Após polêmica com palco gospel no réveillon, Paes promete estátua em homenagem a Tata Tancredo, sacerdote da umbanda e incentivador do festejo

Após a festa de réveillon, marcada por uma polêmica envolvendo acusações de intolerância religiosa contra a prefeitura pela montagem de um palco gospel, o prefeito Eduardo Paes (PSD) usou as redes sociais nesta sexta-feira para voltar ao assunto. Ele pediu desculpas caso tenha ofendido alguém e afirmou que vai criar uma estátua em homenagem a Tata Tancredo, sacerdote da umbanda e grande incentivador da festa da virada do ano, que vem as práticas de religiões de matriz africana. Paes disse ainda que vai dialogar para definir a melhor forma de prestar a homenagem ao líder religioso. A controvérsia em torno do palco gospel ganhou repercussão após o Ministério Público Federal (MPF) abrir investigação para apurar se houve privilégio a uma religião na organização do evento. Copacabana já tem alterações no trânsito para a festa de réveillon: entenda o que muda no bairro CLIQUE AQUI E VEJA NO MAPA DO CRIME DE NITERÓI COMO SÃO OS ROUBOS NO SEU BAIRRO Em publicação na rede social X, o prefeito reafirmou o compromisso com as religiões de matriz africana e com o combate à intolerância religiosa. “Quero reafirmar, de forma muito clara, meu compromisso com o povo de axé e com as religiões de matriz africana. Não foram poucas as vezes em que saí em defesa dessas tradições, do respeito à fé e do combate à intolerância religiosa. E seguirei sempre assim. Peço novamente desculpas sinceras se algum post meu ofendeu praticantes dessas religiões. Essa nunca foi — e nunca será — minha intenção. O gênero musical gospel teve mais um ano de sucesso nas areias do Leme, dentro de uma programação plural, diversa e democrática, que é a marca do Rio. Por fim, registro que a sugestão para a criação de uma estátua em homenagem a Tata Tancredo será atendida. Vou dialogar com lideranças religiosas para construir, juntos, a melhor forma de fazer essa homenagem tão importante para a cidade. Com isso, vamos valorizar a ancestralidade africana, reafirmando o compromisso da cidade com a liberdade religiosa e reconhecendo líderes que ajudaram a construir o Rio”, escreveu. A homenagem tem respaldo na história da cidade. A tradição da celebração da virada do ano à beira-mar tem origem em práticas das religiões de matriz africana e foi incentivada por Tancredo da Silva Pinto, o Tata Tancredo, descrito pelo escritor e historiador Luiz Antonio Simas como “líder religioso, sambista e personagem fundamental da cultura do Rio de Janeiro”. Com o passar do tempo, o povo dos terreiros, responsável pela criação da celebração, perdeu espaço para o espetáculo de grandes proporções em que se transformou o réveillon de Copacabana. Os ritos tradicionais seguem sendo realizados, mas em outras datas e locais. Hoje, a virada do ano é também uma grande atração turística. Tata Tancredo, inclusive, será o enredo da escola de samba Estácio de Sá no carnaval de 2026. Initial plugin text Entenda Na última semana, o colunista Ancelmo Gois publicou uma crítica do professor e babalawô Ivanir dos Santos. Ele disse que o problema não é a existência do palco gospel, mas a falta de tratamento igualitário para as mais diversas religiões: “a diversidade não pode ser apenas um discurso, ela exige práticas concretas de reconhecimento, representação e igualdade no uso do espaço público”, afirmou ele. Milhões de pessoas assistem à queima de fogos no réveillon de Copacabana Divulgação Riotur / Foto de Gabriel Monteiro 01/01/25 O prefeito foi às redes rebater o posicionamento de Ivanir dos Santos. Paes afirmou haver preconceito nas críticas contra o palco gospel: "o povo Cristão também tem direito a celebrar", escreveu no X. Em outro comentário, o prefeito disse ainda que o movimento poderia "radicalizar uma cidade aberta para todas as crenças". Depois, no X, Paes voltou ao tema. "Peço desculpas a quem é contra o palco gospel se me fiz entender mal. Minha defesa as religiões de matriz africana e a liberdade religiosa de forma geral é pública e notória!", escreveu. Ele conta que recorreu a uma ferramenta de inteligência artificial para analisar os gêneros que estarão nos 13 palcos da cidade e que o gospel representa 6,25% das apresentações musicais do réveillon. A IA então apontou que dois dos gêneros mais ouvidos no Brasil, o trap e sertanejo, quase não tinham representantes entre os artistas. "Como não sou eu que faço a grade de quem vai ou não tocar parabenizo o time do Abel Gomes (organizador do réveillon) pelas escolhas. Achei as análises positivas mas alguns ajustes terão que ser feitos no próximo ano. Pelo jeito alguns ritmos como Sertanejo e Funk vão ter que entrar mais. Como todo mundo sabe o meu ritmo é samba e MPB. Estou bem atendido na física", completou Paes.