Vírus letais: brinquedos infantis serão usados para treinar cientistas no 1º laboratório do Brasil de biossegurança máxima

Como brinquedos serão usados para treinar cientistas que irão atuar no Orion, em Campinas Parece brincadeira, mas é treinamento sério: brinquedos como pescaria com ímãs, jogos de bolinhas e simulador de cirurgias vão ser usados para capacitar cientistas que atuarão no Orion, o primeiro laboratório do Brasil equipado para a manipulação de micro-organismos considerados os mais perigosos pelo alto potencial infeccioso e letal. A unidade está em construção em Campinas, no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), e a previsão é que fique pronto em 2027. O g1 visitou o centro de treinamento e vivenciou uma demonstração, sem nenhum risco real, de como será a capacitação de pesquisadores. O Orion recebe a inscrição de laboratório NB4, que significa o nível de biossegurança máximo exigido para laboratórios que trabalham com agentes perigosos, ou seja, com alto risco de infecções que podem ser fatais e com potencial elevado de transmissão por aerossóis. A estrutura, que será usada para estudar vírus como o Sabiá, exige protocolos rigorosos para evitar contaminações. Para isso, o CNPEM conta com um laboratório simulador onde o treinamento começa de forma lúdica — com brinquedos de criança para desenvolver habilidades motoras e segurança emocional. De acordo com o CNPEM, a previsão é que os treinamentos para atuar no NB4 se iniciem em 2026. O laboratório será conectado ao Sirius, o superlaboratório acelerador de partículas considerado a maior estrutura científica do país. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp Etapas do treinamento: da teoria à prática O processo de capacitação dos cientistas é dividido em fases e pode durar até um ano: Teoria: os profissionais estudam regulamentações, manuais e boas práticas. Simulação: em um laboratório sem risco biológico, treinam com tintas e brinquedos. Avaliação: cada etapa só é concluída com a aprovação de um supervisor. Simulação de acidentes: no fim, aprendem como agir diante de situações reais. “Você só passa para o próximo estágio se o seu supervisor assinar dizendo que você está apto”, explica Tatiana Ometto, gerente de biossegurança do CNPEM. No início da parte prática, o treinamento é feito de forma lúdica para que o profissional se adorne dos equipamentos de proteção individual. Jogos de bolinhas ajudam a desenvolver coordenação motora grossa — como agachar para pegar uma tampa sem comprometer a segurança do pesquisador. Como brinquedos de criança serão usados para treinar cientistas que irão atuar no 1º laboratório de biossegurança máxima do Brasil Bárbara Camilotti/g1 Depois, vêm atividades mais delicadas, como manipular pinças e pipetas com tintas luminescentes, simulando procedimentos laboratoriais. “Começa com coordenação motora grossa, depois coordenação motora fina, e então a gente parte para manipulações laboratoriais. Usamos pinças, pipetas e ponteiras, tudo com guache e tintas luminescentes”, detalha Ometto. Segurança emocional também entra no jogo Além de desenvolver habilidades técnicas, o treinamento lúdico ajuda os profissionais a lidarem com a pressão psicológica de atuar em um “laboratório quente”, onde há risco biológico real. “Existe uma carga emocional muito grande. Aqui, durante o treinamento, temos a oportunidade de desenvolver essas seguranças, essas compreensões. A informação é uma ferramenta importantíssima nesse processo”, afirma Ometto. Como será o Orion? Imagem área mostra área onde está sendo construido o Orion ao lado do Sirius, acelerador de partículas que fica no CNPEM, em Campinas (SP) CNPEM/Divulgação ? O complexo laboratorial de máxima contenção biológica representa um avanço para o Brasil, que permitirá pesquisas com patógenos capazes de causar doenças graves e com alto grau de transmissibilidade (das chamadas classes 3 e 4) - estrutura essa que não existe até hoje em toda a América Latina. Possuir um laboratório de biossegurança máxima (NB4) oferece condições ao país de monitorar, isolar e pesquisar os agentes biológicos para desenvolver métodos de diagnóstico, vacinas e tratamentos. ?No caso do Brasil, mais do que armazenar e manipular essas amostras biológicas, o laboratório de biossegurança máxima terá acesso exclusivo a três linhas de luz (estações de pesquisa) do Sirius, o que não existe em nenhum outro lugar do mundo. É por conta dessa conexão com o Sirius que vem o nome do projeto, Orion, em homenagem à constelação que possui três estrelas apontadas para a estrela que batizou o acelerador de partículas brasileiro. ‍ O projeto prevê a capacitação de cientistas brasileiros para lidar com agentes infecciosos desses tipos. Essa formação já integra o custo do projeto, atualizado para R$ 1,5 bilhão. O complexo laboratorial terá cerca de 29 mil metros quadrados, e sua construção está prevista para ficar pronta ao final de 2027. Após essa etapa, o Orion passará pelo chamado comissionamento técnico e científico, e também por certificações internacionais de segurança, para que possa entrar em operação regular. Como brinquedos de criança serão usados para treinar cientistas que irão atuar no 1º laboratório de biossegurança máxima do Brasil Bárbara Camilotti/g1 VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e região Veja mais notícias sobre a região no g1 Campinas