Maioria dos ucranianos é contra cessão de Donbass para a Rússia e limites às Forças Armadas, aponta pesquisa

Uma pesquisa divulgada nesta sexta-feira mostrou que a maioria dos ucranianos é contra a cessão de territórios no leste do país à Rússia, e rejeita qualquer limite ao tamanho das Forças Armadas. Os dois pontos são demandas centrais de Moscou nas negociações sobre um acordo de paz para o conflito iniciado há quase quatro anos, mas cujo desfecho ainda parece incerto a curto prazo. 'Homem sem sorriso': Zelensky nomeia general diretor do serviço de inteligência como chefe de Gabinete 'Difícil fazer planos': Após mais um Ano Novo em guerra, militares ucranianos duvidam que paz chegue em 2026 Segundo os números do Instituto Internacional de Sociologia de Kiev, 74% dos entrevistados não aceitam ceder o leste do país, na região conhecida como Donbass, aos russos, incluindo áreas ainda controladas por Kiev, assim como limitar a quantidade de tropas em tempos de paz e sem garantias de segurança confiáveis contra novas invasões. Foram entrevistadas mil pessoas entre novembro e dezembro do ano passado. Os dois pontos estavam presentes em uma versão inicial do plano de paz apresentado pela Casa Branca, e que foi criticado pelos aliados da Ucrânia e por Kiev: na ocasião, o presidente Volodymyr Zelensky afirmou que estava diante de uma escolha difícil, “perder a dignidade ou perder um aliado”. A pesquisa comprova que, para a maioria da população, aceitar os termos do Kremlin seria o equivalente a uma capitulação. Território e usina nuclear: Entenda quais são os impasses que ainda travam o acordo de paz entre Ucrânia e Rússia A Rússia ocupa hoje cerca de 20% do território ucraniano, incluindo a Crimeia, anexada unilateralmente em 2014, e áreas das regiões de Donetsk, Luhansk, Zaporíjia e Kherson, que também passaram a ser consideradas pelos russos como parte de seu território. Nenhuma das anexações foi reconhecida pela comunidade internacional, mas o líder russo, Vladimir Putin, exige a validação como uma das condições para baixar as armas. O Kremlin ainda quer um limite de 600 mil homens e mulheres nas Forças Armadas ucranianas, mas Kiev aceitaria um patamar de 800 mil. Ao mesmo tempo, 69% dos entrevistados apoiam — sem muito entusiasmo, como ressaltou o instituto — o plano alternativo elaborado por Europa e Ucrânia, que prevê garantias de segurança com respaldo ocidental, o congelamento da linha de frente (sem o reconhecimento dos territórios russos) e um caminho para a adesão à União Europeia. “Talvez não seja óbvio para representantes da mídia estrangeira e especialistas, mas mesmo o congelamento da linha de frente atual significa que milhões de ucranianos serão forçados a viver sob a dura realidade da ocupação, e milhões de deslocados internos e refugiados não terão a oportunidade de retornar para casa”, escreveu o diretor-executivo do instituto, Anton Hrushetsky, em comunicado. “Este já é um compromisso enorme e muito difícil para os ucranianos.” Sem apresentar evidências de ataque: Rússia diz que endurecerá negociações de paz após suposta ofensiva da Ucrânia contra Putin Hrushetsky destaca que o otimismo presente em declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, e até certo ponto por Zelensky não encontra respaldo popular. Apenas 10% dos entrevistados acreditam que a guerra terminará no início do ano e para 29% o fim será apenas em 2027. Para 33% dos ucranianos ouvidos, a resposta foi “não sei”. 62% dos entrevistados se disseram prontos para enfrentar a guerra “pelo tempo que for necessário”. “Vemos que a maioria está consistentemente disposta a suportar a guerra pelo tempo que for necessário para uma conclusão aceitável”, declarou Hrushetsky. “Não estamos falando de uma vitória completa e, de fato, a maioria dos ucranianos avalia a situação com sobriedade. Mas a paz não pode ser capitulação, e os ucranianos estão prontos para continuar a resistência.” Forças ucranianas disparam foguetes contra posições ucranianas na região de Zaporíjia Andriy Andriyenko / 65ª Brigada Mecanizada das Forças Armadas da Ucrânia / AFP Enquanto versões de acordos de paz circulam entre capitais, o conflito prossegue em solo ucraniano. Nesta sexta-feira, Kiev ordenou a retirada de 3 mil crianças e seus responsáveis de 44 localidades próximas à linha de frente em Zaporíjia e Kherson, onde as forças russas avançaram nas últimas semanas. Há uma ordem semelhante para Chernihiv, próximo à fronteira com a Bielorrússia, país aliado de Moscou e usado na invasão. "No total, 150 mil pessoas foram evacuadas das zonas de linha de frente para regiões mais seguras desde 1º de junho. Entre elas, quase 18 mil crianças e mais de 5 mil pessoas com mobilidade reduzida", disse o ministro da Reconstrução, Oleksiy Kuleba, no Telegram.