Ateu e anticlerical, Javier Cercas lança livro sobre Papa Francisco e explica por que escrever série policial talvez o tenha livrado da cadeia

O escritor espanhol Javier Cercas se descreve como “ateu”, “anticlerical”, “laicista militante”, “racionalista contumaz” e “ímpio rigoroso”. Essas etiquetas explicam por que um convite do Vaticano, em 2023, lhe pareceu sem pé nem cabeça: acompanhar o Papa Francisco a uma viagem à Mongólia (onde a diminuta comunidade católica soma 1.500 almas) e escrever um livro. Nunca antes na história da Igreja Católica um escritor havia recebido essa proposta. Cercas só topou porque teria liberdade para escrever o que quisesse e para perguntar ao Papa se a ressurreição da carne e a vida eterna são verdades literais e, assim, assegurar à sua mãe católica que ela reencontraria o marido após a morte. Mulheres leem mais e compram mais livros: Como o protagonismo das leitoras mudou o mercado editorial IA na literatura: Robôs que 'escrevem' sem bloqueio criativo preocupam autores, que buscam direitos na justiça Recém-lançado no Brasil, “O louco de Deus no fim do mundo” venceu o Prêmio do Livro Europeu e narra a atribulada relação do escritor ateu (o “louco sem Deus”) e do Papa argentino (o “louco de Deus”) com a fé. Cercas deixou de crer ainda na adolescência, após descobrir a paixão e a literatura. Antes de embarcar para a Ásia com Sua Santidade, ele entrevistou próceres do Vaticano sobre o conflito da fé e da razão, sobre o que vê como fobia da religião diante do sexo e sobre a tentativa de Francisco de aproximar a Igreja dos fiéis e, em particular, das periferias. Cercas apresenta Jorge Mario Bergoglio, atento às coisas deste mundo e profundamente espiritual, como poço de paradoxos, autoritário e pregador da humildade. Outro livro de Cercas acaba de sair no Brasil: “Independência”, segundo volume da trilogia “Terra Alta”, protagonizada por Melchor Marín, policial (fictício) que matou os terroristas responsáveis pelo atentado (real) na Catalunha em 2017. Em sua nova aventura, Marín é convocado pela prefeita de Barcelona, em apuros após chantagistas ameaçarem divulgar um vídeo íntimo dela. A trama escancara os vícios do poder, tema a que o autor vem se dedicando após a crise que terminou com a declaração unilateral de independência da Catalunha, também em 2017. Os livros do ano: Confira 100 títulos que foram destaque em 2025, entre ficção, não ficção, poesia e quadrinhos Celebrado por romances sem ficção nos quais escava o passado recente de seu país, como “Anatomia de um instante” e “O rei das sombras”, Cercas conversou por vídeo com o GLOBO de sua casa, em Barcelona. O escritor de 63 anos confessou sua simpatia pelo cristianismo, descreveu Francisco como “um homem em luta consigo mesmo” e explicou por que escrever uma trilogia policial talvez o tenha livrado da cadeia. Escrever “O louco de Deus no fim do mundo” mudou sua relação com a fé? Eu tinha fobia de religião, como muita gente na Espanha, devido a séculos de uma Igreja repressora e violenta, aliada dos ricos e poderosos, da ditadura fascista. Precisei me despir dessa fobia justificada. Simpatizo com o cristianismo. Cristo era um rebelde social, foi crucificado por dizer coisas perigosas, como que homens e mulheres são iguais, em um mundo onde reinava a escravidão. Era também um rebelde metafísico, pregava uma rebelião contra a morte. Charles Péguy (1873-1914), um escritor francês místico e revolucionário, disse que nada era mais contrário ao cristianismo que o espírito burguês. Gosto dessa radicalidade cristã. 'Do teu fantasma só vejo o coração': Fugindo de clichês, romance de Thiago Souza de Souza discute religião e função da arte Você escreve que, quando ouve Bach, sente um “desejo irreprimível” de crer em Deus. Às vezes, tenho inveja dos que creem de verdade. Como a minha mãe. Comparada à dela, a fé do Papa Francisco era um pouco duvidosa (risos). Eu disse ao Cardeal Tolentino, que é um grande poeta português, que vejo a fé como uma intuição poética, uma percepção de que há um sentido lá onde os outros não veem sentido nenhum. O Papa me disse que a fé é um dom, um presente. Não é um ato voluntário. Não dá para decidir ter fé para viver mais tranquilo, assim como não dá para escrever um poema sem uma intuição. Flannery O’Connor (escritora americana) tinha razão quando disse que crer é mais difícil que não crer. Na sua vida, a literatura ocupou o lugar da fé? A literatura pode e não pode substituir a religião. Não pode porque a religião oferece respostas; a literatura, não. Por outro lado, a busca da resposta já é a resposta. E é isso que a literatura faz: transforma a pergunta em sua própria resposta. A literatura é também uma forma de transcendência, permite que alguns, como Shakespeare e Cervantes, vivam além de suas próprias vidas e criem algo que antes deles não existia. Tanto a literatura quanto a religião são formas de lutar contra a morte. Desde “Soldados de Salamina” (2001), sua obra é uma investigação do heroísmo. O Papa Francisco era um herói? O heroísmo é uma forma de excelência moral, como a santidade. Em “O louco de Deus no fim do mundo”, quem mais chega perto disso são os missionários que conheci na Mongólia. São eles os que mais se aproximam de Cristo, que não tem nada a ver com o cristianismo pervertido de hoje. Como os heróis, e como os escritores devem fazer, os missionários assumem sua vocação de maneira radical. 'Tarde no planeta': Romance põe amor entre mãe e filho em xeque em trama assombrada por tragédia ambiental Muitos consideravam o Papa Francisco radical. Francisco foi muitos ao longo da vida. Era um personagem cheio de contradições, um homem em luta consigo mesmo, consciente de seus muitos defeitos. Era ambicioso, tendia ao autoritarismo, mas lutou até a morte para ser o melhor que podia. Francisco foi o melhor Bergoglio possível. A relação da Espanha com seu passado, em especial com a ditadura franquista, sempre foi o grande tema da sua obra. Com a trilogia policial, seu interesse migrou do passado para o presente. Por quê? A série policial surge de uma péssima experiência pessoal. Me refiro à crise catalã de 2017 que culminou na declaração unilateral de independência. Uma classe dirigente frívola e corrupta enganou os cidadãos e nos colocou à beira do conflito. Eu me opus a isso e houve consequências. Foi o momento mais duro da minha vida e escrever a trilogia foi catártico. A trilogia fala de justiça, do valor da lei. Se não tivesse escrito, talvez estivesse preso por crimes terríveis (risos). Experiências ruins são o melhor combustível da literatura. Escritores são alquimistas: transformam a dor, a violência, em beleza e sentido. Posicionar-se contra a independência afetou sua imagem na Catalunha? Me tornei uma pessoa “controversa”, perdi leitores e amigos. Mas o trabalho de um escritor é correr riscos. Um covarde não pode ser escritor. Dentro de mim, convivem o romancista e o cidadão. O romancista trabalha com a ironia, nunca diz “sim” ou “não”. Ou diz “sim” e “não” ao mesmo tempo. Já o cidadão precisa dizer “sim” ou “não”. Os dois estão em combate permanente dentro de mim e é melhor que nenhum deles vença. É por isso que os meus romances podem dizer o oposto do que dizem meus artigos nos jornais e Melchor Marín faz o oposto do que eu penso. Ele faz justiça com as próprias mãos, espanca homens que praticam violência doméstica... Pessoalmente, sou contra a justiça com as próprias mãos, mas fico contente que Melchor faça isso! É como disse Cesare Pavese (escritor italiano): a literatura é uma defesa contra as ofensas da vida. Me dá muito alívio que na literatura se possa fazer coisas que na realidade não podemos. Dentro de cada um de nós, há uma besta furiosa, cheia de desejo de vingança. A literatura é o lugar para colocar todo esse mal. A trilogia é também uma crítica ao nacionalismo. Este é mesmo o último refúgio do canalha, como disse o escritor inglês Samuel Johnson? Sim. A palavra “pátria” só adquiriu sentido político e se transformou num instrumento de barbárie com o nacionalismo do século XIX. Tenho medo quando ouço a palavra “pátria” da boca de um militar. Para Cervantes, a pátria é a colina para onde Dom Quixote e Sancho Pança retornam no final do livro. Sancho cai em lágrimas e diz: “Abre os olhos, pátria desejada, e vê que volta Sancho Pança, teu filho”. Reivindico esse sentido primitivo e pessoal de pátria, o lugar onde estão nossa família, nossos amigos, para onde queremos voltar. A trilogia foi uma tentativa de encontrar uma nova pátria, que me acolhesse depois de tudo que perdi.