Prefeitura do Rio quer vender 324 imóveis; entre eles, primeiro cortiço do país e antiga sede do Automóvel Club do Brasil; entenda

Um solar em estilo neoclássico na Rua do Passeio, no Centro, com quase dois séculos e arrematado em um leilão pela Prefeitura do Rio em 2003, atravessou os últimos 20 anos à espera de um destino definitivo. Ao longo desse tempo, sucessivos projetos, inclusive os que previam parcerias público-privadas, jamais saíram do papel. O prédio da antiga sede do Automóvel Club do Brasil, que já passou por diversas intervenções emergenciais para evitar o desabamento, agora faz parte da lista de 324 imóveis incluídos em um projeto de lei enviado pelo prefeito Eduardo Paes à Câmara Municipal, em regime de urgência, durante o recesso do fim do ano passado, que pede autorização para vendê-los. Shopping Tijuca: Polícia Civil inicia fase preliminar de perícia no após incêndio que matou duas pessoas Alerj: órgão exonera mais de 200 funcionários, entre eles um filho e ex-mulher de Sérgio Cabral O valor do patrimônio ainda é desconhecido porque dependerá de avaliação prévia a ser divulgada em cada edital de venda, mas fontes do mercado estimam que o caixa municipal possa receber entre R$ 2 bilhões e R$ 2,5 bilhões se todos encontrarem compradores. Na Barra, cerejas do bolo A lista também tem imóveis ainda em uso pela própria administração pública. A prefeitura está anunciando as sedes da Comlurb (na Rua Major Ávila, Tijuca), da Defesa Civil do município (em Vila Isabel), da Rio Luz e da Empresa Pública de Saúde (ambas em Botafogo) e das subprefeituras da Grande Tijuca e de Madureira. Também podem atrair a atenção de compradores 37 terrenos na Barra da Tijuca e 15 no Recreio dos Bandeirantes. Essas áreas foram originalmente foram doadas por particulares no momento de licenciamento de condomínios e shoppings, para que a prefeitura construísse parques, praças, creches e escolas que nunca saíram do papel. Imóveis hoje alugados para comerciantes no Centro foram colocados na relação. O prédio da ONS, na Rua Júlio do Carmo, na Cidade Nova, é alugado para o órgão federal, mas prefeitura quer vendê-lo Júlia Aguiar/Agência O Globo A prefeitura alega que precisa ter flexibilidade na gestão de seu patrimônio, caso surjam oportunidades para permutas com investidores ou para obter recursos que viabilizem projetos de habitação popular ou de reurbanização de áreas degradadas, por exemplo. Políticos de oposição, por sua vez, dizem que o objetivo de Paes, pré-candidato a governador, seria fazer caixa no ano em que pode deixar o comando da cidade para concorrer à sucessão de Cláudio Castro. — Não somos contra vender imóveis. O governo do estado também está buscando uma melhor gestão do patrimônio. A questão é o momento político escolhido pelo prefeito para isso — criticou o vereador Dr. Rogério Amorim (Novo). Osmar Lima, secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, rebate: — Se o pedido de autorização fosse para vender umas poucas unidades, isso na certa poderia ser interpretado como interesse de fazer caixa, arrecadar. O que o projeto propõe é dar flexibilidade para futuras negociações não apenas com o setor privado, mas com outras esferas de governos que eventualmente possam estar interessados em permutar imóveis — justificou. O projeto de lei que pede autorização para vender patrimônio público inclui até a sede da Defesa Civil municipal, em Vila Isabel Júlia Aguiar/Agência O Globo Outro argumento da oposição é que, após outras transações realizadas nos últimos anos, a prefeitura passou a gastar com a locação de imóveis. O município, por sua vez, argumenta que precisa ocupar menos espaços para reduzir as despesas com manutenção de prédios. Entre os inquilinos privados ouvidos pelo GLOBO, todos souberam da notícia pela reportagem. Há todo tipo de situação. Na Rua Júlio do Carmo, na Cidade Nova, por exemplo, um dos imóveis que aparecem na lista é o que abriga a sede da Operadora Nacional do Sistema Elétrico (ONS). O prédio foi construído por investidores privados em uma negociação em 2010 com a prefeitura, dona do terreno. O órgão respondeu apenas que mantém um contrato de locação ‘‘a longo prazo’’. Os atuais ocupantes dos imóveis teriam prioridade na compra. Plínio Fróes, que alugou um sobrado na Rua do Lavradio para expandir o bar Mangue Seco, diz que paga R$ 11,1 mil por mês e que, se a venda for adiante, a tendência é entregar o imóvel. Posição semelhante tem Eduardo Bettamio, dono do Leviano Bar, na Avenida Mem de Sá, na Lapa. Casa de Bidu Sayão, na Praça Tiradentes, incluída na lista de imóveis previstos para venda pela Prefeitura do Rio Márcia Foletto — Acabo de renovar o contrato, e ninguém falou nada sobre isso. Quando cheguei aqui em 2022, a Lapa gerava muito mais receita. Cheguei a ter 25 funcionários, hoje são oito. Comprar o ponto pode ser difícil — diz. Ali perto, na Rua da Lapa, funciona o projeto social Gastromotiva, que fornece comida à população de rua. A cessão da área é gratuita, e o contrato termina este ano. Os responsáveis lembram que a iniciativa foi implementada como um legado social da Olimpíada de 2016. Mais parcelas O projeto de lei também prevê regras mais favoráveis para a venda de imóveis em leilões. Hoje, isso é possível apenas à vista (com desconto arbitrado pelo poder público) ou em 12 parcelas mensais. Com a mudança, os imóveis poderão ser negociados em até 36 meses. As novas regras valerão não apenas para a nova lista de 324 endereços, mas também para outros 49 imóveis cuja autorização para oferecer ao mercado o município já tinha desde novembro de 2024. Nessa relação mais antiga estão a sede da atual Subprefeitura da Barra e Jacarepaguá (na Avenida Ayrton Senna) e o prédio que foi ocupado pela Guarda Municipal em Botafogo, na Zona Sul. Mas as tentativas de venda foram malsucedidas. — A divisão em 36 parcelas vai tornar esses imóveis mais atraentes para investidores. Geralmente esse é o prazo com que o mercado trabalha em negócios semelhantes com particulares — explica o presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário (Ademi), Leonardo Mesquita. Um cortiço de 120 anos na lista Um dos bens que chamam a atenção na lista fica na Rua Senador Pompeu 34. Ele foi construído há mais de 120 anos e é considerado um dos primeiros cortiços do Brasil. O imóvel foi restaurado pelo município nos anos 1990 e transformado em projeto de moradia popular. A seleção contempla também imóveis com projetos recém implantados. Um deles fica num sobrado na Praça Tiradentes 48, onde a cantora lírica Bidu Sayão (1902-1999) morou na infância. A casa foi comprada e restaurada pela prefeitura há 15 anos. Em junho de 2025 , como parte da agenda da COP 30, a Secretaria municipal do Meio Ambiente instalou ali a Casa Clima, voltada para seminários sobre energia limpa e outros temas. O local vem sendo utilizado frequentemente por ambientalistas. Na Praça da República 195, há um posto da Secretaria municipal do Trabalho e Renda. Ali, a prefeitura firmou parceria com o Sebrae para manter cursos de empreendedorismo em 2025. Na Rua Senhor dos Passos 50, funciona, desde 2021, um posto da Secretaria municipal de Habitação.