Como porcos chegaram a ilhas tão distantes do Pacífico, como o Havaí, milhares de anos antes da era moderna? Uma pesquisa internacional ajuda a responder a essa pergunta ao rastrear a origem genética dos porcos domésticos e criados soltos que hoje vivem em ilhas espalhadas da Ásia ao Pacífico. Vídeo: Frio histórico nos EUA faz iguanas 'caírem do céu' na Flórida durante o Ano Novo O estudo indica que a maioria desses animais descende de porcos transportados por grupos de língua austronésia, que partiram do sudeste da China e de Taiwan há cerca de 4.000 anos. Eles viajaram junto com humanos em longas jornadas marítimas, em canoas, e se estabeleceram em novas ilhas à medida que essas populações migravam. Publicado na revista Science, da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS), o trabalho mostra que, após a chegada, esses porcos permaneceram geneticamente isolados. Segundo os pesquisadores, não houve cruzamento com espécies selvagens locais ao longo da rota austronésia, que inclui áreas como Filipinas e Sulawesi. Uma linhagem preservada ao longo das ilhas A exceção ocorreu em Wallacea, região insular entre a Ásia e a Austrália, onde alguns porcos que se tornaram selvagens acabaram cruzando com espécies locais. Fora desse contexto, os dados indicam uma notável preservação genética ao longo de séculos. A pesquisa foi liderada por David W. G. Stanton, em colaboração com cientistas de instituições como a Queen Mary University of London, a Universidade de Oxford, a Universidade de Estocolmo e centros de pesquisa em mais de 15 países, incluindo Filipinas, Austrália e Indonésia. Para reconstruir essa história, a equipe analisou 117 genomas de porcos modernos, antigos e de museu, além de mais de 700 dentes. O formato da dentição foi uma pista-chave, revelando características distintas nos porcos do Pacífico, associadas ao isolamento e à adaptação a novos ambientes insulares. Os cientistas identificaram ainda um grupo genético específico, chamado de “Clado do Pacífico”, presente na maioria dos porcos desde Wallacea até o Havaí. Esse clado aparece principalmente a leste da Linha de Wallace, uma fronteira biogeográfica que separa a fauna asiática da australiana. O estudo também detectou mudanças posteriores. Durante o período colonial, porcos europeus foram introduzidos em regiões como Papua-Nova Guiné e Nova Caledônia, o que levou a uma nova mistura genética. Ainda assim, a maior parte dos porcos do Pacífico mantém a linhagem original trazida pelos austronésios. Os autores destacam que gargalos genéticos, isolamento prolongado e adaptações específicas marcaram essa dispersão. Para eles, a história desses animais ajuda a entender como as migrações humanas moldaram não apenas culturas, mas também a vida animal e os ecossistemas de ilhas remotas — um processo que futuras análises genômicas mais detalhadas ainda devem aprofundar.