Homens que pedem divórcio após se apaixonarem por uma inteligência artificial, mulheres que realizam casamentos simbólicos com personagens digitais e comunidades inteiras dedicadas a “relacionamentos” com chatbots deixaram de ser episódios isolados para se tornar parte de um fenômeno global. À medida que inteligências artificiais avançam na simulação de empatia, memória e validação emocional, cresce também o número de pessoas que desenvolvem vínculos afetivos - e até românticos - com sistemas não humanos. Pesquisas acadêmicas, como estudos conduzidos por pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e por psiquiatras brasileiros, indicam que esses laços não podem ser explicados apenas como curiosidade tecnológica ou excentricidade individual. Eles refletem mudanças profundas na forma como humanos se relacionam, buscam companhia e lidam com solidão, frustração emocional e saúde mental no século 21. O avanço dos grandes modelos de linguagem, capazes de manter conversas longas, lembrar interações passadas e responder com tom afetivo, criou um novo tipo de presença digital: companheiros artificiais que ocupam papéis de amigos, parceiros românticos e até “terapeutas informais”. Enquanto parte da comunidade científica investiga potenciais benefícios, como redução momentânea da solidão, especialistas alertam para riscos importantes: dependência comportamental, perda de habilidades sociais e confusão entre respostas programadas e reciprocidade emocional real. Nesse conteúdo, o TechTudo analisa o que dizem as pesquisas mais recentes, relembra casos emblemáticos e discute os dilemas éticos, psicológicos e sociais que emergem quando a paixão passa a ser mediada por algoritmos. Paixão programada? Entenda o avanço de relações amorosas entre humanos e IAs Imagem criada por IA O que diz a ciência sobre vínculos afetivos com inteligências artificiais O crescimento de relatos sobre vínculos emocionais e românticos com inteligências artificiais passou a chamar a atenção da comunidade acadêmica à medida que chatbots baseados em grandes modelos de linguagem se tornaram parte do cotidiano. Pesquisadores do MIT investigaram como usuários desenvolvem laços afetivos profundos com sistemas artificiais, mesmo cientes de que interagem com máquinas. A análise se concentrou em comunidades online dedicadas ao tema, onde participantes descrevem relações estáveis com IAs, sentimentos de exclusividade, apego emocional e sofrimento comparável ao vivido em relacionamentos humanos. O objetivo do estudo foi compreender a natureza desses vínculos e identificar se eles se aproximam de formas conhecidas de apego humano. Para isso, os pesquisadores adotaram uma metodologia qualitativa, baseada na análise de relatos espontâneos publicados em fóruns e redes sociais, como comunidades do Reddit voltadas a “relacionamentos” com IAs. Foram observados padrões de linguagem, frequência de interação e a forma como os usuários narram emoções, frustrações e expectativas, buscando distinguir curiosidade tecnológica de envolvimento afetivo consistente e duradouro. Entre as principais descobertas, o estudo indica que muitos usuários percebem as IAs como companhias emocionalmente seguras, sempre disponíveis e livres de julgamento, características que favorecem o desenvolvimento de apego. Mesmo reconhecendo racionalmente a natureza artificial da interação, os participantes relatam vivências emocionais percebidas como autênticas, com impacto real sobre o bem-estar. Os pesquisadores concluem que esses vínculos não podem ser tratados apenas como excentricidade individual, mas como um fenômeno social emergente, diretamente ligado à solidão, à frustração relacional e ao avanço de tecnologias capazes de simular empatia. Essas conclusões dialogam com pesquisas clínicas mais recentes, que passaram a investigar não apenas por que esses vínculos surgem, mas também quais são seus limites e riscos. Um artigo publicado no Journal of Psychiatric Research aprofunda esse debate ao analisar o fenômeno dos chamados AI companions - companheiros artificiais que atuam como amigos, parceiros românticos ou fontes informais de apoio emocional - e aponta que, embora essas interações possam aliviar a solidão no curto prazo, seus efeitos de longo prazo ainda são incertos e exigem atenção especial da área da saúde mental. Casos recentes mostram que o fenômeno já saiu do campo teórico As conclusões da pesquisa acadêmica ganham contornos mais concretos quando observadas à luz de casos recentes que repercutiram na imprensa. Em um deles, um homem pediu divórcio após relatar ter se apaixonado por uma inteligência artificial com a qual mantinha conversas frequentes. Segundo o relato, a IA oferecia atenção constante, compreensão emocional e respostas que ele descrevia como mais acolhedoras do que as encontradas em seu relacionamento humano, o que acabou motivando o rompimento conjugal. Outro episódio chamou atenção no Japão, onde uma mulher realizou uma cerimônia simbólica de casamento com um personagem de inteligência artificial. Embora sem qualquer validade legal, o ritual incluiu troca de votos e celebração formal, refletindo o grau de envolvimento emocional atribuído à relação. Casos semelhantes vêm sendo registrados em diferentes países, além de comunidades online onde usuários relatam rotinas afetivas com IAs, como comemoração de datas especiais, exclusividade emocional e sofrimento em caso de interrupção do serviço. Por que isso está acontecendo agora? Para o psiquiatra Thiago Henrique Roza, professor doutor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o fenômeno não pode ser explicado apenas pelo avanço tecnológico. Segundo ele, trata-se da convergência entre três fatores centrais: o aumento da solidão, dificuldades de acesso a cuidados em saúde mental e a capacidade inédita das IAs de simular empatia, validação e disponibilidade emocional. Esses sistemas, explica Roza, oferecem interações previsíveis, constantes e sem julgamento, características que podem ser especialmente atraentes para pessoas em situação de fragilidade emocional ou frustração relacional. “O cérebro humano responde a essas interações como se fossem sociais. Os circuitos emocionais ativados são reais, mesmo que o interlocutor não seja”, afirma. Afeto, apego e amor: o que muda quando o outro é uma IA Do ponto de vista clínico, Roza destaca a importância de diferenciar conceitos que costumam ser confundidos. Afeto pode surgir de uma interação agradável; apego envolve sensação de segurança e repetição; já o amor romântico pressupõe reciprocidade, alteridade e agência do outro. No caso das inteligências artificiais, esses últimos elementos não existem. Segundo o psiquiatra, o que ocorre nesses casos é um vínculo projetivo: o ser humano deposita emoções, expectativas e narrativas afetivas em um sistema que apenas simula devolução emocional. “A experiência subjetiva do sentimento é real para quem sente, mas não há reciprocidade genuína do outro lado”, explica. Essa assimetria é central para entender tanto o fascínio quanto os riscos dessas relações. Quando o vínculo deixa de ser inofensivo Embora interações com IAs possam aliviar a solidão no curto prazo, Roza alerta para os riscos quando esses vínculos passam a substituir relações humanas. Entre os sinais de alerta estão o isolamento social progressivo, a perda de interesse por interações presenciais e a dificuldade crescente de lidar com frustrações naturais das relações humanas. O uso excessivo dessas ferramentas também pode assumir características de dependência comportamental. O artigo publicado no Journal of Psychiatric Research aponta que determinados perfis de usuários e configurações específicas das IAs podem favorecer padrões de uso compulsivo, sobretudo quando a ferramenta passa a funcionar como fonte primária de suporte emocional Consentimento, ética e responsabilidades ainda em debate Um dos pontos mais sensíveis levantados por especialistas é o do consentimento. Para Roza, não há consentimento real quando uma das partes não possui consciência, desejo ou autonomia. “A IA responde porque foi programada para responder. Não existe um ‘sim’ ou ‘não’ genuíno”, afirma. Esse aspecto levanta preocupações éticas importantes, inclusive sobre como a normalização desse tipo de vínculo pode influenciar a percepção de consentimento nas relações humanas. Pesquisadores também chamam atenção para a responsabilidade das empresas que desenvolvem essas tecnologias, especialmente no que diz respeito a limites de design, transparência, proteção de usuários vulneráveis e impactos psicológicos de longo prazo. Um futuro de relações híbridas Com o avanço de robôs humanoides e sistemas multimodais capazes de interpretar voz, imagem e expressões emocionais, especialistas acreditam que relações híbridas entre humanos e inteligências artificiais tendem a se tornar mais comuns. Isso não significa, necessariamente, o fim dos relacionamentos humanos, mas uma transformação profunda na forma como afeto, companhia e intimidade são vivenciados. Para Roza, o desafio está em acompanhar esse avanço tecnológico com reflexão crítica e produção científica. “Ainda temos mais perguntas do que respostas”, resume. “Entender esse fenômeno agora é fundamental para que a tecnologia não avance mais rápido do que nossa capacidade de avaliar seus impactos emocionais, sociais e éticos.” Saiba mais