Venezuela: confira três livros de autoras contemporâneas que mostram os impactos da crise política na vida privada

Na última década, a imprensa noticiou sem parar a deterioração da Venezuela: sanções internacionais que sufocavam a economia do país, inflação nas alturas, empobrecimento geral da população, milhares e milhares de exilados atravessando as fronteiras do Brasil e da Colômbia, a escalada autoritária do chavismo, as acusações de fraudes nas eleições e a perseguição aos opositores. Por sua natureza, os jornais focam nos números e nos fatos de conhecimento público, como a deposição de Nicolás Maduro por forças militares americanas no último sábado (3). Mas como o venezuelano comum vive a crise de seu país? Os livros do ano: Confira 100 títulos que foram destaque em 2025, entre ficção, não ficção, poesia e quadrinhos Ateu e anticlerical: Javier Cercas lança livro sobre Papa Francisco e explica por que escrever série policial talvez o tenha livrado da cadeia Para essa resposta, podemos contar com a literatura. A produção venezuelana ainda é pouco conhecida no Brasil — “Dona Bárbara”, de Rómulo Gallegos, um dos maiores clássicos do país, só foi traduzido por aqui em 2021. Na esteira do acirramento dos conflitos na Venezuela, porém, começaram a aparecer em português obras de jovens escritores que recorrem à ficção e à autobiografia para narrar a ruína de seu país. Nesses livros, a tragédia não é só da pátria, é também privada; corrói não somente as estruturas do poder político e econômico, mas também as relações afetivas. Entrevista: 'Nossos mortos nos matam de tristeza', diz escritora venezuelana Confira abaixo três títulos de autoras venezuelanas contemporâneas que ajudam a entender a dimensão íntima de um drama público: “Voltar a quando”, de María Elena Morán Recém-lançado no Brasil e traduzido pela própria autora (que vive em São Paulo), o romance acompanha cinco personagens para refletir sobre as responsabilidades individuais diante da bancarrota de um projeto político. No centro da história estão Nina e Camilo, apoiadores fervorosos do chavismo no passado. Depois do divórcio (e do colapso de seu país), ela se refugia no Brasil; ele, no dinheiro da família. A mãe dela, Graciela, fica na Venezuela cuidando de Elisa, sua neta adolescente. A quinta voz do livro é Raúl, pai de Nina, personagem que homenageia a tradição do realismo mágico latino-americano. O romance foi editado pela Biblioteca Azul, selo da Globo Livros. “Mãe pátria”, de Paula Ramón Paula Ramón nasceu em Maracaibo, outrora conhecida como a Arábia Saudita da Venezuela. Antes dos 25 anos, já havia vivenciado três golpes de Estado e começou sua carreira jornalística cobrindo o chavismo. Em “Mãe Pátria”, conta tanto a história de seu país como a sua família: o pai, espanhol, chegou à Venezuela depois da Segunda Guerra Mundial; a mãe é uma professora aposentada e tem a saúde frágil; os irmãos se dividem entre a adesão ao chavismo, a desilusão com a política e a opção pelo empreendedorismo. Transitando entre o pessoal e o político, a autora mostra as consequências da escassez e da brutalidade do poder na vida familiar. Não à toa, o subtítulo do livro é “a desintegração de uma família na Venezuela em colapso”. “Mãe Pátria” foi publicado pela Companhia das Letras e a tradução é de Ari Roitman e Paulina Wacht. “Noite em Caracas”, de Karina Sainz Borgo Primeiro romance sobre a crise venezuelana a virar best-seller internacional, “Noite em Caracas” é ambientado numa Venezuela em ruínas, governada por autoproclamados revolucionários e carente de luz, dinheiro e comida. É também um romance sobre o luto. Adelaida Falcón, a narradora, vive numa Caracas desolada e sobrevive prestando serviços a editoras estrangeiras. Perde a mãe depois de uma longa doença que lhe arrancara as poucas economias que conseguiu salvar da inflação. Adelaida não reconhece mais a Caracas onde cresceu. A Venezuela, ela afirma, não era mais “um país”, “uma nação”, mas “uma fossa séptica”. O romance foi lançado no Brasil pela Intrínseca, em 2019, durante a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que contou com a presença da autora. A tradução é de Livia Deorsola.