Análise: A Venezuela pós-Maduro navega na incerteza

O ocorrido na madrugada deste 3 de janeiro de 2026 marca o início de um novo momento político caracterizado por poucas certezas e muitas incertezas. Os venezuelanos, e principalmente os caraquenhos, foram surpreendidos pelo barulho de aviões e pelos bombardeios a diversas instalações militares. Ataque dos EUA à Venezuela: Fonte da CIA dentro do governo venezuelano ajudou a rastrear Maduro 'Programa de televisão': Maduro foi rendido antes de conseguir fechar porta de bunker, diz Trump Enquanto isso ocorria, as forças especiais americanas aprovaram a captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa Cilia Flores. Os ataques aéreos e o sequestro do casal presidencial venezuelano foram levados a cabo com rapidez e precisão, deixando em evidência a incapacidade de reação militar, de onde derivam várias incógnitas que talvez demorem a ser desfeitas. Prevaleceu o elemento surpresa e falhou planejamento tantas vezes anunciado antes de um eventual ataque, ou simplesmente foi repetido o ocorrido em 2002, quando quatro militares próximos a Hugo Chávez conspiraram contra ele? Tudo ficará mais claro nos próximos dias. Após capturar Maduro, a administração Trump sentiu-se em melhores condições de impor diretrizes sobre as políticas petrolíferas em um país que eles pretendem administrar até que se comece uma transição que não tem rota nem protagonistas definidos. Trump diz que petroleira americana vai entrar na Venezuela para 'consertar' infra A captura de Maduro abre a porta para muitas perguntas sobre o chavismo. Uma delas é se será possível manter a unidade de comando em meio a este cenário mais instável que passou a viver o Partido Socialista Unido da Venezuela. Conseguirá Delcy Rodríguez unir as duas figuras mais influentes do chavismo, sabidamente o general-em-chefe Vladimir Padrino López, ministro da Defesa, e o capitão Diosdado Cabello, secretário-geral do partido e ministro do Interior, Justiça e Paz? Em seu discurso durante a instalação do Conselho de Segurança e Defesa da Nação, Rodríguez não negou nem confirmou a fala de Trump de que ela estaria disposta a cooperar com sua administração nesta nova conjuntura. Ela exigiu a liberdade de Maduro e Cilia Flores, disse que as Forças Armadas e o povo estão a postos. Pediu calma, não luta armada, e insistiu em que existe um governo no país. Esta hipótese ganha força se vincularmos a fala de Trump sobre María Corina Machado: “Para ela, será difícil liderar a Venezuela.” Momentos de incerteza: Moradores em Caracas enfrentam medo enquanto venezuelanos em diáspora celebram captura de Maduro Outra grande incerteza é se a Assembleia Nacional, de absoluta maioria chavista, optará por declarar a ausência temporária ou definitiva de Maduro. A Carta Magna é clara ao assinalar que, se for declarada ausência temporária, a vice-presidente permaneceria 90 dias no cargo presidencial, prorrogáveis por mais 90 dias. Se a ausência definitiva for declarada, será necessário convocar eleições em um mês. O chavismo preferirá adiar as eleições por seis meses a enfrentar um novo processo eleitoral em curto prazo. Fontes internas do chavismo consultadas sobre o assunto não veem dúvidas quanto à vantagem de adiar ao máximo a disputa eleitoral, pois ela desencadearia imediatamente uma luta interna pela sucessão dentro do PSUV. 'Se morasse em Havana, estaria preocupado': Governo Trump sugere ampliar pressão sobre Cuba após operação contra Maduro Mas não se sabe como Trump reagirá. De certo, é que de sua boca não saiu o nome de Edmundo González Urrutia, que foi declarado vencedor das eleições contestadas de 2024. Qual será o plano político de Trump para a Venezuela? Seus interesses fundamentais são o petróleo e o controle do Hemisfério. A oposição observa este jogo complexo sem ter fichas para participar dele. Ela se debate entre condenar de uma vez o ataque militar ou esperar. Há muito para decifrar, e o prudente agora é esperar até que o panorama seja definido. E a população, alheia às disputas políticas, amanheceu com falta de abastecimento de produtos essenciais, em meio à deterioração do poder aquisitivo do bolívar e dos poucos dólares disponíveis. Os mísseis da inflação agora são mais letais do que em 2025. Vladimir Villegas é jornalista venezuelano