Os Estados Unidos afirmaram ter capturado neste sábado (3) o presidente venezuelano, Nicolás Maduro, durante um ataque ao país caribenho. O episódio reacende o histórico de intervenções militares e de apoio a ditaduras promovidas por Washington na América Latina. Acompanhe ao vivo: Trump confirma ataque à Venezuela e diz que Maduro foi capturado e retirado do país Maduro capturado: Escolhido por Chávez e por Cuba, líder venezuelano termina derrotado pelo poder bélico dos EUA O falecido presidente venezuelano Hugo Chávez e seu sucessor, Maduro, acusaram em várias ocasiões Washington de apoiar tentativas de golpe de Estado, entre elas a que afastou Chávez do poder por dois dias, em 2002. Estas são as principais intervenções americanas na América Latina desde a Guerra Fria: Guatemala Em 27 de junho de 1954, o coronel Jacobo Arbenz Guzmán, presidente da Guatemala, foi derrubado por mercenários treinados e financiados por Washington, após uma reforma agrária que ameaçava os interesses da poderosa empresa americana United Fruit Corporation (futura Chiquita Brands). Em 2003, os Estados Unidos incluíram em sua história oficial o papel da CIA nesse golpe de Estado, em nome da luta contra o comunismo. Repercussão nacional: Governo brasileiro temia ataque dos EUA à Venezuela, e situação na fronteira é uma das principais preocupações Guatemala Após o fim da ditadura de Jorge Ubico, que gostava de ser chamado de “Napoleão da América Central”, em 1944, a Guatemala foi comandada por dois presidentes que defendiam a realização de reformas sociais, contrárias à agenda de Washington, incluindo uma reforma agrária que desapropriou terras improdutivas da United Fruit Company. A empresa americana intensificou seu lobby junto ao governo americano para derrubar o governo, e a CIA deu início à operação PBSuccess, seguindo a cartilha de ações de desinformação, apoio à oposição e incitação junto aos militares. O então presidente, Jacobo Árbenz, se viu sem saída a não ser a renúncia em 1954, no que foi o início de quatro décadas de instabilidade no país. Cuba Nenhum país da América Latina foi alvo tão recorrente de operações da CIA como a ilha comandada por um regime socialista desde 1959. Meses depois da fracassada Invasão da Baía dos Porcos, em 1961, a CIA orquestrou a chamada Operação Mongoose, que autorizava atentados e assassinatos com o objetivo de fragilizar o regime, mas que teve pouco sucesso. A Operação Northwoods, em 1962, pretendia organizar atos de violência dentro dos Estados Unidos para culpar os cubanos e justificar uma guerra contra a ilha, mas ela não saiu do papel. Em outra frente, a CIA não economizou esforços para tentar matar o líder da revolução, Fidel Castro: segundo documentos oficiais e depoimentos de ex-funcionários da agência, foram mais de 600 tentativas, desde atentados até um charuto envenenado. Castro morreu em 2016, aos 90 anos de idade. Equador Nas eleições de 1960, a chegada ao poder de José María Velasco Ibarra, que apesar de não ser um novo Fidel Castro ou um comunista convicto, acendeu sinais amarelos em Washington, e teve início uma das mais intensas operações da CIA na região. A agência conseguiu se infiltrar em praticamente todas as agremiações políticas do país — na esquerda, o objetivo era afastá-las da influência cubana; na direita, angariar apoio às ideias americanas e ao anticomunismo. Ibarra foi forçado a renunciar em 1961, por pressão dos militares, mas seu sucessor, Carlos Julio Arosemana, também não era bem visto pelos americanos. Além da infiltração no meio político, a operação contou com a divulgação de notícias falsas em órgãos de imprensa aliados e a atentados atribuídos à esquerda. Arosemana foi derrubado em 1963, e substituído por uma junta militar afável a Washington. Lula condena ataques de Trump à Venezuela: 'Ultrapassam uma linha inaceitável' Cuba De 15 a 19 de abril de 1961, 1.400 anticastristas treinados e financiados pela CIA tentaram desembarcar na Baía dos Porcos, a 250 quilômetros de Havana, sem conseguir derrubar o regime comunista de Fidel Castro. Os combates deixaram cerca de uma centena de mortos de cada lado. Chile Segundo documentos do governo americano, o principal alvo de Washington era Salvador Allende, político do Partido Socialista e candidato à Presidência em 1964. Antes da votação, Washington autorizou uma campanha para difamar Allende, que contribuiu para sua derrota nas urnas. Quatro anos depois, o socialista voltou a concorrer, dessa vez com apoio de Cuba e da União Soviética — do outro lado, o dinheiro americano continuou a chegar, mas não impediu sua vitória. Segundo um relatório do Senado americano, de 1975, foram gastos cerca de US$ 8 milhões entre 1970 e 1973 para fomentar a oposição e angariar apoio entre os militares para o golpe liderado por Augusto Pinochet. O então presidente americano, Richard Nixon, e seu conselheiro de Segurança Nacional, Henry Kissinger, apoiaram a junta militar desde o início, e incrementaram a ajuda militar a Santiago — Kissinger, de acordo com registros oficiais, disse a Nixon que os EUA não atuaram diretamente no golpe, mas ajudaram a “criar as melhores condições possíveis”. Nos anos seguintes, o Chile foi um dos líderes da chamada Operação Condor, voltada a reprimir a oposição em ditaduras de direita apoiadas pelos Estados Unidos nos anos 1970. Brasil Em março, quando o governo americano divulgou mais de sete mil documentos sigilosos do governo de John Kennedy, ficou comprovada a participação da CIA nos movimentos que antecederam o golpe de 1964, que derrubou o presidente João Goulart e deu início a 21 anos de ditadura militar no Brasil. A agência, em telegrama de 1963, afirmava que Goulart "vivia em um mundo de fantasia", e endossava a tese dos conspiradores de que ele pretendia dar um autogolpe e instaurar uma ditadura comunista. Na ocasião, conselheiros de Kennedy indicavam que um golpe seria preferível a deixar o Brasil entrar para a área de influência da União Soviética. Relações Exteriores: Mauro Vieira condena ataques dos EUA à Venezuela em conversa telefônica, diz chanceler venezuelano Documentos revelados recentemente confirmaram ainda que os EUA tinham um plano de contingência militar — a Operação Irmão Sam — para apoiar os golpistas caso fosse necessário. A proposta previa o uso de navios americanos e o fornecimento de armas e combustível para os insurgentes, mas foi cancelada horas depois da derrubada de João Goulart. República Dominicana Em 1965, em nome do "perigo comunista", os Estados Unidos enviaram fuzileiros navais e paraquedistas a Santo Domingo para sufocar um levante em favor de Juan Bosch, presidente de esquerda derrubado pelos generais em 1963. Trump anuncia novo ataque contra barco com 'narcoterroristas da Venezuela' Haiti No início dos anos 1990, a CIA foi acusada de fornecer apoio para militares que derrubaram o recém-eleito presidente Jean-Bertrand Aristide, e alguns dos comandantes do levante eram pagos por Washington e receberam treinamento nos Estados Unidos. Aristide retornou ao poder em 1994, em uma operação comandada pelos americanos, mas isso não significou que estivesse nas graças da Casa Branca. No golpe de 2004, a CIA foi acusada de fornecer apoio material e militar à Frente Nacional Revolucionária para a Libertação e Reconstrução do Haiti, grupo armado que derrubou Aristide. Como esperado, o governo americano jamais confirmou o apoio ou a participação no movimento. Apoio às ditaduras do Cone Sul Washington apoiou várias ditaduras militares, consideradas um baluarte contra os movimentos armados de esquerda. Os Estados Unidos ajudaram o ditador chileno Augusto Pinochet durante o golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 contra o presidente de esquerda Salvador Allende. Reações ao anúncio de Washington: Ataque dos EUA à Venezuela acirra embate entre esquerda e direita nas redes sociais O secretário de Estado americano Henry Kissinger também apoiou a junta argentina em 1976, incentivando-a a encerrar rapidamente sua "guerra suja", segundo documentos americanos desclassificados em 2003. Pelo menos 10 mil opositores argentinos desapareceram. Nos anos 1970 e 1980, seis ditaduras (Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil) se aliaram para eliminar opositores de esquerda no âmbito do "Plano Condor", com o apoio tácito dos Estados Unidos. Guerras civis na América Central Em 1979, a rebelião sandinista derrubou o ditador Anastasio Somoza na Nicarágua. O presidente americano Ronald Reagan, preocupado com o alinhamento de Manágua com Cuba e a URSS, autorizou secretamente a CIA a fornecer uma ajuda de 20 milhões de dólares aos Contras, os contrarrevolucionários nicaraguenses. A ajuda foi financiada em parte pela venda ilegal de armas ao Irã. A guerra civil nicaraguense, que terminou em abril de 1990, deixou 50 mil mortos. Reagan também enviou assessores militares a El Salvador para sufocar a rebelião da Frente Farabundo Martí para a Libertação Nacional (FMLN, extrema esquerda), no contexto de uma guerra civil (1980-1992) que deixou 72 mil mortos. Granada Em 25 de outubro de 1983, fuzileiros navais e rangers intervieram na ilha de Granada após o assassinato do primeiro-ministro Maurice Bishop por uma junta de extrema esquerda e enquanto os cubanos ampliavam o aeroporto, supostamente para receber aviões militares. Reagan lançou, a pedido da Organização dos Estados do Caribe Oriental (OECO), a operação "Urgent Fury" para proteger cerca de mil cidadãos americanos. A operação, classificada como "bem-sucedida" por Reagan e amplamente condenada pela Assembleia Geral da ONU, terminou em 3 de novembro com mais de uma centena de mortos. Impactos no Brasil: Ministro da Saúde diz que preparou SUS para receber venezuelanos afetados por ataques dos EUA Panamá Em 1989, após eleições controversas, o presidente George Bush decidiu intervir militarmente no Panamá, o que levou à rendição do general Manuel Noriega, antigo colaborador dos serviços secretos americanos e procurado pela Justiça de Washington. Cerca de 27 mil soldados participaram da operação "Causa Justa", que oficialmente deixou 500 mortos, mas vários milhares segundo ONGs. Noriega foi preso por mais de duas décadas nos Estados Unidos por tráfico de drogas, antes de cumprir outras penas na França e depois no Panamá. No Panamá foi fundada, em 1946, a Escola das Américas, um centro de formação militar especializado na luta contra o comunismo, controlado até 1984 pelos Estados Unidos, onde foram formados numerosos ditadores.