Forças americanas de elite realizaram no sábado de madrugada de madrugada um ataque de grande escala contra a Venezuela, o primeiro feito por Washington a um país da América do Sul. A seis meses de celebrar os 250 anos de sua independência, os Estados Unidos bombardearam o país vizinho ao Brasil e capturaram o presidente Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores. Os dois foram levados da capital para Nova York, onde serão julgados por narcoterrorismo e outros crimes relacionados ao tráfico de drogas. No poder desde 2013, Maduro deixou para trás o Palácio de Mirafloes, de onde governava, por uma prisão americana, onde deverá cumprir pena após julgamento. 'Programa de televisão': Maduro foi rendido antes de conseguir fechar porta de bunker, diz Trump Ataque dos EUA à Venezuela: Fonte da CIA dentro do governo venezuelano ajudou a rastrear Maduro Batizada por Washington de “Operação Firmeza Absoluta”, a ação militar foi percebida por analistas como um divisor de águas da política externa americana e um marco da erosão da era do multilateralismo, cristalizada após a Segunda Guerra Mundial. Pelo menos 40 pessoas, afirmou de forma reservada ao New York Times um militar venezuelano graduado, morreram nos ataques, recebidos com apreensão pelas maiores economias da região e a comunidade internacional. O passo a passo do ataque americano à Venezuela Editoria de Arte/O Globo Em coletiva de imprensa realizada em sua casa na Flórida, o presidente Donald Trump, em tom desafiador, afirmou que Washington passará a governar a Venezuela. E que a exploração, por empresas americanas, das reservas de petróleo venezuelanas, custearão a reconstrução da infraestrutura do país. — Essencialmente, comandaremos (o país) até uma transição segura, adequada e sensata — afirmou o republicano, que celebrou o fato de a ação ter sido concluída sem mortes no lado americano. Trump dissera anteriormente aos jornalistas não descartar, se necessário, o “envio de tropas” à Venezuela. E que a retirada dos governistas é condição para os EUA não atacarem novamente o país, e de forma mais dura. Ato que aumentaria o risco de perdas humanas, crise humanitária e guerra civil na fronteira norte do Brasil. Futuro indefinido Apesar do anúncio de Trump, não há definição sobre o futuro imediato do país. Na coletiva de ontem, o americano afirmou que María Corina Machado, prêmio Nobel da Paz e nome mais notório da oposição, “não tem apoio nem respeito necessários dentro do país”, e informou que negocia a transferência de poder com a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez. Em seu primeiro discurso, no entanto, ela acusou Washington de “invasão sob falsos pretextos”. — Há apenas um presidente neste país, e seu nome é Nicolás Maduro Moros — afirmou. Impasse: Moradores em Caracas enfrentam medo enquanto venezuelanos em diáspora celebram captura de Maduro Após participar de reunião no Itamaraty sobre as consequências do ataque americano, a ministra das Relações Exteriores em exercício do Brasil, Maria Laura da Rocha, afirmou que Brasília reconhecia Rodríguez como presidente interina da Venezuela. A diplomata afirmou que contatos com o governo americano só serão feitos na reunião extraordinária do Conselho de Segurança da ONU sobre o ataque, solicitada pela Colômbia, que deve ocorrer na segunda-feira. Em comunicado, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “os bombardeios em território venezuelano e a captura de seu presidente ultrapassam uma linha inaceitável”. Ele também sublinhou que a ação celebrada pela Casa Branca “lembra os piores momentos da interferência” externa na América Latina e defendeu o “diálogo” e a “cooperação”, secundado por México, Colômbia, Chile e Uruguai. A última vez que os EUA invadiram um país latino-americano foi em 1989, no governo do republicano George Bush, pai, e depuseram o ditador panamenho Manuel Noriega. Na região, celebraram a captura de Maduro os governos da Argentina, Paraguai e Equador, aliados de Trump. China e Rússia se manifestaram contra o ataque e a União Europeia, às voltas com a invasão russa da Ucrânia e a dependência dos EUA para sua segurança, tratou do ataque com cautela. — Qualquer solução deverá respeitar a lei internacional e a Carta das Nações Unidas — afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Uma exceção foi o líder espanhol, Pedro Sánchez, que equiparou eventual intervenção americana à ilegitimidade do governo Maduro. Avião com Nicolás Maduro desembarca nos Estados Unidos Há sérias controvérsias — nos EUA e no âmbito do direito internacional — sobre a legalidade da ação de ontem. Na coletiva de imprensa, Trump e o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, defenderam não haver necessidade constitucional de aprovação formal do Congresso para a ação militar, algo que a oposição disputa e ameaça levar para a Suprema Corte. A Casa Branca argumenta ter respondido, e de forma cirúrgica, a uma determinação do Departamento de Justiça. Em suas redes sociais, a procuradora-geral dos EUA, Pam Bondi, detalhou a sustentação das acusações criminais contra os dois. Elas incluem liderar organização narcoterrorista, comandar tráfico de cocaína, uso e posse de metralhadoras e armamento pesado, característicos de grupos paramilitares, e articulação para adquirir e manter arsenais de guerra para operações internacionais de narcotráfico. Nicolás Maduro desembarca em NY após ser capturado por forças americanas em ataque à Venezuela Reprodução/TV Globo A afirmação, sem prova cabal, da ligação do governo Maduro com o tráfico, foi central para a ala ideológica do governo convencer Trump a dar o sinal verde para a maior operação militar americana no Caribe em um século. Os bombardeios a embarcações que alegadamente transportavam drogas na região, com mais de 105 mortes, e o asfixiamento econômico da Venezuela, com o confisco de petroleiros, buscavam apressar o fim do chavismo, deteriorado internamente desde as eleições presidenciais, vencidas no voto pela oposição no ano passado, como atestaram os observadores internacionais do pleito. A renúncia de Maduro era opção menos custosa politicamente para a Casa Branca do que uma invasão, especialmente com o recorde de desaprovação a Trump nas pesquisas de opinião, às vésperas das eleições de novembro, quando o comando do Capitólio está em jogo. Maduro algemado Há menos de um mês, o governo Trump anunciou a nova estratégia de segurança nacional dos EUA, que busca recalibrar sua presença militar e econômica no Hemisfério Ocidental, com o combate à imigração em massa, ao narcotráfico e à ascensão de adversários geopolíticos, notadamente a China. Após o anúncio ontem em sua rede social, Trump traduziu aos americanos a captura de Maduro, com foto do prisioneiro vedado e algemado, como demonstração inequívoca do poderio americano. Comparou favoravelmente a ação ao desastre da retirada militar do Afeganistão pelo governo de Joe Biden. Sem o trunfo da economia, com o custo de vida em alta por conta, entre outros motivos, dos efeitos colaterais do tarifaço, é em ações de segurança nacional, dentro e fora dos EUA, que o presidente pautará, nos próximos meses, seu objetivo de evitar o avanço democrata no Legislativo e eventual investigação por atos inconstitucionais que possam levá-lo a um terceiro processo de impeachment. Ao GLOBO, analistas apontam, entre os possíveis próximos alvos no continente, Cuba, citada por Trump e Rubio na coletiva, Colômbia e México