Ao aceitar interpretar Alexandre Nardoni na série "Tremembé", da Prime Video, Lucas Oradovschi entrou em um dos territórios mais delicados do audiovisual brasileiro recente. Condenado pelo assassinato da própria filha, Isabella, em 2008, o caso permanece associado a um trauma coletivo que atravessa gerações. Levar esse personagem à cena exigiu mais do que técnica: demandou preparo emocional, rigor ético e uma investigação profunda sobre os limites da representação. Conheça Letícia Rodrigues, atriz que roubou a cena em série do streaming no papel da ex-presidiária namorada de Suzane Von Richthofen Entrevista: 'Minha Suzane é extremamente fria e manipuladora', diz Marina Ruy Barbosa Carol Garcia fala sobre empoderamento, streaming e personagens complexas: 'A arte exige entrega, curiosidade e coragem' Formado em Artes Cênicas pela UNIRIO e mestre em Artes da Cena pela UFRJ, Lucas construiu uma trajetória sólida no teatro antes de se consolidar também no audiovisual, com passagens por novelas, séries e streaming. Ainda assim, "Tremembé" se impôs como um divisor de águas em sua carreira. "Tremembé foi até aqui o meu maior desafio como ator, sem dúvida. Me exigiu em muitos sentidos. Interpretar o Alexandre Nardoni, envolvido em um crime que tanto marcou o imaginário de toda nação, é um trabalho que requer muita dedicação, muito cuidado e responsabilidade", conta ao GLOBO. O ator explica que, para sustentar um mergulho tão intenso sem se deixar consumir, recorreu a práticas constantes de autocuidado. "Eu hoje sou uma pessoa que priorizo em minha vida os processos pessoais de autocuidado. Cuidados com meu corpo, com minha alimentação, com minha mente, meu psicológico, emocional e espiritual", diz. Ainda assim, o envolvimento foi total: "É uma característica minha mergulhar de cabeça em meus trabalhos, fico obsessivo, estudando tudo que posso, me preparando, pensando 24 horas por dia." Lucas Oradovschi reflete sobre ética, humanidade e os desafios de papéis extremos Divulgação Jorge Bispo A preparação para "Tremembé" encontrou eco em experiências anteriores. Pouco antes da série, Lucas passou meses dedicado ao monólogo "Um pássaro não é uma pedra", projeto autoral que atravessa contextos de guerra e violência. "De alguma maneira esse trabalho já vinha me preparando e me ajudando a criar maturidade também para o que estava por vir em Tremembé", relata. Construir Alexandre Nardoni, no entanto, significou lidar com lacunas quase insolúveis. "A história desse crime e de sua vida tem muitas lacunas, muitos enigmas. É incompreensível, é impossível seguir uma lógica que explique esse crime", afirma. Com pouco material disponível — basicamente a entrevista concedida ao "Fantástico" —, Lucas precisou recorrer à ficção como ferramenta de acesso à complexidade humana: "Era preciso criar os caminhos internos para que eu pudesse encontrar camadas diversas, que é o que nos torna seres complexos, contraditórios e, em muitos casos, capazes até de ações monstruosas." O processo exigiu também a suspensão do julgamento moral, algo que o ator reconhece como um exercício desconfortável, porém necessário. "Neutralizar meus julgamentos sobre esse personagem e encarar a dor de perceber que nós humanos somos, sim, capazes de cometer os atos horrorosos e incompreensíveis", observa. Segundo ele, esse mergulho só é possível com maturidade técnica e emocional. "Meus quase trinta anos de carreira e toda a bagagem técnica que trago, minha maturidade hoje me amparam para que eu possa fazer esse mergulho nos abismos da psique e retornar", destaca. Lucas Oradovschi fala sobre o impacto psicológico de mergulhar em personagens controversos Divulgação Jorge Bispo Mais do que um desafio artístico, a experiência provocou reflexões profundas. "É uma conversa delicada e sensível, principalmente porque vivemos um momento de um país extremamente moralista", pontua. Para Lucas, a tendência de projetar o horror sempre no outro é perigosa. "A violência, a agressividade, a irracionalidade, a brutalidade — são impulsos, são instintos primários humanos", aponta. Ele alerta que negar essas sombras não elimina sua existência e reforça mecanismos perigosos de exclusão: "Essa operação, de cindir e transferir, é a mesma operação que cria e justifica todos os discursos de ódio. É uma lógica perigosa." Ao lidar com uma figura real envolvida em um crime tão brutal, a responsabilidade ética esteve no centro das decisões. Lucas ressalta que a série foi construída coletivamente para não banalizar a dor das vítimas. "Eu sempre me mantive atento a essa linha tênue entre mostrar a humanidade e não criar um personagem carismático, um personagem que pudesse seduzir, comover o espectador, que não relativizasse sua responsabilidade", comenta. O artista reforça que o cuidado esteve presente também na linguagem adotada. "As cenas mais sensíveis são sempre o ponto de vista das vítimas. Isso é tudo pensado e escolhido de modo que não se exponha as pessoas que foram vítimas. São escolhas políticas", acrescenta. Lucas Oradovschi discute o papel da arte ao retratar histórias reais e dolorosas Divulgação Jorge Bispo O impacto do papel segue reverberando em sua trajetória. "Com certeza eu carrego muitos ensinamentos desse processo", revela. Para dar conta do desafio, Lucas buscou referências fora do campo artístico. "Me fizeram buscar ajuda, ampliar minha pesquisa técnica tanto sobre o ofício do ator, como buscar e me alimentar de referências teóricas de outros campos de conhecimento, como da psicologia, do direito, da filosofia", detalha. O futuro aponta para múltiplas direções. Embora o teatro siga como base de sua linguagem criativa, o ator se mostra cada vez mais interessado no audiovisual. "Venho tomando muito gosto pela linguagem do audiovisual, cada vez mais", entrega. No horizonte imediato, o foco está na circulação do monólogo "Um pássaro não é uma pedra" pelo Brasil e pela América Latina, além da preparação para a segunda temporada de "Tremembé". Lucas também não esconde os desejos que atravessam fronteiras. Admirador do cinema latino-americano, cita nomes como Juan José Campanella, Lucrecia Martel, Alfonso Cuarón e Guillermo del Toro. "Sou completamente fascinado pelo cinema do Yorgos Lanthimo", completa, sem deixar de mencionar o sonho quase infantil de atuar em produções épicas: "Poder exercitar meu ofício em outros países, em diferentes contextos culturais e em outros idiomas seria um desafio artístico enorme e muito estimulante."