Quase uma semana depois do estouro dos protestos contra o derretimento da economia e das condições de vida no Irã, o presidente dos EUA, Donald Trump, ameaçou intervir se o regime “atirar e matar de forma violenta manifestantes pacíficos”, pouco mais de seis meses depois de bombardear instalações nucleares do país. O regime respondeu, afirmando que a segurança local era uma “linha vermelha”. Não se sabe até que ponto Trump está disposto a usar seu poderio militar — como quer um de seus maiores aliados , Israel — mas o resultado final pode não ser o esperado pela Casa Branca. Pressão das ruas: Com moeda em queda livre, Irã vê nova onda de protestos contra a crise econômica, e regime fica em alerta Guga Chacra: De olho no Irã e Cuba neste 2026 A mensagem de Trump na rede Truth Social foi publicada nas primeiras horas de sexta-feira e, como de hábito, em tom enigmático: se o regime matasse manifestantes, “como é seu costume, os Estados Unidos da América virão em seu auxílio”, e que seu governo está “pronto para agir”. Ele não deu detalhes sobre o que poderia fazer, ou qual seria o limiar para uma ação. Desde o estouro dos protestos, na semana passada, oito pessoas morreram. Em Teerã, o regime reagiu com declarações inflamadas e ameaças. Ali Larijani, secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, disse que Trump “deveria saber que a interferência americana nessa questão interna equivale ao caos em toda a região e à destruição dos interesses americanos”. Abbas Araghchi, chanceler, chamou o comportamento do americano de “inconsequente e perigoso”. Ali Shamkhani, conselheiro do líder supremo, Ali Khamenei, declarou que a segurança do Irã é uma “linha vermelha, e não é material para postagens aventureiras”, e que “qualquer tentativa de interferência na segurança do Irã sob pretextos será interrompida com uma resposta lamentável”. Manifestantes atacam prédio do governo em Fasa, no sul do Irã, durante protesto UGC / AFP Maior movimento nas ruas desde 2022, quando milhares protestaram contra a morte da jovem Mahsa Amini — e quando mais de 500 pessoas foram massacradas pelas forças de segurança —, a onda de manifestações iniciada no final do ano passado tem como ponto central a crise econômica. A moeda local, o rial, bateu recorde de desvalorização frente ao dólar e ao euro, a inflação gira em torno de 50% ao ano e itens básicos, como alimentos e medicamentos, dispararam de preço nos últimos meses. Os impactos das mudanças climáticas, como a seca que ameaça o suprimento de água de Teerã, e a corrupção endêmica também contribuíram para os protestos, que começaram com comerciantes e depois se espalharam. Em paralelo, gritos contra o regime — como o “morte ao ditador” — passaram a circular, além de menções ao filho do último monarca iraniano, Reza Pahlevi, que vive nos EUA, mas passa longe de ser unanimidade na República Islâmica. “Até o momento, os distúrbios atuais se assemelham mais aos protestos econômicos de 2017, 2018 e de novembro de 2019: descentralizados, desencadeados por choques econômicos, estendendo-se para além dos principais centros urbanos e reprimidos com violência”, escreveu em artigo Sina Toossi, pesquisador do Centro para Política Internacional, baseado nos EUA. “A participação de comerciantes desde o início é notável, e uma simpatia pública mais ampla é evidente, mas uma mobilização sustentada entre as classes sociais — e quaisquer deserções dentro do Estado — ainda estão ausentes.” 10% da capacidade dos reservatórios: Com maior seca em seis décadas, Teerã corre o risco de ficar sem água 'em semanas', e presidente defende mudar capital de lugar Apesar da repressão, com relatos de uso de armas de fogo pelas forças de segurança, o regime tenta passar a mensagem de que busca o diálogo. O presidente, Masoud Pezeshkian, afirmou que as demandas deveriam ser ouvidas, e os serviços de segurança creditam os atos de violência a “indivíduos externos aos manifestantes, sob ordens ou orientação de atores estrangeiros”. Mohammad Moyahedi-Azad, procurador-geral do Irã, além de atacar as falas de Trump, disse que raiz da crise, além de “deficiências de gestão”, são resultado das sanções econômicas impostas ao país, ligadas ao programa nuclear e às atividades de mísseis balísticos. — As sanções unilaterais, cruéis e ilegais dos EUA são, sem dúvida, um claro exemplo de terrorismo econômico contra a nação iraniana — completou Moyahedi-Azad, em entrevista à agência estatal ISNA. Com retórica bélica: Política externa de Trump reforça ambições de Rússia e China ao empregar coerção Depois de bombardear instalações nucleares e se declarar o responsável por encerrar a guerra aérea de 12 dias entre Irã e Israel, em junho, Trump parecia ter colocado a República Islâmica em segundo plano em seu radar diplomático. O plano para encerrar a guerra em Gaza, que teve a primeira fase assinada em outubro, foi apresentado como uma vitória, embora o cessar-fogo esteja por um fio. Na Ucrânia, há meses afirma que um acordo está próximo, apenas para ser desmentido pela Rússia de Vladimir Putin, que não parece interessada em baixar as armas tão cedo. O presidente dos EUA, Donald Trump, concede uma coletiva de imprensa com o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, em Mar-a-Lago JOE RAEDLE / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / Getty Images via AFP Mas na segunda-feira, após receber na Casa Branca o premier israelense Benjamin Netanyahu — que defende a mudança de regime em Teerã —, Trump voltou a mencionar, de maneira bélica, o Irã. Em entrevista coletiva, deixou no ar a possibilidade de um novo ataque, desta vez voltado ao arsenal de mísseis balísticos, e disse que seria “mais inteligente” se os iranianos concordassem com um novo acordo nuclear. O texto anterior, de 2015, estabelecia limites às atividades de enriquecimento e apertava o sistema de monitoramento, em troca do levantamento de sanções. Trump rasgou o acordo, ampliou as sanções e agora quer um modelo ainda mais restritivo, o que não agrada os aiatolás. Dias depois da reunião com o premier de Israel, Trump soltou a publicação no Truth Social. “Superficialmente, parece ser um apoio aos manifestantes; na prática, é mais provável que vise desestabilizar o atual momento do Irã — injetando ansiedade econômica e volatilidade política — do que sinalizar uma ação militar iminente”, escreveu Toossi. No Parlamento israelense: Trump afirma que cessar-fogo em Gaza é 'um amanhecer histórico de um novo Oriente Médio' Para o pesquisador, é uma estratégia sem qualquer garantia de sucesso, e que pode ter efeitos indesejados para a Casa Branca. Ele lembra que, na História iraniana, ameaças estrangeiras ajudaram a fortalecer o discurso estatal, mesmo antes da República Islâmica, e a consolidar a elite que garante a sobrevivência do regime. A sombra de intervenção, mesmo que não se concretize, pode servir para que o regime aperte o cerco à oposição, com mais mortes nas ruas. Caso decida agir, pode repetir enredos desastrosos produzidos por Washington nas últimas décadas, além de jogar por terra seu discurso de "presidente da paz". “Trump rejeitou publicamente campanhas de mudança de regime sem prazo definido, o que ajuda a explicar a abordagem atual: incentivar a agitação interna enquanto prepara o terreno retórico para uma intervenção militar mais restrita e ‘humanitária’, direcionada a instituições políticas e de segurança”, aponta Toossi. “O problema é que essa lógica interpreta erroneamente a dinâmica dos protestos iranianos e o histórico de tais intervenções — do Iraque e Afeganistão à Líbia e Síria.”