Gal Costa reverbera fase tropical entre rumbas e marchas de raro registro de show feito em Buenos Aires em 1985

Gal Costa (1945 – 2022) em número de show apresentado em maio de 1985 no Teatro Ópera, em Buenos Aires Reprodução ♫ ANÁLISE ♩ O acervo da pesquisadora argentina Evangelina Maffei tem sido um bálsamo para seguidores de Caetano Veloso, Gal Costa (1945 – 2022) e Maria Bethânia pela difusão de informações e gravações raras desses artistas. Organizadora do referencial blog “Caetano Veloso ,,,en detalle”, Maffei presenteou os admiradores de Gal no fim de 2025 com a publicação no YouTube, em caráter extraoficial, do registro integral do show apresentado pela cantora em 16 de maio de 1985, no Teatro Ópera, em Buenos Aires, capital da Argentina. Na ocasião, Gal já encerrara a fase Tropical com a edição em 1984 do álbum “Profana”, o primeiro da artista na gravadora então denominada RCA – companhia na qual, cabe lembrar, Gal debutara no mercado fonográfico com single editado em 1965. No entanto, ecos dos repertórios dos álbuns “Gal tropical” (1979), “Fantasia” (1981) e “Minha voz” (1982) ecoam no roteiro do show da artista no Teatro Ópera entre marchas, sambas e rumbas. Esse roteiro traz três músicas pouco ou nunca associadas a Gal. Pela ordem, a primeira é “Escandalosa” (Moacyr Silva e Djalma Esteves, 1947), rumba com a qual a cantora Emilinha Borba (1923 – 2005) animou muitos Carnavais na era do rádio. Gal nunca gravou “Escandalosa”, mas cantou a rumba no especial de TV “Baby Gal” (1983), possivelmente motivada pela gravação da “Rumba louca” (Moacyr Albuquerque e Tavinho Paes) no álbum também intitulado “Baby Gal”. A segunda música, presumivelmente inédita na voz de Gal até esse show de 1985, é marcha “I, yi, yi, yi, yi (I like you very much)” (Harry Warren / Mack Gordon, 1941), sucesso da cantora Carmen Miranda (1909 – 1955) na fase vivida nos Estados Unidos. Por fim, há o samba-enredo “O amanhã”, composto em 1977 por João Sérgio para a escola de samba União da Ilha do Governador desfilar no Carnaval de 1978. Hoje todo mundo pensa que foi Simone quem deu projeção ao samba-enredo fora da temporada carnavalesca, ao gravá-lo no álbum “Delírios, delícias...” (1983), mas, a rigor, foi Gal a primeira a cantar o samba fora do universo da folia. “O amanhã” encerrava o roteiro do controvertido show “Fantasia”, apresentado por Gal em 1981 antes do lançamento do álbum homônimo. No show em Buenos Aires, o encerramento foi com o samba “Meu nome é Gal”, ouvido em duelo da voz da cantora com a guitarra de Piska (1951 – 2011), em número que refez os embates musicais da cantora com os guitarristas Robertinho de Recife (no show “Gal tropical”, de 1979) e Victor Biglione (no dueto de especial de TV exibido em 1981). E que voz! O cristal de Gal estava tinindo nos anos 1980, década do auge vocal da cantora. Enfim, enquanto o público espera (em vão?) pelas edições de álbuns com os áudios dos shows “Índia” (1973), “Cantar” (1974) e “Gal canta Caymmi” (1976), encontrados pelo pesquisador Rodrigo Faour em 2010 no acervo da gravadora Universal Music, o registro extraoficial dessa apresentação argentina da cantora em 1985, disponibilizado pela pesquisadora Evangelina Maffei, atenua a saudade de Gal Costa.