Mais de 70 anos depois de serem descobertos, dois fragmentos dos Manuscritos do Mar Morto classificados como “ilegíveis” finalmente tiveram seu conteúdo revelado. Conhecidos como Manuscritos Crípticos B, os fragmentos 4Q362 e 4Q363 continham um alfabeto desconhecido, o que levou especialistas a considerá-los, por décadas, impossíveis de decifrar. A reviravolta veio com o trabalho do pesquisador Emmanuel Oliveiro, da Universidade de Groningen, na Holanda. Aceitando um desafio que muitos julgavam infrutífero, Oliveiro identificou que os símbolos enigmáticos correspondiam, de forma consistente, ao alfabeto hebraico. O processo levou cerca de dois meses. Em entrevista ao jornal Haaretz, o pesquisador contou que chegou a ouvir de amigos que poderia “ficar preso por 40 anos” sem conseguir avançar — expectativa que se mostrou equivocada. Texto antigo, temas eternos A decifração revelou que os fragmentos trazem conteúdos de natureza religiosa, com forte afinidade com temas bíblicos ligados ao fim dos tempos. Há menções ao julgamento divino, à vinda do Messias e ao destino de Israel, além de referências a nomes como Yisrael (Israel), Judá, Jacó e Elohim, outro termo para Deus. O manuscrito 4Q362 contém trechos que evocam passagens conhecidas da Bíblia, como Jeremias 20:18 e Malaquias 2:12, embora não as cite diretamente. Expressões como “a tua glória” e “as tendas de Jacó” sugerem uma ligação com promessas de restauração após o julgamento e advertências sobre fidelidade à comunidade hebraica, temas recorrentes nas tradições proféticas. Os fragmentos também mencionam datas e governantes, com referências ao “segundo ano” e ao “quinto mês”, possivelmente alinhadas a convenções históricas ou proféticas. Um elemento intrigante é a menção a uma sepultura misteriosa, descrita de forma que não encontra paralelo direto em outros textos bíblicos conhecidos, segundo o próprio Oliveiro. O segundo manuscrito, 4Q363, apresentou maiores dificuldades de interpretação. Uma frase repetida pode se referir tanto a “suas filhas” quanto a “suas aldeias”, e o nome Benayahu — comum à época — dificulta a identificação precisa do personagem citado. Essas ambiguidades mantêm parte do conteúdo em aberto. Os manuscritos foram produzidos pelos qumranitas, comunidade judaica que viveu próximo ao Mar Morto há mais de dois milênios e ficou conhecida por preservar textos religiosos. Escritos em couro hoje rachado, escurecido e fragmentado, os textos usam tinta preta e apresentam caligrafia irregular, com letras de proporções variáveis e correções visíveis, o que reforça a complexidade material do achado. Para Oliveiro, a escolha por um alfabeto cifrado pode ter servido a um propósito ritual ou simbólico, restringindo o acesso a membros iniciados da comunidade, como elites sacerdotais. Apesar da aparência enigmática, o pesquisador afirma que não há mensagens ocultas ou místicas: a complexidade estava na forma, não no conteúdo. Feitos para parecer ilegíveis, os manuscritos atravessaram séculos em silêncio — até agora.