Sem ondinhas, sem desculpas: a dura arte de mudar de verdade

Desde antes do advento da filosofia pré-socrática, o homem já se espantava e chorava suas fronteiras intransponíveis, por exemplo, no Canto XII de Ilíada , aqui utilizo a tradução de Carlos Alberto Nunes, lemos: Ah, caro amigo, se, acaso, escapando da guerra terrível, livres ficássemos sempre da triste velhice e da Morte, não me verias, por certo, a lutar na dianteira dos nossos, nem te faria ingressar nas batalhas que aos homens dão glória. Mas, ao invés disso, cercados estamos por muitos perigos e pela Morte, da qual escapar ninguém pode ou eximir-se. Vamos, portanto, a dar glória a qualquer, ou de alguém recebê-la. Assim, todo aquele otimismo desmedido de início de ano — regado a álcool e outros tóxicos — soa-me sempre como besteira, um ritual mental tal qual bater um ramo de arruda na testa da criança para tirar mau-olhado, vestir amarelo quando algum astro tampa outro, ou dar café para Santo Antônio. Aquelas promessas feitas enquanto se pula ondas de mar e urina, ou aquela decisão súbita, brotada do arrependimento ao se ver no espelho do banheiro parecendo um balão depois da ceia de Natal, são muito mais protocolares do que sérias. Isso quer dizer que ao homem não foi dado o poder de mudança de seus caminhos, de melhorar e resistir a erros? Claro que foi. Tive uma amiga que emagreceu cem quilos somente com dieta e exercícios, isso antes do advento das “Bics miraculosas”. Sei de um ex-traficante que, depois de decair numa crise existencial, abandonou o tráfico e suas riquezas, para tornar-se um simples e honrado zelador. Citei aqui apenas casos que conheço pessoalmente. + Leia mais notícias de Cultura em Oeste O que eu, no entanto, não acredito é naquela proposta de mudança advinda de uma data específica, de uma promessa realizada pelo espírito de turba de uma passagem de ano. Para que alguém abandone hábitos ruins e enraizados, para que alguém abandone o erro moral que encrosta sua psique, ou expurgue suas dependências mentais, é preciso muito mais do que um mero girar de ponteiros, ondas na praia ou pactos realizados por força de músicas ou conversas batidas. Pare de comer, e pronto Falo disso com certa experiência, pois ano passado saí dos 150 quilos em janeiro para 101 em dezembro de 2025 — sem a Bic miraculosa também. Prometo que não vou transformar esta coluna em um textinho de autoajuda, mas permitam-me usar minha experiência para chegar ao ponto que eu quero. Basicamente o que mudou em minha mente para que eu ajustasse meus hábitos foi um amigo dizer claramente em minha cara: “Você quer ver seu filho casado e segurar seus netos no colo?”. Em seguida olhou com um semblante acusatório para a minha barriga e para meu terceiro prato de pudim. Naquele dia provei de uma profunda e, até então, jamais experimentada, depressão ao voltar para casa. Deitado em minha cama, a voz de meu amigo ressoava em minha cabeça, e a imagem de meu filho me assombrava. Senti uma raiva de mim por ter chegado àquela condição, além de uma indignação tão profunda que cheguei a dar socos em minha testa. Iniciei, como sempre faço, um monólogo comigo mesmo, e minha consciência, muito mais inteligente que meu piti idiota, me recordou de algo interessante — talvez reforçada pelas minhas leituras sobre o estoicismo. Era como se eu ouvisse uma voz dizendo: “Das milhões de coisas sobre as quais você não tem controle algum, e das mudanças que você sozinho não pode fazer, parar de comer feito um pit bull que tomou Biotônico Fontoura não é uma delas. Pare de comer, e pronto. Sem chororô, sem ataque de pelanca, emagreça e pronto”. https://www.youtube.com/watch?v=mq3tLL8ChaM&pp=ygUWcmV2aXN0YSBvZXN0ZSBhbm8gbm92bw%3D%3D Noutro dia, tal como já havia feito algumas dezenas de vezes, fui à academia e paguei uma mensalidade. Entretanto, daquela vez, eu sabia que tinha algo diferente, eu realmente estava decidido, pois minha gula havia sido enterrada junto com uma decisão serena e constante de resistir. De orações, saladas, jejuns e configurações nutricionais, de tudo um pouco fui utilizando para ganhar as batalhas. Em um mês perdi 7 quilos, e em seguida fui seguindo até chegar aos -49. Como tudo na vida, meu exemplo não é um dogma, tenho mais outros caminhões de erros e mudanças que preciso emendar à dieta de sucesso. "Há vícios, erros e males que são causados por terceiros" Observando os homens, noto que, quando conseguem de fato mudar e se consertar em algo, isso se dá pois eles param de encontrar fatores externos para os seus fracassos. Eu não emagrecia quando solteiro, pois tinha ansiedade, depois de casado, pois minha mulher me estressava muito, quando não estava estressado, a culpa era da felicidade que tinha de ser comemorada, e tudo girava em torno de comer. Mas a culpa jamais estava plenamente em mim, afinal, eu era a grande — literalmente grande — vítima das circunstâncias. Além disso, é claro que há vícios, erros e males que são causados por terceiros. Mas é aí que tá, o primeiro passo para mudar é justamente não levar isso em conta, é saber com clareza que, se as decisões de terceiros não estão no campo de nossa influência, as nossas escolhas invariavelmente estão. Conseguir ou não o emprego dos sonhos não depende somente de você, é verdade, pois o mundo nem sempre é justo, e nem sempre os melhores são agraciados, mas um agricultor só colhe se a semente estiver adubada. Se a chuva virá ou não, isso realmente não está em seu controle, no entanto, adubar sim. A mim parece ser melhor ser um frustrado preparado, do que um frustrado anêmico de vontade. É a isso que Viktor Frankl denominava “vontade de sentido”: a condição de reconhecer, até mesmo no vazio existencial, a nossa responsabilidade diante de uma realidade caótica e das consequências de nossas escolhas; assumindo conscientemente, a partir disso, uma direção significativa, com ordem e determinação. https://www.youtube.com/watch?v=98rdEdeA5xQ&pp=ygUWcmV2aXN0YSBvZXN0ZSBhbm8gbm92bw%3D%3D Não é porque o ano virou que sua vida irá virar junto automaticamente. A vida só “vira” quando a decisão se torna maior que as desculpas, quando terceiros não mais determinam como viveremos; quando motivos, escusas e justificativas dão lugar ao amadurecimento, à ordem e à constância. Os estoicos são chatos, mas também têm razão quando o assunto é ser dono de si antes de um chorão de frustrações acumuladas. Não importa quantas vezes Vênus roce a nuca Mercúrio, e quão alvejadas estejam suas camisetas para o Réveillon . Não importam quantas ondas pule, e quantas vezes você pague a primeira mensalidade na Smart Fit se sua decisão não for firme e irrevogável, se não houver o que chamo de “paradoxo da indignação serena”, aquilo que sempre habitou a consciência dos decididos. Sinta raiva de sua fraqueza e, enquanto isso, tenha serenidade para estabelecer caminhos de modo a vencer seus erros. A filosofia estoica exala uma máxima absurdamente real: se você não vence nem a si, é uma tolice achar que está capacitado a melhorar e superar os outros; se você estava esperando o dia 1º para melhorar, se o que faltava eram as ondinhas, sinto te dizer, você será quase certamente um eterno fracasso. O post Sem ondinhas, sem desculpas: a dura arte de mudar de verdade apareceu primeiro em Revista Oeste .