'Assassinato em Mônaco', na Netflix: documentário ganha peso com surpresa durante as filmagens

Certas obras documentais são atravessadas pela realidade durante as gravações. Quando esse tipo de imprevisto acontece, essas produções deixam o posto de espectadoras de uma história para se misturarem aos fatos que estão narrando. Ganham temperatura e valor. É o caso de “Assassinato em Mônaco”, filme que chegou à Netflix na virada de 2025. Clica aqui pra me seguir no Instagram Dirigido pelo americano Hodges Usry, o documentário revisita os mistérios envolvendo a morte de Edmond Safra, aos 67 anos, ocorrida em 1999, em Mônaco. O banqueiro vivia em uma cobertura, cercado de guarda-costas escolhidos a dedo por uma equipe profissional. Tanta proteção era efeito de uma paranoia sustentada com muito dinheiro. A obsessão com segurança, entretanto, não bastou para evitar o pior: numa noite de dezembro, Safra foi encontrado morto em um “quarto seguro”, vítima de um incêndio criminoso. Estava sentado numa poltrona, e a enfermeira Vivian Torrente, de plantão naquele dia, foi achada deitada a seus pés. Ted Maher, o enfermeiro, durante o julgamento netflix A investigação que se seguiu foi tumultuada. O caso tem incontáveis detalhes extraordinários, daqueles que mais parecem ficção: um bilionário morto num apartamento considerado inexpugnável e numa das cidades mais seguras do mundo; uma viúva discretíssima, a brasileira Lily Safra; batalhas no tribunal; glamour e tragédia em doses equivalentes. “Assassinato em Mônaco” é costurado com numerosas entrevistas. Usry ouve investigadores, peritos, jornalistas que cobriram o caso, autoridades monegascas, a ex-chefe da equipe de enfermagem e outros personagens que orbitavam em torno dos Safra. O filme relembra a trajetória de Lily e aborda seus casamentos anteriores, também com homens ricos. Tudo em torno da viúva parece suspeito. Há cenas no Rio, e uma repórter investigativa do "The New York Post", Isabel Vincent, chegou a se mudar para a cidade para levantar o passado dela. As teorias conspiratórias se multiplicam — e todas parecem fazer sentido. Entre elas, a de que Edmond perdeu dinheiro de oligarcas russos na Crise do Rublo em 1998 e sofrido as consequências dessa decisão. Uma figura em especial está muito presente no filme: o enfermeiro Ted Maher. O americano foi contratado depois de uma entrevista rigorosa com o staff dos Safra. Deixou a mulher e os filhos nos EUA, ganhava muito bem e pretendia levar a família para viver em Mônaco. Admitiu à polícia ter iniciado o incêndio, mas apenas para que o alarme soasse e os bombeiros chegassem. As autoridades o acusaram de ter iniciado o fogo e se esfaqueado para sair como herói. Maher acabou preso, mas conseguiu escapar da cadeia monegasca com a ajuda de um criminoso italiano. Mais para o final, acontece a grande surpresa que ajusta a direção do enredo em pleno voo e tira a narrativa de sua rota mais esquemática. Vale assistir para conferir essa guinada. PS: o leitor também pode gostar dessa série aqui.