Número de passageiros de ônibus em São Paulo segue em queda mesmo com domingo gratuito

O número de passageiros que usam diariamente o ônibus na cidade de São Paulo segue em queda e abaixo do nível de antes da pandemia mesmo com novas gratuidades implementadas pela prefeitura, mostram dados da SPTrans disponibilizados em reunião que foi realizada nesta sexta-feira (2). A frota também diminuiu. O encontro virtual foi realizado para detalhar os custos do sistema após a prefeitura anunciar um aumento na passagem, de R$5,00 para R$5,30, que seguirá e será válido a partir de 6 de janeiro. A reunião do Conselho Municipal de Trânsito e Transporte (CMTT) ocorreu durante a manhã e contou com representantes da SPTrans e da sociedade civil e foi marcada por críticas à forma como o processo de aumento da passagem foi conduzido. Nomes como o especialista em mobilidade urbana Rafael Calabria, que trabalha no gabinete do vereador Nabil Bonduki (PT), criticaram a convocação do encontro durante o período de recesso. — Absurdamente abusiva a forma como (o processo) está sendo conduzido. Primeira vez que a reunião (do conselho) ocorre após o aumento. A prefeitura precisa fazer um debate melhor — disse Calabria. Os dados da SPTrans mostram que o número de usuários que usam o sistema de ônibus diariamente na cidade segue em queda, mesmo com as novas gratuidades implementadas pela gestão Ricardo Nunes (MDB), como o Domingo Tarifa Zero, implementado em dezembro de 2023, e a gratuidade para mães de crianças de 0 a 4 anos levarem os filhos para a escola, em março de 2025. A média de passageiros diários no sistema de janeiro a novembro era em 2018 de 9,4 milhões de usuários. Em 2019, caiu para 8,8 milhões e foi para 5,1 milhões em 2020, na pandemia. Em 2022, subiu para 6,8 milhões, em 2023, para 7,03 milhões e, em 2024, registrou um leve aumento, para 7,13 milhões. No ano de 2025, no entanto, foi registrada nova queda, e o índice ficou em 7,05 milhões. Com a implementação do Domingo Tarifa Zero, o número de passageiros pagantes diminuiu. Em 2022, 57% dos usuários pagavam de forma integral pela tarifa, em 2023, 54% e em 2024, 50%, índice que se repetiu em 2025. O custo do sistema em 2025 foi de R$ 12,3 bilhões. Nesses 12 meses, prefeitura arrecadou R$ 5,1 bilhões em receita tarifária e empregou R$ 7,2 bilhões em subsídios. O valor é o maior em subsídios desde 2019, segundo os dados da SPTrans. Para 2026, a previsão é de R$ 6,2 bilhões em subsídios, mas esse número pode aumentar. Ao longo do ano de 2025, a frota operacional empregada na cidade foi de 12.094 ônibus, 719 veículos a menos que antes da pandemia, em 2019, quando eram 12.813 veículos nas ruas. Reajuste questionado O aumento da passagem é questionado na Justiça pelos gabinetes de dois vereadores. Nabil Bonduki pediu que a reunião que foi realizada nesta sexta fosse adiada questionando a realização da discussão durante o período de recesso de fim de ano. Já o vereador Dheison Silva (PT) argumentou supostas irregularidades na condução do aumento, alegando a ausência de um decreto do prefeito que oficialize o reajuste, e questionou a decisão antes da consulta ao CMTT. O reajuste ocorreu após um período em que o valor foi mantido estável por cinco anos em R$ 4,40, seguido de uma única atualização para R$ 5,00 em janeiro de 2025. Segundo a prefeitura, os dados técnicos que fundamentam a decisão indicam que o novo preço está abaixo da inflação acumulada do setor (IPC-Fipe Transporte Coletivo), que registrou 6,5% no ano. Para que o valor pago pelo passageiro não atinja o custo real de operação — que segundo informou a SPTrans na reunião, seria de R$ 13,55 —, a prefeitura afirma que manterá um alto volume de investimentos públicos. Entre janeiro e novembro deste ano, foram aplicados R$ 2,8 bilhões para custear gratuidades. Transporte individual em alta Dados da pesquisa origem e destino do Metrô, divulgada em 2025 mostraram mudanças na forma como a população passou a se locomover na Grande São Paulo. No maior aglomerado urbano do país, invertendo uma tendência histórica, a população passou a andar mais de transporte privado do que público, mostra a pesquisa Origem Destino 2023, realizada pelo Metrô e divulgada em fevereiro do ano passado. Em 2023, 51,2% dos deslocamentos diários foram realizados por transporte individual na região — carro, moto, táxis ou carros de aplicativo. Em 2017, na edição anterior do levantamento, o transporte coletivo liderava com 54,1%. Ao mesmo tempo, a população passou a sair menos de casa no pós-pandemia. Em 2017, eram 42 milhões de viagens diárias (considerados todos os tipos de deslocamentos), número que caiu para 35 milhões em 2023, redução de 15%. O transporte coletivo perdeu três milhões de viagens diárias — a maioria nos ônibus —, enquanto o individual perdeu 116 mil, ainda que a população tenha crescido 2% no período. Historicamente, o transporte coletivo quase sempre superou o individual, com exceção de 2002, quando o individual chegou a 52,3% dos deslocamentos e o público era 47,7%. Nas pesquisas seguintes, os modais coletivos voltaram a liderar, tendência que só se inverteu novamente em 2023. O fenômeno se reflete na taxa de mobilidade urbana, que considera quantas vezes por dia a pessoa sai de casa para algum deslocamento: caiu de 2,02 viagens por pessoa em 2017 para 1,68 em 2023. É a primeira vez que há redução nas viagens motorizadas desde 1967, quando foi feita a primeira pesquisa Origem Destino.