No começo de dezembro, o presidente dos EUA, Donald Trump, surpreendeu muitos em Washington ao conceder perdão ao ex-líder de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado a 45 anos de prisão pela Justiça americana por comandar o que as autoridades chamaram de “uma das maiores e mais violentas conspirações para o tráfico de drogas do mundo”. Um mês depois, acusações similares contra um outro chefe de Estado, o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, motivaram uma inédita ação militar dos EUA. Duas histórias semelhantes, mas cujos desfechos mostram a influência de Trump no sistema jurídico dos Estados Unidos, refletindo suas próprias visões e interesses. Ataques na Venezuela: Infográficos mostram mobilização militar dos EUA no Caribe e rede de bases no exterior Entenda: Como Trump escolheu a chavista Delcy Rodríguez como nova líder da Venezuela após captura de Maduro A investigação contra Hernández começou ainda no primeiro mandato de Trump, centrada em denúncias sobre o uso de recursos do Estado hondurenho para o transporte de drogas aos Estados Unidos. Embora tenha chegado ao poder com o discurso de combate à violência e ao narcotráfico, o inquérito revelou que ele mantinha laços com organizações criminosas desde 2004, e que cobrava milhões de dólares como “pedágio” para que elas pudessem atuar sem problemas. Acompanhe ao vivo: Maduro chega a Nova York após ser capturado em ataque militar dos EUA na Venezuela Os investigadores também descobriram que o dinheiro foi usado em campanhas eleitorais, e os promotores do Departamento de Justiça dos EUA descreveram o esquema não apenas como “uma das maiores e mais violentas conspirações para o tráfico de drogas do mundo”, mas também como um mecanismo para que Hernández se mantivesse no poder. Ele foi preso em 2022, pouco depois de terminar seu segundo mandato, e extraditado para os Estados Unidos, onde foi condenado, em 2024, a 45 anos de prisão e pagamento de multa de US$ 8 milhões. Segundo os promotores, “ele pavimentou uma estrada de cocaína para os EUA, com o apoio de metralhadoras”. Gravações exibidas no tribunal mostraram diálogos explícitos com traficante: em um deles, disse que queria “enfiar drogas nos narizes dos gringos” nos EUA. Lucro suspeito: Horas antes de ataque dos EUA na Venezuela, mercados de previsão tiveram salto em apostas sobre queda de Maduro Maduro, capturado no sábado, também enfrenta acusações ligadas ao tráfico: conspiração para o narcoterrorismo; conspiração para a importação de cocaína nos EUA; posse ilegar de metralhadoras e equipamentos explosivos e conspiração para a posse desses armamentos. O venezuelano também é acusado, em um processo aberto em 2020, de liderar uma organização criminosa, o Cartel de los Soles, que, de acordo com o Departamento de Justiça dos EUA, é responsável por exportar toneladas de drogas para o país. O Departamento de Estado oferecia uma recompensa de US$ 50 milhões por informações que levassem à sua prisão. Em boa parte do planeta, acusações semelhantes levariam a desfechos parecidos. Mas na Era Trump 2.0, interesses do presidente furam a fila. Ainda em 2022, quando foi extraditado, Hernández acusava o então presidente dos EUA, Joe Biden, de perseguição política contra ele, ignorando que a investigação foi lançada pelo Departamento de Justiça ainda no primeiro mandato de Trump. Com o retorno do republicano à Casa Branca, a defesa viu a oportunidade perfeita para agir. Em outubro, por intermédio de um velho conhecido de Washington, o conselheiro político Roger Stone, a defesa de Hernández enviou uma carta de quatro páginas a Trump, na qual apontava para uma suposta perseguição política, repetia argumentos caros ao presidente (“esquerda radical”, por exemplo) e citava Joe Biden. Dias antes de conceder o perdão, Trump já dava sinais de que a estratégia funcionou. — Ele era o presidente do país, e basicamente disseram que ele era um traficante de drogas porque era o presidente do país — disse Trump a jornalistas, no final de novembro. — E disseram que foi uma armação do governo Biden. E eu analisei os fatos e concordei com eles. Mudança de líderes, mas não de regime político na Venezuela: Chavistas mantêm o poder, e oposição radical é escanteada Apesar do perdão, Hernández não voltará tão cedo a Honduras. Dias depois da decisão de Trump, a Justiça local emitiu um mandado internacional de prisão contra ele, citando acusações de lavagem de dinheiro e fraude, ligadas à sua primeira eleição, em 2014. “Fomos feridos pelos tentáculos da corrupção e pelas redes criminosas que marcaram profundamente a vida do nosso país”, disse o procurador-geral de Honduras, Johel Antonio, Zelaya ao anunciar o mandado de prisão, na rede social X. Desde o início do ano, quando voltou à Presidência, Trump emitiu mais de 1,5 mil perdões a pessoas condenadas por crimes de diferentes tipos, incluindo a invasão ao Capitólio, em janeiro de 2021. Em praticamente todos os casos, os beneficiados eram seus apoiadores. (Com The New York Times)