Mãe cria aplicativo para ajudar filhas a elaborarem o luto em curso sobre IA na Cidade de Deus

Uma experiência pessoal marcada pelo luto e pela dificuldade das filhas em expressarem sentimentos foram os pontos de partida para a criação de um aplicativo voltado ao apoio emocional de crianças e adolescentes. A iniciativa surgiu n uma atividade de empoderamento digital promovida pela ONG Nóiz, na Cidade de Deus. A ideia do aplicativo foi de Ariana do Nascimento, de 36 anos, moradora da comunidade e mãe das gêmeas Emanuelle e Jennifer, de 8 anos. No mesmo ano, as meninas perderam os dois avós, período em que Ariana precisou se dividir entre os cuidados com a família e a presença constante no hospital. — Eu fiquei muito ausente, ajudando minha avó, e percebi que minhas filhas começaram a ter muita dificuldade para lidar com as emoções — conta Ariana. Situações cotidianas, como conflitos na escola ou pequenas frustrações, geravam reações intensas. — Elas choravam sem parar e não conseguiam explicar o que estavam sentindo. Diziam: “Mãe, eu não sei dizer, mas aqui dentro de mim tá muito difícil” — relembra. A ideia de transformar essa vivência em solução digital surgiu durante a atividade “IAgora?”, em que os participantes deveriam criar aplicações com o uso de inteligência artificial voltadas a problemas reais do cotidiano. — Quando apareceu a oportunidade de criar algo, pensei imediatamente nelas. Queria uma ferramenta que ajudasse minhas filhas e outras crianças a elaborarem essas emoções — conta Ariana. A partir da sugestão, a turma desenvolveu dois aplicativos com foco no bem-estar emocional infantil: EmotiKids e Guardiões das Emoções. As plataformas utilizam linguagem lúdica, jogos, quizzes e desafios simples, pensados para crianças a partir de 6 anos, além de exercícios de respiração e autorregulação emocional. Segundo Ariana, o impacto foi imediato dentro de casa. — Quando mostrei o jogo, elas amaram as cores e entenderam na hora que era sobre emoções. Teve um dia em que uma chegou muito triste da escola, pediu para jogar e depois conseguiu me contar o que tinha acontecido. Antes, não conseguia — diz. Segundo a mãe, uma das filhas passou a usar espontaneamente exercícios de respiração aprendidos no aplicativo para se acalmar. Um dos aplicativos foi desenvolvido coletivamente pela turma, enquanto o outro surgiu a partir de diferentes interpretações da mesma ideia, como parte da metodologia proposta pelas educadoras da Nóiz. — A proposta era mostrar como uma mesma ideia pode gerar resultados diferentes a partir dos comandos e escolhas feitas com inteligência artificial — diz Marilia Koury, vice-presidente da ONG. — Além de aprenderem uma habilidade cada vez mais demandada no mercado, essas mulheres percebem que podem criar tecnologia com sentido social. Desempregada e com ensino médio completo, Ariana trabalha eventualmente com confeitaria e eventos. Ela conta que não tem condições financeiras de pagar terapia para as filhas, o que torna o acesso gratuito às ferramentas ainda mais relevante. — Já fiz outros cursos pagos que não chegam nem perto do que aprendi aqui. Eu tinha medo da tecnologia, achava que a inteligência artificial era algo distante, até perigoso. Hoje vejo quantas portas ela abre — reitera. A repercussão do aplicativo também chegou à escola das meninas. Após comentarem sobre o jogo com colegas, o interesse se espalhou entre outras crianças e chamou a atenção de uma professora. — Ainda está tudo muito inicial, mas penso em aprimorar o app para apresentar uma proposta para a escola — diz Ariana, que vem estudando conteúdos de psicologia e pedagogia para qualificar os exercícios. — Até isso eu aprendi com a IA. Os aplicativos podem ser acessados gratuitamente pelos links EmotiKids e Guardiões das Emoções. Initial plugin text