Do chavismo a Maduro: a trajetória do regime que governou a Venezuela por quase três décadas

Do chavismo a Maduro: a trajetória do regime que governou a Venezuela por quase três décadas TV Globo Este é o fim de quase 13 anos de Nicolás Maduro no poder. Será também o fim de 27 anos de chavismo na Venezuela? Donald Trump diz que sim. Que os Estados Unidos vão governar o país até uma transição para um regime alinhado aos americanos. Hugo Chávez representou exatamente o oposto. Ele deu nome ao movimento que Maduro herdou. Depois de uma tentativa frustrada de golpe em 1992, Chávez foi eleito em 1998. No cargo, ele mudou a Constituição e ampliou os poderes presidenciais. A exploração de petróleo, por exemplo, saiu das mãos de empresas privadas — muitas americanas — e passou para as mãos do Estado. Era a Revolução Bolivariana. "Nos anos 90 os Estados Unidos mantinham uma influência bastante importante na Venezuela, Hugo Chávez quando eleito em 99 começa a romper essa tradição e começa a duelar muitas vezes na retórica, com seu discurso", disse a doutora em Integração da América Latina da USP Regiane Bressan. Com Chávez, a Venezuela se afastava dos Estados Unidos e se aproximava de novos aliados: Cuba, China e Rússia. O bom momento do petróleo ajudou a economia venezuelana e, assim, a popularidade de Chávez. E ele usou isso para se perpetuar no poder. Quando a insatisfação crescia, era o autoritarismo que garantia a manutenção do regime. Enquanto isso, Nicolás Maduro crescia na hierarquia chavista. Motorista de ônibus e líder sindical, virou deputado, ministro das Relações Exteriores e, finalmente, vice-presidente em 2012, quando Chávez, com câncer, o escolheu como sucessor. Em 2013, depois da morte de Chávez, Maduro derrotou o principal líder de oposição, Henrique Capriles, por uma margem apertada — na primeira de muitas eleições presidenciais e legislativas que viriam a ser contestadas no futuro. A situação para Nicolás Maduro era bem mais difícil do que a do padrinho político. O petróleo já não ajudava tanto. O preço do barril teve uma queda forte logo no início do mandato dele. As sanções apertaram. A economia entrou em colapso e a inflação disparou, com pico de 130 mil por cento num ano. A população enfrentou a escassez de produtos. A insatisfação dos venezuelanos aumentou e, com ela, a repressão violenta, e a erosão da democracia e das instituições. "Porque Nicolás Maduro conseguia se manter ao longo de todo esse tempo no governo, porque ele tinha militares que sustentavam o seu governo. E isso facilitou muito para que ele estivesse inclusive nas eleições de 2024", disse Bressan. Nicolás Maduro substituiu 13 juízes do Tribunal Supremo de Justiça. Anulou os poderes do Parlamento depois que os deputados da oposição conquistaram a maioria da Casa. Protestos se espalharam pelo país em 2017. O governo reprimiu com violência. Ao menos 120 pessoas morreram e milhares foram presas. A onda de manifestações motivou a abertura de uma investigação contra Maduro que se arrasta até hoje no Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade. A ONU também investigou relatos de torturas, execuções e desaparecimentos forçados. Em 2018, mais uma eleição. Observadores internacionais, a Organização dos Estados Americanos e a União Europeia não reconheceram a vitória de Maduro. O então presidente do Parlamento, Juan Guaidó, se declarou presidente interino depois de acusar Maduro de usurpar os poderes da República. Ele foi reconhecido como novo líder legítimo por mais de 50 países, entre eles os Estados Unidos, comandados por Trump à época. Mas Maduro ficou no poder. Houve mais protestos, mortes e prisões. No ano passado, mais uma eleição contestada. O Tribunal Supremo impediu a principal líder da oposição, Maria Corina Machado, de concorrer. Ela apoiou outro nome: o ex-diplomata Edmundo González, declarado derrotado na eleição. O Instituto Carter e a ONU acompanharam a votação e denunciaram irregularidades. Brasil, Estados Unidos, Europa e dezenas de países não reconheceram a vitória de Maduro. González virou alvo de um mandado de prisão por conspiração e hoje está exilado na Espanha. Mais uma vez, Maduro ficou no poder. Até hoje.