A Venezuela entrou em uma nova era, marcada por incerteza, após a captura e destituição de Nicolás Maduro, ordenadas pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no sábado. Em meio à apreensão sobre o futuro do país, as ruas de Caracas, a capital, e de outras cidades têm permanecido incomumente silenciosas um dia depois do ataque americano. As pessoas estão receosas de sair às ruas. Aqueles que se aventuraram a sair têm uma prioridade: estocar suprimentos básicos caso haja confrontos ou saques. Neste domingo, apesar das ruas praticamente vazias, longas filas se formaram em supermercados e farmácias. 'Ocupação virtual': Após derrubar Maduro, EUA buscam gerenciar Venezuela e chavismo por coerção Procurado pelos EUA: Ministro da Defesa da Venezuela afirma que prisão de Maduro é 'fator de instabilidade' — Eu queria encher o tanque de gasolina, mas os postos já estão fechados, então aproveitei para comprar comida porque não sabemos o que vai acontecer. Parece uma cidade abandonada — disse o mecânico Jairo Chacin, de 39 anos, em entrevista à Reuters. — Sinceramente, estou com uma mistura de medo e alegria. A realidade na capital venezuelana é de cautela, com os cidadãos divididos entre a expectativa pelo futuro e a preocupação com o abastecimento de alimentos em suas casas. Neste domingo, em Caricuao, os moradores começaram a se reunir em torno dos mercados antes das 9h para tentar comprar itens de primeira necessidade. Essa situação se repetiu em diversas partes da capital. Initial plugin text As pessoas enchiam seus carrinhos com água, papel higiênico e outros produtos. Vídeos gravados em La Candelaria, no centro de Caracas, mostraram dezenas de pessoas em fila para comprar comida. Numa loja localizada num conjunto habitacional público da cidade, cerca de 10 pessoas corriam para encher jarras de água. Moradores formaram filas para encher galões de água em uma área residencial de Caracas The New York Times — Quero saber o que acontecerá daqui pra frente — contou Nancy Pérez, de 74 anos, que saiu para ir a uma padaria perto de sua casa em Valência, no centro da Venezuela. Em Valência, cidade a duas horas a oeste de Caracas, os supermercados também abriram cedo. As compras, motivadas pela incerteza, levaram algumas pessoas a utilizarem dois carros para transportar todos os produtos que compraram. Alguns produtos esgotaram em determinados mercados, como em Maracaibo, onde os estabelecimentos relataram que frango e ovos acabaram, enquanto em outras cidades as prateleiras de laticínios e os refrigeradores de proteínas estavam vazios. Initial plugin text Muitas lojas, postos de gasolina e igrejas permaneceram fechados neste domingo. Num bairro de baixa renda na zona leste de Caracas, o operário da construção civil Daniel Medalla sentou-se nos degraus em frente a uma igreja católica e disse a alguns fiéis que não haveria missa matinal. Medalla, segundo a agência Associated Press (AP), disse acreditar que as ruas permaneceram praticamente vazias porque as pessoas temem a repressão do governo caso ousem comemorar. — Não sabemos o que está acontecendo, ninguém sabe — disse Cecilia Martínez, de 47 anos. — Mas somos cinco pessoas em casa e meus pais têm mais de 80 anos, então não posso ficar sentada esperando que digam se haverá toque de recolher ou não. Por isso, vim para cá e gastei tudo o que tinha. Vista de uma rua vazia em Caracas Federico Parra/AFP O sistema de transporte público está operando com capacidade reduzida. Tanto o metrô de Caracas quanto o trem estão funcionando normalmente, embora com baixo volume de passageiros. Pessoas também foram vistas em estações de metrô procurando pontos de recarga para seus celulares, confirmando que diversas partes da cidade ainda estão sem energia desde o ataque. O Aeroporto Internacional Simón Bolívar, conhecido como Maiquetía, que serve Caracas, permanece fechado. Não há voos programados, nem domésticos nem internacionais. O mesmo aconteceu no aeroporto Cipriano Castro, em San Antonio del Táchira, onde a chegada de cinco voos e a partida de outros quatro foram suspensas. Análise: Em tempos de 'Doutrina Donroe', Trump aponta 'big stick' para Maduro e marca política externa para negócios No estado costeiro de La Guaira, famílias com casas danificadas pelas explosões da operação americana que capturou Maduro na madrugada de sábado limpavam os escombros. Wilman González, que ficou com um olho roxo devido à explosão, vasculhava os escombros no chão, cercado por móveis quebrados. Uma parte de seu prédio foi quase completamente destruída. Várias pessoas, ainda de acordo com a AP, foram mortas pelos ataques dos EUA, embora as autoridades venezuelanas não tenham confirmado o número exato. Entre os mortos estava a tia de González. — É só isso que nos restou: ruínas — disse González à AP. — Somos civis, não estamos ligados ao governo nem a ninguém. (Com El Nacional)