Registros de satélite de novembro de 2025

Embora as temperaturas mais elevadas já antecipassem o verão desde novembro para várias regiões do Brasil, dadas as suas próprias características climáticas geográficas, somente na última semana de dezembro de 2025 que os habitantes das regiões Sul e parte do Sudeste puderam desfrutar do calor elevado, com o marco da chegada de fato da estação sazonal de verão do Hemisfério Sul. Além do maior número de horas de brilho solar proporcionado pela época, houve uma relativa trégua nas massas frias provenientes da Antártida pela rota sudeste, oriundas do Mar de Weddell e adjacências. Interessante que aguardávamos a saída computacional de novembro de 2025 dos registros mensais de estimativas de temperatura da baixa troposfera (a parte mais rasa da primeira camada da atmosfera, de baixo para cima) obtidas pelos satélites da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA) e que foram estudadas e avaliadas pela Universidade do Alabama em Huntsville (UAH). Como sempre recordo tais estimativas de valores da baixa troposfera não podem ser vistas como temperatura do ar de superfície de fato, pois dentro de sua avaliação estão embutidos os processos atmosféricos relativos a superfície, convecção e advecção dentro de um substrato maior que inclui parte da atmosfera em altitude. Eles são muito intensos e mascaram a verdadeira temperatura do ar obtida por estações meteorológicas convencionais de superfície, especialmente as que ainda mantêm termômetros clássicos de mercúrio, cuja acurácia para obtenção de temperaturas é superior aos termopares eletrônicos das estações automáticas. Para piorar, o que a UAH apresentam não são esses valores, mas as anomalias em relação à média histórica de 30 anos em vigor. + Leia mais notícias do Brasil em Oeste A questão aqui é que pretendíamos verificar se os satélites conseguiriam registrar a distribuição do campo geográfico, expondo os acentuados contrastes térmicos observados no mês de novembro do ano passado, pois registramos vários Anticiclones Polares Móveis (APMs) sustentando a parte fria dos gradientes, sempre no setor sul, enquanto que no setor contrário, as temperaturas começavam a subir pelo aumento do tempo do brilho solar durante o período do dia, com o avanço da estação de primavera/verão que ganhava as latitudes sobre o Brasil. O interessante foi observar que as análises realizadas mostravam que em certas ocasiões, a circulação de ar mais fria oriunda da Antártida tomou a rota sudeste (em relação ao Brasil), vindo do Mar de Weddell, uma das regiões mais frias da Antártida que, quando vence o escoamento naturalmente de oeste que ocorre ao redor do continente polar, consegue atingir as latitudes médias, derrubando as temperaturas de forma brusca e severa. Como isso aconteceu mais de uma vez e persistiu por dias, esperava-se que os satélites registrassem essas passagens e seus processos envolvidos. Com a publicação do cartograma global de temperaturas da baixa troposfera de novembro lançado pela UAH, observamos exatamente isso — e muito mais. Cartograma global com anomalias das temperaturas da baixa troposfera de novembro de 2025, obtidas por satélites de órbita polar da série NOAA. Os cálculos da soma gráfica são baseados na média climatológica de 1991-2020. Em tons de azul, frações de temperatura de anomalias negativas; em tons de laranja, frações de temperatura de anomalias positivas | Fonte: UAH, 2025 O que o satélite revelou? Houve uma pequena discrepância das temperaturas em relação à média climatológica satelital de 30 anos (1991-2020). É claro que, como citamos anteriormente, seria muito mais interessante verificar diretamente as temperaturas médias obtidas pelos satélites para o mês de novembro e não uma operação de soma gráfica, comparando-a com a imagem-base de médias climatológicas, onde se obtêm apenas as diferenças, chamadas de “anomalias”. Contudo, a intensidade do corredor frio foi suficientemente intensa para marcar todo o percurso, saindo da costa da Antártida, dentro do Mar de Weddell e atingindo a costa da Região Sul do Brasil. Também observamos um “corte” entre dois setores marcados com anomalias positivas entre o Brasil e o Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia (corte NW-SE), mostrando que esse mesmo frio foi suficiente para, no mínimo, chegar à média climatológica, indicando a sua ação por dentro do continente. Um dos exemplos combinados com outros processos do que ocasionou essa entrada de ar frio oriunda de Weddell foi o ocorrido de 7 a 10 de novembro, entre outros, quando tivemos a maturação de um grande ciclone extratropical (CET) sobre o continente. Esse sistema manteve grandes células de trovoadas muito bem desenvolvidas dentro de sua banda de nebulosidade, as quais causaram estragos consideráveis e óbitos sobre municípios do Paraná, incluindo um Complexo Convectivo de Mesoescala, que originou um possível tornado F2 . https://youtu.be/wgKhKD_wzWA?t=3761 Se ao sul, o lado do setor frio, os APMs oriundos do corredor de Weddell derrubavam as temperaturas, do lado do setor quente, ao norte, a Zona de Convergência Intertropical já havia migrado ao sul do Equador o suficiente para que seu escoamento de leste permitisse a entrada para o continente de colossal quantidade de umidade do Oceano Atlântico Tropical em forma de vapor. Como a circulação sobre a região central do Brasil era regida naquele momento por parte do Anticiclone Semipermanente do Atlântico Sul, observamos então o deslocamento dessa umidade pela periferia deste sistema de alta pressão atmosférica em superfície, passando por sobre a Amazônia , iniciando a sua estação chuvosa e seguindo até o Acre e Rondônia, descendo a seguir pelo corredor noroeste-sudeste que desemboca no Sul e no Sudeste, alimentando de umidade a banda nebulosa do CET (como já descrevemos em outras oportunidades, é o Grande “S”). Chuvas de novembro As chuvas tornaram-se mais intensas, iniciando o ano hidrológico em várias regiões do Brasil. Mesmo que ainda de forma tardia, elas começaram o processo de recarregamento das diversas bacias hidrográficas importantes do país, como a do Paraná e a do Tietê, como exemplos. Também permitiram o início do período de plantio de algumas culturas em vários estados. Contudo, podemos observar outras informações muito interessantes sobre o cartograma de anomalias de novembro de UAH. A maior parte do planeta não apresentou nenhuma variação em relação à média climatológica, especialmente a área equatorial e tropical de ambos os hemisférios. O observador pode também descartar com toda a segurança as anomalias de +0,5 e –0,5 o C, aumentando ainda mais a área. Os setores oceânicos do Pacífico ao largo da Austrália e do Japão , incluindo as adjacências continentais estão sob a influência de fraca La Niña , apresentaram aquela variação levemente acima da média que acabamos de relatar para desconsiderar, pois indicam esse processo. Ao inverso, o setor leste do Pacífico, ao largo da costa de Chile, tem-se a indicação da influência da corrente oceânica fria de Humboldt bem ativa, combinada com a mesma situação de La Niña e com a Oscilação Decadal do Pacífico, que em novembro fechou seu índice em –1,67. Guardamos as melhores para o final. O mais interessante de se observar quando estudamos um mapa global de anomalias de temperatura de baixa troposfera, que sabemos incluírem os principais processos atmosféricos de grande escala em sua base, é verificar como a atmosfera trabalha de maneira bem diferente entre os hemisférios. Para quem passou a vida estudando climatologia dinâmica da Antártida por meio dos APMs e CETs, pela soma de Escolas da Meteorologia e Climatologia Geográfica, é simplesmente sensacional verificar o trabalho advectivo (horizontal) de trocas térmicas e de massa operando no Hemisfério Sul, em seu estado de atividade perfeita, suficiente para destoar de médias, como ocorreu em novembro de 2025. Notemos um padrão “zebrado”, alterando-se entre “quente” e “frio” justamente no corredor da Trilha das Depressões, sobre todo o oceano Antártico (latitudes entre 55 a 65 o S). As localizações geográficas dos setores “frios” (anomalias negativas) indicam por onde houve uma tendência de maior passagem do ar frio em sentido as latitudes mais baixas, ajudando a diminuir as temperaturas onde o planeta é superavitário em energia, ou seja, os setores equatorial e tropical. Neste padrão observamos o corredor citado de Weddell, que inclui o Atlântico Sul, o Corredor de Ross, que cobre o Pacífico Sudeste, os escorregamentos frios provenientes das Terras da Rainha Maud que atingem o sudoeste do Índico e os escorregamentos frios de Wilkes que cobrem o setor oceânico ao Sul da Austrália. Em troca, as latitudes médias, por meio do setor quente e oclusões dos CET fornecem calor sensível e latente ao setor polar, indicados pelas anomalias positivas. Primeiramente sensível, ajudando a elevar as temperaturas extremamente baixas de um setor planetário totalmente deficitário, mesmo em pleno verão, quando o local recebe a maior carga de radiação solar em 24 horas do planeta. Justamente essa troca térmica é que dificulta ao máximo a possibilidade que o continente atinja temperaturas extremamente baixas, menores que –100,0 o C, o que seria um verdadeiro desastre para o planeta. Ao mesmo tempo, o ar quente vai se resfriando e acaba por liberar o calor latente que estava armazenado no vapor que o acompanhava. Ajuda a “esquentar” um pouco mais (ou resfriar menos), mas essencialmente, transporta umidade e deposita água em forma de chuva, na parte costeira, durante o verão, e muita neve, durante todo o ano. Assim, onde alguns veem as anomalias positivas sobre as Terras da Rainha Maud e de Wilkes como “provas de aquecimento global na Antártida” (não resisti em regionalizar o “fenômeno global”!), o que devemos entender é que a região teve alta probabilidade de precipitação de neve e, portanto, reposição de gelo. No setor oeste da Península Antártica, incluindo Mar de Bellingshausen, Amundsen e a região da estação norte-americana de McMurdo, em Ross, a reposição foi menor, mas não me surpreenderei se as áreas adjacentes aos Montes Patriot estejam bem repostas de neve em janeiro de 2026. Situação do Hemisfério Norte Já para o Hemisfério Norte, não observamos a mesma “maquina termodinâmica” em escala planetária trabalhando como vemos ao redor da Antártida pelas questões da distribuição diferenciada entre continentes e oceanos que os hemisférios apresentam. Contudo, podemos observar que algo análogo ocorreu em novembro no setor da Baía de Baffin, canal oceânico a oeste da Groenlândia, onde essa mesma anomalia positiva, forneceu umidade em forma de chuvas e neve antecipadamente ao inverno. O setor siberiano já sinalizou frio alguns meses antes e manteve seu padrão abaixo da média climatológica. Em um mapa muito distorcido pela convergência dos meridianos, não é muito fácil de observar algumas nuances dos processos na área polar, mas, para o Hemisfério Sul, reparem que todos os setores frios das anomalias, ao seu final, na latitude mais baixa, verteram-se para leste, exatamente como aconteceu no Brasil, enquanto os avanços quentes verteram-se para oeste, sobre o continente antártico. Essa foi mais uma amostra da perfeita sincronia dos processos aparecendo nas anomalias de temperaturas por persistência real, quase de um relógio. Simplesmente, divino. O post Registros de satélite de novembro de 2025 apareceu primeiro em Revista Oeste .