preciso escrever mais?