Da “taxa das blusinhas” à valorização do feito no Brasil: tendências para sustentabilidade na moda em 2026

O ano de 2025 se encerrou com o Brasil no centro do debate climático global, marcado pela realização da COP30 e pela consolidação da pauta ambiental como eixo estratégico para os próximos anos. Diante desse cenário, torna-se inevitável incluir a moda, setor responsável por até 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, nas discussões sobre caminhos concretos para o enfrentamento da crise climática. A moda é uma indústria movida pelo desejo, mas seu impacto vai muito além do simbólico. Trata-se de uma força econômica relevante, geradora de milhões de empregos, que articula cultura, território, inovação e desenvolvimento. Justamente por isso, não pode se eximir da responsabilidade de rever seus modelos produtivos e de consumo. Se antes as marcas trabalhavam com quatro coleções anuais, geralmente uma por estação, hoje plataformas digitais de ultra fast fashion chegam a lançar até 10 mil novos produtos por dia. Essa lógica intensifica a ideia de novidade constante, estimula o consumo impulsivo e consolida um modelo baseado na velocidade extrema. Na contramão de propostas como o slow fashion, criado pela pesquisadora Kate Fletcher na Inglaterra em 2007 baseada no movimento italiano slow-food, que valorizam o tempo, a qualidade e os processos por trás das roupas, a produção ultra rápida não apenas compromete a transparência das cadeias produtivas, como agrava um dos problemas mais críticos do setor: o descarte têxtil. Peças criadas para atender a um desejo imediato raramente são pensadas de forma circular. O pós-uso, na maioria das vezes, não é considerado no processo criativo, fazendo com que essas roupas tenham como destino final aterros sanitários, lixões ou descartes irregulares. Esse descarte inadequado gera impactos urbanos significativos, inclusive de saúde pública, afetando sobretudo territórios já vulnerabilizados e intensificando a crise climática. Mesmo quando produzidas com matérias-primas biodegradáveis ou recicláveis, os sistemas de coleta, triagem e reciclagem existentes são insuficientes para lidar com o volume massivo de roupas colocadas no mercado todos os dias. Mercado de Kantamanto, em Gana Getty Images Em Gana, por exemplo, o mercado de Kantamanto recebe diariamente milhões de peças de roupas descartadas, provenientes principalmente de países do Norte Global. Esse fluxo massivo de resíduos têxteis afeta profundamente a economia e a cultura local. O problema se estende para outros países, inclusive o Brasil, que enfrenta a falta de soluções adequadas para lidar com o grande volume de peças descartadas. As plataformas internacionais de e-commerce, os chamados cross borders, em sua maioria asiáticos, frequentemente se apresentam como promotoras de democratização do acesso à moda, atendendo diferentes corpos e classes sociais. No entanto, essa narrativa não se sustenta quando analisamos seus impactos estruturais. Segundo Edmundo Lima, diretor executivo da ABVTEX, essas plataformas promovem uma concorrência desleal com a indústria e o varejo nacional, colocando em risco mais de 2 milhões de empregos no Brasil. A assimetria se dá tanto no campo tributário quanto no regulatório. Edmundo explica que enquanto o varejo nacional arca com uma carga tributária próxima de 90%, empresas cross border pagam em torno de 45%, já incluída neste percentual a chamada “taxa das blusinhas”, o imposto de importação. Além disso, produtos importados por essas plataformas chegam diretamente à casa dos consumidores sem passar pelas mesmas fiscalizações exigidas das empresas brasileiras. Órgãos como Anvisa, Inmetro e Anatel, que atuam de forma rigorosa sobre o varejo nacional, não exercem o mesmo controle sobre esses produtos. Isso significa que produtos importados pelos sites internacionais de e-commerce, além de ludibriar o comprador com a enorme quantidade de falsificações, podem comprometer a saúde e a segurança dos consumidores e provocar danos ao meio ambiente. Não é possível falar em sustentabilidade sem olhar, antes de tudo, para o local. Embora o pensamento deva ser global, as estratégias precisam promover desenvolvimento no território, fortalecendo culturas, cadeias produtivas nacionais, trabalho decente e economias locais. Gigante em biodiversidade, o Brasil reúne enormes oportunidades nesse sentido. Durante a COP30, ganhou destaque a importância da sociobioeconomia como ferramenta para o enfrentamento do desmatamento e para o fortalecimento de comunidades tradicionais. No entanto, para que marcas e projetos nacionais consigam atuar em parcerias estruturadas, é fundamental a existência de políticas públicas de apoio e uma articulação efetiva entre os diferentes atores do setor. Como reforça Edmundo Lima, assegurar isonomia tributária e regulatória entre produtos nacionais e importados é um ponto decisivo para o futuro da moda no país. “ A agenda regulatória em curso, incluindo medidas como a chamada ‘taxa das blusinhas’, não deve ser compreendida apenas como uma questão fiscal, mas como um instrumento estratégico para reduzir as assimetrias competitivas entre o varejo nacional e as plataformas internacionais, aumentar a arrecadação e fortalecer a economia brasileira, garantir equilíbrio competitivo para quem produz, emprega e investe no país, reforçar a segurança jurídica e a previsibilidade em toda a cadeia produtiva, além de proteger o consumidor, a saúde pública e o meio ambiente, estimulando um ambiente de negócios mais transparente e sustentável”. Enquanto a lógica de produção e consumo se acelera, a indústria nacional, dos pequenos aos grandes negócios, enfrenta crescentes desafios para se manter ativa e, ao mesmo tempo, responder às expectativas de democratização do acesso criadas por esse novo formato de compra. Diante desse cenário, torna-se fundamental um trabalho conjunto entre marcas, entidades setoriais e poder público para preservar a produção local e articular estratégias robustas de fortalecimento do setor. Ao mesmo tempo em que se espera das empresas compromissos claros com agendas de ESG e sustentabilidade, é igualmente necessário ampliar o entendimento da sociedade civil sobre os impactos estruturais desse modelo de consumo. Sem transferir a responsabilidade individualmente para os consumidores, é preciso reconhecer que mudanças duradouras exigem informação, regulação adequada e ações sistêmicas capazes de alinhar acesso, justiça social e responsabilidade ambiental. 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