O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, nomeou nesta sexta-feira o então diretor do serviço de inteligência militar, Kyrylo Budanov, como seu novo chefe de Gabinete, em substituição ao ex-titular da pasta Andriy Yermak, que renunciou em novembro em meio a denúncias de corrupção — provocando uma reformulação há muito esperada na cúpula do governo de Kiev. Após mais um Ano Novo em guerra: Militares ucranianos duvidam que paz chegue em 2026 Veja vídeo: Rússia divulga imagens de suposto drone da Ucrânia usado em ataque contra a residência de Putin Um dos generais mais importantes da Ucrânia, Budanov, de 39 anos, é conhecido por estar vinculado a uma série de operações complexas e ousadas contra a Rússia desde o início do conflito, incluindo um ataque que resultou na explosão da ponte construída por Moscou, ligando o território russo à Crimeia. Initial plugin text "Eu tive uma reunião com Kyrylo Budanov e ofereci-lhe o cargo de Chefe do Gabinete da Presidência da Ucrânia. Neste momento, a Ucrânia precisa de maior foco em questões de segurança, no desenvolvimento das Forças de Defesa e Segurança da Ucrânia, bem como na via diplomática das negociações, e o Gabinete da Presidência servirá principalmente para o cumprimento dessas tarefas do nosso Estado", afirmou Zelensky em um anúncio via redes sociais, acrescentando que o jovem general teria a "experiência especializada" nas ditas áreas de atenção. Considerado uma lenda entre as fileiras ucranianos — e um criminoso procurado na Rússia —, o militar é chamado pela imprensa ucraniana de "homem sem sorriso". Ele revela pouco sobre suas origens e vida pessoal, e mantém um perfil discreto. Ainda assim, vinha sendo cotado como um candidato à sucessão de Zelensky, em um momento que tanto Rússia quanto EUA exigem eleições no país como parte de uma transição para a paz. Initial plugin text Em sua própria publicação on-line, Budanov aceitou o novo cargo, dizendo ser "uma honra e uma responsabilidade em um momento histórico para a Ucrânia". "Vamos continuar fazendo nosso trabalho: derrotar o inimigo, defender a Ucrânia e trabalhar para alcançar uma paz justa", declarou. A nomeação do general pode ser um desdobramento inquietante para a Rússia, uma vez que seu antecessor exercia um papel central nas negociações de paz mediadas pelo EUA. Em sentido contrário, a entrada do militar pode ser bem vista por Washington, com quem Budanov mantém uma forte relação — ele foi treinado em um programa apoiado pela CIA e, após ser ferido em combate no leste da Ucrânia, recebeu tratamento no Centro Médico Militar Nacional Walter Reed, em Maryland, em uma concessão rara para um soldado ucraniano. Histórico operacional Budanov foi nomeado chefe da inteligência militar em 2020, pelo próprio Zelensky. Na época, com apenas 34 anos, ele já tinha reputação por operações secretas audaciosas que, ocasionalmente, ultrapassavam os limites do que era aceitável para a liderança da Ucrânia e seus aliados ocidentais. Sob sua liderança, o serviço de inteligência militar ucraniano realizou missões de assassinato e sabotagem atrás das linhas inimigas, inclusive em território russo. Em 2016, ele liderou uma equipe na península da Crimeia, ocupada pela Rússia, onde planejavam plantar explosivos em um aeródromo. Quando combatentes russos os interceptaram, a unidade de Budanov revidou, matando vários russos, incluindo o filho de um general. Os ucranianos tiveram que nadar de volta para o território controlado pela Ucrânia, mas não sofreram baixas. A operação enfureceu a Casa Branca, que temia provocar a Rússia, e provocou uma dura repreensão de Joe Biden, então vice-presidente. Repercussão política A transição de um renomado chefe de espionagem para um cargo político traz incertezas tanto no plano operacional quanto para o futuro governo. Além de não estar claro quem vai substitui-lo como chefe dos serviços de inteligência, a aproximação com Zelensky pode ter repercussão nas pretensões eleitorais. Analistas apontam que a participação no Gabinete pode pesar contra Budanov em uma futura candidatura presidencial, sobretudo após os escândalos recentes de corrupção no governo, que criaram uma importante frente de pressão interna contra o atual presidente. As acusações de corrupção que ameaçam a popularidade de Zelensky por dentro atingiram o antigo ocupante do cargo de Budanov. A residência de Yermak foi alvo de uma operação de busca em uma investigação. Ele também era acusado por opositores controlar o acesso ao presidente e afastar vozes críticas, sendo questionado pelo acumulo de poder dentro do governo. Outra função que Budanov pode ter que exercer, a julgar as ocupações de Yermak, é o de negociador de paz com mediadores americanos — e, eventualmente, com representantes russos. O general manteve contato com o lado russo como parte de seu mandato para negociar trocas de prisioneiros — algo incomum entre a alta liderança ucraniana. (Com AFP e NYT)