Morador de Santa Elena de Uiáren, cidade venezuelana na fronteira com o Brasil, o técnico de comércio exterior Antonio Cardenas afirma ter pouca esperança de que algo mude em seu país após os Estados Unidos atacar Caracas e levar o presidente Nicolás Maduro para uma prisão em Nova York. Para ele, a ação americana foi um "show", apenas para tirar Maduro do poder, mas as mesmas pessoas que davam respaldo a seu governo seguem por lá. Passagem livre: fronteira da Venezuela com o Brasil amanhece reaberta após ataque dos EUA Ataques contra a Venezuela: Acompanhe a cobertura completa — O povo segue sofrendo, essa é a verdade. Nosso futuro é incerto. Não há um poder democratico na Venezuela. Os extremos, de direita e esquerda, são essa mentira. Quem está no meio sofre, o povo trabalhador e que quer uma economia que seja pujante. As pessoas estão decepcionadas e com muito medo, porque, afinal, não houve liberdade na Venezuela. Não acredito que os EUA vão solucionar nada. Eles não estão interessados na venezuela, estão interessados nos recursos da venezuela — disse ele. Um dia após os ataques dos Estados Unidos contra a Venezuela, a fronteira com o Brasil amanheceu reaberta, com um fluxo intenso de carros e pessoas em direção a Pacaraima, em Roraima, a primeira cidade do lado brasileiro. Venezuelanos que deixavam seu país de origem relatavam tensão com os bombardeios registrados na madrugada de sábado e incertezas sobre o que irá acontecer daqui para a frente. Fronteira da Venezuela com o Brasil amanhece reaberta após ataque dos EUA O engenheiro mecânico Maikeel Contrera, que deixou a família no estado de Mérida, na Venezuela, para tentar uma vida melhor no Brasil, diz que a sensação é de insegurança com o que chamou de "vazio de poder". — Há que evitar sair às ruas porque na Venezuela não há governo, há um vazio de poder e está cada um por um lado. As pessoas inocentes correm os risco de os grupos armados se enfrentarem. O risco é que não há lei. Há grupos armados em cada estado mandados por coronéis — disse ele ao cruzar a fronteira na manhã deste domingo. Após os ataques, a fronteira com o Brasil chegou a ser fechada no sábado pelo lado venezuelano, mas segundo relataram integrantes do governo brasileiro, foi reaberta no fim do dia. O fluxo maior é de venezuelanos deixando o país. Do lado brasileiro, militares montaram uma blitz, como revista minuciosa de todos os carros que entram e identificação de seus ocupantes. O trabalhador ambulante David Andrés, de 56 anos, e o operário Robert Rodrigues, de 25 anos, também chegaram ao Brasil em busca de oportunidade. Ao cruzar a fronteira neste domingo, eles dizem temer por quem ficou para trás. — Minha família está toda lá. Está muito complicado. Estamos com medo por quem ficou — diz David. Ao GLOBO, o governador de Roraima, Antonio Denarium (PP), disse temer que a crise na Venezuela gere uma nova onda de refugiados no estado e sugeriu ao governo federal o fechamento temporário da fronteira com o país. O pedido foi feito aos ministros da Defesa, José Múcio, da Casa Civil, Rui Costa, e de Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, com quem o governador conversou neste sábado. Em entrevista na noite de ontem, após uma reunião no Itamaraty, o ministro da Defesa afirmou que a situação na fronteira era "tranquila", mas que haveria um "plantão" para o caso de novos acontecimentos. Como mostrou o GLOBO, uma das principais preocupações do governo brasileiro diante dos ataques dos Estados Unidos à Venezuela é a extensa fronteira terrestre compartilhada pelos dois países, com mais de 2 mil quilômetros de extensão. Avaliações feitas no Palácio do Planalto e em áreas da segurança indicam que a instabilidade no território venezuelano pode gerar impactos diretos sobre a região norte do Brasil. A apreensão não se limita a um eventual aumento do fluxo de imigrantes venezuelanos em direção ao Brasil, movimento que já ocorre há anos em função da crise econômica e social no país vizinho. Autoridades brasileiras também veem risco de que a intensificação do conflito facilite a entrada, pela fronteira, de pessoas ligadas a organizações criminosas, especialmente ao narcotráfico. Desde que começou a crise migratória venezuelana, em 2013, ano em que Maduro foi eleito presidente pela primeira vez — já com denúncias de fraude por parte da oposição —, o Observatório da Diáspora Venezolana estima que 9,1 milhões de pessoas deixaram o país. De acordo com a Agência das Nações Unidas para os Refugiados, a Acnur, a Venezuela tem hoje o maior número de refugiados do mundo (6,3 milhões), superando países como a Síria.