Quando rir é um ato político: Palhaços Sem Fronteiras celebram 10 anos no Sesc Tijuca

À primeira vista, o riso pode parecer leve demais para atravessar cenários de dor. Mas, ao longo de dez anos de atuação no Brasil, os Palhaços Sem Fronteiras mostraram que rir também pode ser gesto de cuidado, encontro e resistência. É em celebração a essa década de trabalho que nasce "Memorável – Histórias Notáveis", espetáculo que chega ao Teatro I do Sesc Tijuca, onde fica em cartaz do próximo sábado até 8 de fevereiro, com sessões de sexta a domingo, sempre às 16h. Viaduto de Madureira vai além do Baile Charme: samba, jongo, rima e brechó ocupam o coração da Zona Norte Família toda de mudança: menino do Complexo do Alemão vence disputa com mais de três mil bailarinos e entra para a Escola Bolshoi Vencedor do Prêmio APCA 2024 de Melhor Palhaçaria, o espetáculo condensa uma década de experiências do grupo em territórios vulneráveis e nasce do lema que orienta seu trabalho desde 2016: “Imaginar para construir, rir para transformar”. Em cena, quatro palhaços conduzem o público por relatos que falam de encontros, riscos, afetos e pausas possíveis em cenários atravessados pela dor. Com dramaturgia de Ana Pessoa e direção e criação cênica de Cristiane Paoli Quito, a montagem reúne Aline Moreno, Arthur Toyoshima, Renato Ribeiro e Tetê Purezempla. Música ao vivo, jogos cênicos, mágicas e malabares estruturam uma encenação que conversa com crianças, jovens e adultos, sem negar a realidade, mas abrindo frestas de imaginação. Prótese pronta no mesmo dia: clínica universitária aposta em odontologia digital para agilizar tratamentos — Tenho me encantado com a descoberta de pessoas abnegadas e corajosas, que usam da compaixão e do riso para oferecer acolhimento a quem precisa, muitas vezes sem considerar os próprios riscos. Talvez isso aconteça porque o espírito da inocência do palhaço esteja na essência dos Palhaços Sem Fronteiras — afirma a diretora Cristiane Paoli Quito. Cena de "Memorável – Histórias Notáveis", espetáculo do Palhaços Sem Fronteiras que celebra dez anos de atuação humanitária no Brasil Divulgação/Ricardo Avellar As histórias que inspiram "Memorável – Histórias Notáveis" vêm de ações realizadas em comunidades ribeirinhas da Bacia do Rio Doce, em territórios indígenas no Mato Grosso do Sul e em diferentes países da América Latina. Em comum, são lugares marcados por instabilidade, crise ou abandono do poder público — cenários que, em diferentes graus, também fazem parte do cotidiano de territórios populares da Zona Norte do Rio. Prótese pronta no mesmo dia: Clínica universitária aposta em odontologia digital para agilizar tratamentos Para o dramaturgo e crítico teatral Dib Carneiro, o espetáculo se destaca justamente pela delicadeza com que aborda essas experiências. — O espetáculo arrebata pela força das histórias humanistas, que escancaram para a plateia — com humor, poesia e cuidado — a importância de um projeto que leva arte a populações machucadas — analisa. 'Parem de distribuir quentinha na rua': Vereadora do Rio causa polêmica ao defender que ajuda a população de rua aumenta criminalidade Fundadora e diretora executiva do Palhaços Sem Fronteiras Brasil, Aline Moreno explica que a percepção do riso como ação humanitária surgiu logo nas primeiras intervenções da organização no país, após a chegada do projeto ao Brasil, em 2016. — O Brasil tem uma complexidade social profunda. Aqui, o riso não aparece como fuga da dor, mas como possibilidade de respiro, de reconexão com a própria humanidade. Ficou claro desde o início que rir, nesses contextos, é também um direito cultural e emocional — afirma. Segundo ela, ao longo da última década, o projeto amadureceu junto com as transformações e as crises do país. Batismo a céu aberto: Rio inaugura primeiro batistério público — O Brasil se tornou ainda mais desigual, atravessado por crises sucessivas. Ao mesmo tempo, a organização amadureceu. Hoje atuamos com mais escuta, mais vínculo com o território e com a compreensão de que a palhaçaria não chega para salvar, mas para dialogar — diz. Essa ética atravessa também o processo de criação do espetáculo. As histórias reais não são reproduzidas literalmente em cena. Elas são reelaboradas poeticamente, a partir do olhar atento ao que escapa do cotidiano, ressalta Aline. — O palco se tornou um espaço de memória, elaboração e partilha. Não para expor a dor, mas para transformá-la em experiência sensível, ética e poética — explica. Sabão, renda e água limpa: Como a Mangueira transformou óleo usado em qualidade de vida Forjado artisticamente na Baixada Fluminense, o palhaço Junior Melo, conhecido em cena como Escafura, destaca que a presença do espetáculo na Zona Norte carrega um significado especial. Morador e atuante na Mangueira, ele aponta paralelos entre diferentes territórios periféricos da Região Metropolitana. — É inevitável identificar reflexos de empobrecimento, falta de saneamento básico e abandono do Estado aqui na Zona Norte, na Mangueira. Mas são características que insistem em infligir o dia a dia de moradores que não deixam a peteca cair e muito menos o samba morrer, quando o assunto é buscar sua própria dignidade — afirma. Segundo Junior, a força cultural do território — impulsionada por atividades artísticas, esportivas e comunitárias — dialoga diretamente com os princípios do Palhaços Sem Fronteiras. Escolas de samba, saber e saúde: Mangueira inaugura polo universitário, e Salgueiro ganha clínica médica gratuita — A presença do samba no morro dialoga profundamente com os conceitos humanistas dos projetos do Palhaços Sem Fronteiras Brasil. É uma via de mão dupla, de troca, onde se aprende a cada contato, história e memória de uma comunidade que sabe fazer da sua luta um carnaval — diz. Para ele, o projeto Embaixadores do Riso, desenvolvido pela organização, traduz essa aproximação entre palhaçaria, circo e iniciativas comunitárias que já reconhecem, no cotidiano, o impacto transformador da cultura. — Para um morador mangueirense, eu diria que os Palhaços Sem Fronteiras são como o riso frouxo da avó descendo perfumada para encontrar a ala da velha guarda. Para uma criança da Mangueira, é como a ala mirim: são elas que pautam a festa, o sorriso largo e a esperança — resume. ‘Famílias inteiras sem rumo’: Restaurante tradicional é fechado em Barra de Guaratiba em ação do Exército e moradores de outras casas são notificados Selecionado pelo Edital de Cultura Sesc RJ Pulsar, Memorável – Histórias Notáveis marca a primeira temporada contínua do grupo em um espaço cultural no Rio de Janeiro, após anos de atuação no estado por meio de ações humanitárias, especialmente na Baixada Fluminense e em áreas periféricas. Para a palhaça Letícia Lisboa, moradora da Tijuca e embaixadora do Palhaços Sem Fronteiras no Rio, apresentar o espetáculo no bairro onde vive é uma forma de devolver essas histórias ao território. — É como apresentar tantas histórias incríveis no quintal de casa. O riso é um direito e uma forma de manter a dignidade em uma cidade marcada por desigualdades — diz. Onde Elis se casou, Evita almoçou e Harrison Ford quase se perdeu: Restaurante Os Esquilos, na Floresta da Tijuca, faz 80 anos Letícia enfatiza que o riso é ferramenta urgente de transformação social. — Eu não acredito que exista outra forma de enfrentar as desigualdades sociais que vivemos hoje se não for partindo do encantamento e da capacidade de sonhar. O riso nos convoca para a luta, para a vida. É preciso imaginar para acreditar na mudança e propor outras realidades. Essa realidade está falida, e é preciso muito sonho para pensar novas soluções de mundo — afirma. Ao ser questionada sobre o que mais a marcou ao longo das ações humanitárias, Letícia recorre à memória de uma intervenção recente. — Algumas cenas ficam para sempre. Em especial, uma situação vivida no Emergência do Riso, em Petrópolis. Estávamos subindo, em cortejo, por uma comunidade onde a maioria das casas estava vazia, por orientação da Defesa Civil. Encontramos um senhor que, ao nos ver, sorriu tímido e disse para voltarmos, porque já não havia mais ninguém ali. Respondemos que havia, sim: ele. Dissemos que tínhamos ido para vê-lo. Ele se emocionou profundamente. Ficamos abraçados, cantando baixinho por um tempo. Foi um momento de suspensão, muito forte — relembra. Projeto social: Aulas gratuitas de jiu-jítsu em São Januário beneficiam jovens de comunidades vizinhas Presente no Brasil desde 2016, o Palhaços Sem Fronteiras Brasil foi a primeira operação da América Latina a integrar a rede internacional Clowns Without Borders International. Desde então, atua em territórios afetados por crises humanitárias, climáticas, socioeconômicas e de violência. Com uma rede de cerca de 80 artistas profissionais, a organização já realizou projetos em dez estados brasileiros. Apenas em 2025, foram 60 ações, entre espetáculos, oficinas e intervenções artísticas, impactando mais de 14 mil pessoas. Entre os projetos emblemáticos está o Riso Doce, desenvolvido nas comunidades atingidas pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG), e no Espírito Santo. — O riso afirma a vida onde ela é negada. Isso é um gesto político — resume Aline Moreno. Os ingressos são gratuitos para o público do Programa de Comprometimento e Gratuidade (PCG). Para os demais, os valores variam entre R$ 10 (meia-entrada e conveniados), R$ 14 para habilitados Sesc e R$ 20 (inteira). Initial plugin text