Um dia depois de capturar Nicolás Maduro, o presidente americano, Donald Trump, declarou que os Estados Unidos estão "no comando" da Venezuela e emitiu alertas contundentes a outros países que podem ser seus próximos alvos. Apesar de Delcy Rodriguez ter sido nomeada como presidente interina, Trump afirmou, em entrevista à revista The Atlantic, que "se ela não fizer a coisa certa, pagará um preço muito alto", sugerindo que Washington recorreria mais à pressão e à coerção sobre a Venezuela do que ao controle direto do país. Enquanto isso, a população permanece em casa, dividida entre a incerteza sobre o futuro político do país e o alívio pela queda de Maduro. 'Ocupação virtual': Após derrubar Maduro, EUA buscam gerenciar Venezuela e chavismo por coerção Após ataque dos EUA: venezuelanos correm a supermercados para estocar comida e água diante da incerteza sobre o futuro do país Assim como muitos venezuelanos, José, um empresário radicado na Cidade do México, votou contra Nicolás Maduro nas eleições de 2024. O homem de 35 anos ficou consternado quando Maduro se manteve no poder, em meio a acusações de fraude e protestos da oposição em todo o país. Ao acordar no último sábado com a notícia de que Maduro havia sido deposto em uma megaoperação militar dos EUA em Caracas, teve uma mistura de sentimentos entre pavor, alegria e incerteza. — É uma sensação agridoce — classificou José, que preferiu não revelar seu sobrenome por medo de represálias do governo contra sua família na Venezuela. — A primeira coisa que me vem à mente é: "Somos livres e estou muito feliz, mas o que acontecerá amanhã?" Maduro é apenas uma peça de uma máquina muito maior. Initial plugin text Maduro, de fato, era um líder profundamente impopular e foi acusado de fraudar as eleições de 2024. Na época, uma pesquisa de boca de urna independente e uma apuração dos votos pela oposição pareciam indicar que ele sofreu uma derrota decisiva , com 66% dos votos contra 31%. Assim como muitos outros venezuelanos, José deseja a saída definitiva de Maduro, mas se preocupa com o futuro político do país. Ele teme que, sem um plano claro dos EUA para a transição de poder, a Venezuela possa mergulhar no caos — com grupos guerrilheiros disputando território e facções rivais lutando entre si. Jorge, outro venezuelano que mora perto de Caracas, disse à rede britânica BBC que, embora esteja grato por ter "um bom apoio de Trump e dos Estados Unidos", imagina que os próximos dias não sejam fáceis. — Agora que estão levando [Maduro] embora, o que vai acontecer? Isso não nos garante nada. Há um pouco de incerteza. Não sabemos o que os próximos dias nos reservam — afirmou Jorge, acrescentando que também está preocupado com a influência de Diosdado Cabello, aliado de Maduro e ministro do Interior, Justiça e Paz da Venezuela. — Ele é uma pessoa muito má. Não sei quantas pessoas ele tem do lado. Espero que o Exército fique do lado do povo e que ele perca um pouco do controle. Análise: Em tempos de 'Doutrina Donroe', Trump aponta 'big stick' para Maduro e marca política externa para negócios Dina, uma moradora de Caracas, disse à BBC que, por enquanto, também estava grata aos EUA por "terem tirado Maduro daqui", porque "pelo menos agora consegue ver uma luz no fim do túnel", mas que não está depositando muita fé em Trump. — Ele diz uma coisa hoje e amanhã muda de ideia. Quer dizer, não estou acostumada a levar as palavras dele a sério — afirmou ela. O futuro com Delcy, pelo menos por enquanto Em entrevista à rede americana CNN, Olga Jimenez contou que finalmente saiu de casa no domingo, depois de ter ficado confinada o sábado inteiro. Com Maduro ou sem Maduro, disse Jimenez, ela não espera que muita coisa mude na Venezuela. — Estou vidrada na TV para ver o que está acontecendo, e o que existe é incerteza. Você não sente uma mudança de governo porque tudo continua igual. A única coisa é que não sabemos de nada — disse a mulher. Desconfiança: venezuelanos dizem que 'nada muda' com Delcy Rodríguez na presidência Muitos venezuelanos que se opõem a Maduro também desconfiam de Delcy Rodríguez. A líder chavista, uma aliada de Maduro, impressionou funcionários de Trump com sua gestão da crucial indústria petrolífera venezuelana. Pessoas envolvidas nas discussões disseram que intermediários convenceram o governo de que ela protegeria e defenderia futuros investimentos americanos no setor de energia do país. — Esse tem sido meu medo desde o primeiro dia: que Trump pensasse que seria fácil, que uma vez que Maduro saísse, seria como pó de fada, arco-íris e todos estariam felizes — disse Brian Naranjo, que atuou como chefe adjunto da missão na Embaixada dos EUA em Caracas, à CNN. Uma professora da cidade de Maracaibo, que também concedeu entrevista à CNN sob condição de anonimato, disse ter chorado de alegria ao saber da deposição de Maduro. Mas sua alegria durou pouco, terminando quando soube que Rodríguez permaneceria no comando. Reação contida Em comparação com a euforia que saudou as tropas americanas nas ruas de Bagdá, no Iraque, após a queda do ditador Saddam Hussein em 2003, as ruas de Caracas estavam assustadoramente silenciosas no domingo, um dia depois da captura de Maduro, com exceção de algumas pequenas manifestações organizadas pelo governo para protestar contra a deposição. O perigo de se manifestar contra Maduro ainda é real na Venezuela, já que a Assembleia Nacional – dominada por apoiadores de Maduro – aprovou uma lei que declara "traidor" qualquer pessoa que expresse apoio aos bloqueios navais dos EUA. Trump mal falou sobre democracia desde que as forças americanas capturaram Maduro e tampouco apresentou um plano de transição detalhado. Ele foi, porém, enfático ao afirmar que o governo receberá um acordo mais lucrativo para o petróleo venezuelano. Veja: Governo da Venezuela tenta projetar normalidade institucional após derrubada de Maduro pelos EUA Para muitos venezuelanos e analistas, o foco do presidente americano nas reservas de petróleo traz semelhanças com a invasão americana do Iraque. O então presidente George W. Bush declarou "missão cumprida" apenas seis semanas após a invasão — e o Iraque mergulhou em uma brutal guerra civil que matou milhares de cidadãos e soldados americanos. — Qual é o plano? Figuras-chave do regime ainda estão em seus cargos. Essa incerteza favorece o regime que se opõe à democracia, e não a oposição que a abraçou — concluiu Naranjo. (Com The New York Times)