Dezembro costuma ser um mês de "maratonas gastronômicas". Entre despedidas, jantares de Natal e comemorações de Ano Novo, o corpo precisa lidar com uma demanda incomum por alimentos. A combinação de gorduras saturadas, açúcares refinados e álcool produz uma sensação imediata de peso e desencadeia um mecanismo fisiológico complexo que, se sobrecarregado, pode levar à inflamação e ao desconforto persistente. Restaurar o bem-estar não exige medidas extremas. A chave está em compreender como o sistema digestivo reage e proporcionar-lhe as condições adequadas para a sua autorregulação. Estado de alerta Quando uma grande quantidade de alimentos ricos em calorias é ingerida em um curto período de tempo, o sistema digestivo entra em estado de alerta. De acordo com a gastroenterologista Daiana Belén García, o impacto começa nos órgãos de filtragem e processamento e o corpo responde sobrecarregando a vesícula biliar e o fígado, com o consequente aumento da secreção de ácidos biliares. Essa sobrecarga tem efeitos mecânicos e químicos. — O consumo de alimentos gordurosos e ultraprocessados leva a uma digestão difícil, alterando o esvaziamento gástrico, além de relaxar a junção esofagogástrica, responsável pelo refluxo e pela azia tão comuns após uma refeição farta — acrescenta García. Os sintomas comumente descritos como sensação de peso têm uma origem clara. Diante de uma grande ingestão concentrada de gorduras e açúcares, o sistema digestivo ativa diversos mecanismos para processá-los. — O estômago se distende e retarda o esvaziamento gástrico, principalmente devido ao alto teor de gordura. O intestino delgado recebe uma carga maior de nutrientes, o que estimula a liberação de hormônios digestivos. O pâncreas aumenta a produção de enzimas para digerir gorduras e carboidratos, e o fígado intensifica o metabolismo de açúcares, gorduras e álcool. Embora esse trabalho extra seja temporário, ele explica grande parte do desconforto digestivo subsequente — explica a gastroenterologista Romina Tosti. Esses sintomas têm múltiplos mecanismos. Não se trata de um único fator, mas sim de uma combinação de sobrecarga, digestão mais lenta e aumento da pressão no trato digestivo. A sensação de peso está relacionada ao esvaziamento gástrico lento, especialmente após a ingestão de alimentos gordurosos. A distensão abdominal deve-se ao acúmulo de gases e fluidos no intestino , resultante da fermentação de açúcares e do excesso de volume ingerido. A azia ocorre porque o estômago produz mais ácido e, além disso, a distensão favorece o refluxo gastroesofágico. Órgãos sob pressão Não se trata apenas de um desconforto estomacal. O fígado e o pâncreas são os "trabalhadores silenciosos" que mais sofrem. — A curto prazo, o fígado prioriza o metabolismo do álcool e do excesso de calorias, o que pode levar a um acúmulo temporário de gordura no fígado e ao aumento do estresse metabólico. O pâncreas, por sua vez, aumenta a secreção de enzimas digestivas e insulina. Em indivíduos saudáveis, essas alterações geralmente são reversíveis. No entanto, em pessoas com condições preexistentes, como esteatose hepática, diabetes ou dislipidemia, o impacto pode ser maior — explica Tosti. O risco pode ser maior se não houver moderação. García alerta para casos mais graves: — Se o consumo de álcool for elevado em um curto período de tempo, pode levar à inflamação do fígado, chamada hepatite alcoólica. O pâncreas também é estimulado a produzir mais enzimas, o que pode causar pancreatite, exigindo hospitalização e causando inflamação sistêmica — diz. De uma perspectiva complementar, a medicina tradicional chinesa (MTC) — uma tradição ancestral que postula que o bem-estar depende do fluxo harmonioso da energia interna — oferece uma explicação que conecta o físico ao emocional. Carolina Winograd, especialista na área, destaca que o bem-estar depende do fluxo harmonioso da energia interna. — Quando comemos mais do que conseguimos processar, o primeiro sistema energético afetado é o baço, responsável por extrair energia útil dos alimentos. Se o baço fica sobrecarregado, perde força, e essa exaustão se traduz em peso físico, lentidão mental e uma queda geral na vitalidade. Não se trata simplesmente de 'sonolência': é o corpo tentando realizar uma tarefa que está além de sua capacidade — enfatiza Winograd. O estômago também fica desregulado. Em vez de funcionar no seu ritmo normal, a digestão torna-se lenta e preguiçosa. É por isso que surgem o inchaço, a azia e aquela sensação desconfortável que pode durar horas. A medicina tradicional chinesa descreve isso como estagnação: o centro do corpo fica tão sobrecarregado que perde a capacidade de continuar o processamento. — Além dessa dificuldade digestiva, existe um aspecto emocional que muitas vezes ignoramos. O fígado, que regula o fluxo de energia e emoções, fica sobrecarregado quando o sistema digestivo está bloqueado . E então aparecem sinais que reconhecemos imediatamente: irritabilidade, ansiedade, dificuldade de concentração e, paradoxalmente, uma vontade maior de continuar comendo mesmo quando já estamos satisfeitos. Não é falta de força de vontade. É um desequilíbrio energético”, explica o especialista. Além disso, ele destaca um fator que muitas vezes passa despercebido: o diafragma. — Quando comemos em excesso, o diafragma perde mobilidade, a respiração torna-se superficial e o corpo entra em estado de alerta, o que aumenta o cortisol e a inflamação — afirma Winograd. Esse bloqueio também afeta o sistema linfático, dificultando a eliminação de toxinas. Estratégias de socorro Após o término das festividades, a tentação de recorrer a sucos "detox" ou jejum prolongado é grande. No entanto, especialistas recomendam cautela. César Casavola, chefe do serviço de nutrição do Hospital Alemão e presidente da Sociedade Argentina de Médicos Nutricionistas (Samenut), esclarece que não existe um alimento "mágico" específico para reduzir a inflamação, mas sim uma abordagem simples. — É recomendado repouso digestivo em caso de desconforto, ou o retorno a uma alimentação saudável nos dias seguintes, incluindo frutas, verduras, alimentos caseiros com baixo teor de gordura e evitando frituras — aponta. Reset pós-festas Para aqueles que buscam uma recuperação eficaz, existem diversas diretrizes baseadas em evidências a serem seguidas: Abstinência alcoólica: é o mecanismo comprovado mais seguro para alcançar a recuperação de danos hepáticos causados pelo consumo frequente de álcool, de acordo com Casavola. Utilização de probióticos: incorpore kefir, vinagre de maçã orgânico ou probióticos específicos para restaurar a flora intestinal. Fibras e antioxidantes: priorize cenouras cozidas (fibra solúvel), azeite de oliva extravirgem e alimentos ricos em antioxidantes, como tomates, mirtilos, melão e figos. Hidratação estratégica: para combater a retenção de líquidos causada pelo excesso de sódio, Casavola sugere o consumo de melancia, pepino, aipo, aspargos e chá verde. É comum o corpo desejar mais açúcar após vários dias de consumo excessivo. Para quebrar esse ciclo de dependência, Casavola propõe uma estratégia simples: consumir pequenas quantidades de frutas e vegetais ajuda a reduzir a vontade recorrente de comer doces. Ele sugere usar frutas congeladas e processadas, como em smoothies batidos com iogurte, ou consumir tomates, cenouras e aipo como pequenos lanches. Se ainda houver comemorações pela frente, a moderação durante as refeições é a melhor medida preventiva. A recomendação dos profissionais é unânime: Coma devagar: mastigar cada mordida de 20 a 30 vezes permite que o cérebro receba o sinal de saciedade a tempo. Hidratação alternada: beba um copo de água para cada bebida alcoólica. Respiração consciente: respire fundo para relaxar o diafragma antes e depois de comer ajuda a evitar que o corpo entre em estado de alerta. Em última análise, o corpo possui uma incrível capacidade de autorregulação. O "alívio" não vem da restrição extrema, mas sim do retorno à simplicidade: comida de verdade, bastante hidratação e, acima de tudo, a restauração do ritmo natural que o corpo precisa para se curar.