Como Trump escolheu a chavista Delcy Rodríguez como nova líder da Venezuela após captura de Maduro

Semanas antes da operação que resultou na captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, autoridades dos EUA já haviam se decidido por uma candidata aceitável para substitui-lo após sua deposição — pelo menos temporariamente: a vice-presidente Delcy Rodríguez. A líder chavista, uma aliada de Maduro, impressionou funcionários do presidente americano, Donald Trump, com sua gestão da crucial indústria petrolífera venezuelana. Pessoas envolvidas nas discussões disseram que intermediários convenceram o governo de que ela protegeria e defenderia futuros investimentos americanos no setor de energia do país. Mudança de paradigma: Derrubada de Maduro pelos EUA é divisor de águas da política externa americana e marco da erosão do multilateralismo Mais de 150 aeronaves: Saiba como foi a operação militar dos EUA para a captura de Maduro Mudança de líderes, mas não de regime político: Chavistas mantêm o poder, e oposição radical é escanteada — Venho acompanhando a carreira dela há muito tempo, então tenho uma noção de quem ela é e do que ela representa — disse um alto funcionário dos EUA, referindo-se a Delcy. — Não estou alegando que ela seja a solução permanente para os problemas do país, mas ela certamente é alguém com quem achamos que podemos trabalhar em um nível muito mais profissional do que conseguíamos com ele. Initial plugin text As frequentes aparições públicas de Maduro, somada a outras demonstrações de indiferença, ajudaram a convencer integrantes da equipe de Trump de que o presidente venezuelano estava zombando deles, tentando pagar para ver o que ele acreditava ser um blefe, segundo duas das pessoas, que falaram sob condição de anonimato por não estarem autorizadas a discutir as conversas confidenciais. Na semana passada, Maduro desdenhou da então mais recente escalada dos EUA — um ataque a um cais que os EUA afirmaram ser usado para o tráfico de drogas —, dançando ao som de uma batida eletrônica na televisão estatal, enquanto sua voz gravada repetia em inglês: "No crazy war" (Sem guerras loucas). Antes, havia recusado uma proposta de exílio na Turquia. Assim, a Casa Branca decidiu levar adiante suas ameaças militares. A opção por permitir a posse de Delcy foi uma escolha fácil, disseram as fontes. Trump não simpatiza com a líder da oposição María Corina Machado, que organizou uma campanha presidencial vitoriosa em 2024, o que lhe rendeu o Prêmio Nobel da Paz no ano passado. No sábado, Trump disse que aceitaria Delcy, afirmando que a opositora carecia do "respeito" necessário para governar a Venezuela. Avião com Nicolás Maduro desembarca nos Estados Unidos Editorial do NYT critica operação para capturar Maduro: 'Tentar derrubar até o regime mais deplorável pode piorar as coisas' Autoridades americanas afirmam que o relacionamento com o governo interino será baseado na capacidade dela de jogar conforme as regras deles, acrescentando que reservam-se ao direito de tomar medidas militares adicionais caso não respeite os interesses dos EUA. Em uma declaração neste domingo, o secretário de Estado Marco Rubio afirmou que Washington irá trabalhar com as atuais lideranças da Venezuela se elas tomarem "as decisões certas". — Vamos julgar tudo pelo que fizerem, e vamos ver o que fazem — disse Rubio no programa Face the Nation, da CBS News. — Eu sei o seguinte: se não tomarem as decisões certas, os EUA manterão diversas ferramentas de pressão. Trump declarou no sábado que os EUA pretendem "administrar" a Venezuela por um período indeterminado e recuperar os interesses petrolíferos dos EUA, uma afirmação extraordinária de poder unilateral e expansionista após argumentos mais estreitos — e também contestados — sobre interromper o fluxo de drogas. Donald Trump diz que Estados Unidos vão 'comandar' a Venezuela até a transição Relato visual: Infográficos mostram como foi operação dos EUA que depôs Maduro na Venezuela Aposta em chavista Com Delcy, o governo Trump estaria se envolvendo com uma líder do governo que repetidamente rotulou como ilegítimo, ao mesmo tempo em que abandona María Corina — além de não estar claro, imediatamente, se Delcy sequer colaboraria. Em um pronunciamento na televisão, ela acusou os EUA de realizarem uma invasão ilegal e afirmou que Maduro continua sendo o líder legítimo da Venezuela. Para manter o poder de pressão, altos funcionários americanos disseram que as restrições dos EUA às exportações de petróleo venezuelano permanecerão em vigor por enquanto. Outros envolvidos nas negociações expressaram esperança de que o governo pare de deter petroleiros e emita mais licenças para que empresas dos EUA trabalhem no país, a fim de reanimar a economia e dar a Delcy uma chance de sucesso político. A vice-presidente de 56 anos chega ao posto de líder interina da Venezuela com as credenciais de uma solucionadora de problemas econômicos que orquestrou uma mudança no país: de um socialismo corrupto para um capitalismo laissez-faire igualmente corrupto. Delcy Rodríguez ao lado de Maduro e da cúpula chavista, em foto de janeiro de 2019 Luis Robayo/AFP Ela é filha de um guerrilheiro marxista que ganhou fama por sequestrar um empresário americano. Foi educada em parte na França, onde se especializou em direito trabalhista, e ocupou cargos de médio escalão no governo do predecessor de Maduro, Hugo Chávez, antes de ser promovida a cargos maiores com a ajuda de seu irmão mais velho, Jorge Rodríguez, que acabou se tornando o principal estrategista político de Maduro. Delcy conseguiu estabilizar a economia venezuelana após anos de crise e aumentar, de forma lenta mas constante, a produção de petróleo do país em meio ao endurecimento das sanções dos EUA, um feito que lhe rendeu o respeito relutante até de algumas autoridades americanas. À medida que Delcy consolidava o controle sobre a política econômica e eliminava rivais, ela construiu pontes com as elites econômicas da Venezuela, investidores estrangeiros e diplomatas, para quem se apresentava como uma tecnocrata de fala mansa, em contraste aos oficiais de segurança robustos que formavam a maior parte do círculo interno de Maduro. Análise: A Venezuela pós-Maduro navega na incerteza Entenda: É possível os EUA 'administrarem' a Venezuela legalmente após a captura de Maduro? Essas alianças deram frutos nos últimos meses, rendendo-lhe defensores poderosos que ajudaram a consolidar sua ascensão ao poder. No sábado, sua assunção foi recebida com otimismo cauteloso por alguns líderes da indústria da Venezuela, que disseram em particular que ela tinha as habilidades para gerar crescimento, se conseguisse convencer os EUA a relaxar o sufocamento da economia do país. Apesar de todas as suas inclinações tecnocráticas, Delcy nunca denunciou a repressão brutal e a corrupção que sustentaram o governo de Maduro, tendo certa vez chamado sua decisão de ingressar no governo de um ato de "vingança pessoal" pela morte de seu pai na prisão em 1976, após ser interrogado por agentes de inteligência de governos pró-EUA. A capacidade da líder em negociar através do abismo ideológico da Venezuela pode ser útil para aliviar as tensões. Juan Francisco García, ex-parlamentar do partido governista que desde então rompeu com o governo, disse ter algumas apreensões sobre a capacidade dela de governar, mas deu a ela o benefício da dúvida. Fronteira da Venezuela com o Brasil amanhece reaberta após ataque dos EUA — A história está cheia de setores e figuras ligadas a ditadores que, em algum momento, serviram como ponte para estabilizar o país e fazer a transição para um cenário democrático — disse García. As contradições que cercam Delcy ficaram evidentes no sábado, quando ela se dirigiu à nação. Embora Trump tenha dito que ela havia sido empossada como a nova presidente da Venezuela, ficou claro que os apoiadores de Maduro — incluindo a própria, se suas declarações forem levadas ao pé da letra — ainda a veem como a líder da Venezuela. Até mesmo o texto na televisão estatal venezuelana a rotulou como vice-presidente. Pessoas próximas ao governo, porém, disseram que essas exibições de lealdade eram uma estratégia necessária de relações públicas para pacificar os apoiadores leais do partido governista, inclusive nas Forças Armadas e grupos paramilitares, que estavam atordoados com a humilhação militar infligida pelos EUA ao seu país e com a destruição e morte causadas pelo ataque. (Com AFP)