Pela primeira vez, cientistas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT, na sigla em inglês), nos Estados Unidos, conseguiram sintetizar um composto fúngico chamado de verticilina A, descoberto há mais de 50 anos e que demonstrou potencial para tratar o câncer no cérebro, um dos mais letais que existe. Segundo os pesquisadores, em testes com células cancerígenas humanas, um dos derivados da verticilina A se mostrou particularmente promissor contra um tipo de câncer cerebral pediátrico chamado glioma difuso da linha média. Mais testes são necessários para avaliar esse potencial entre os pacientes na prática, algo que será possível com o novo feito. "Agora temos a tecnologia que nos permite não apenas acessá-los pela primeira vez, mais de 50 anos após terem sido isolados, mas também criar muitas variantes projetadas, o que pode possibilitar estudos detalhados adicionais”, celebra Mohammad Movassaghi, professor de química no MIT e autor do estudo, em comunicado. O trabalho que detalha a síntese do composto foi publicado na revista científica Journal of the American Chemical Society. Os cientistas contam que, quando foi isolada pela primeira vez de fungos, em 1970, a verticilina A já despertou interesse pela potencial atividade anticancerígena, mas os planos de explorar esse caminho foram adiados pela complexidade de sintetizá-la. Em 2009, porém, houve um avanço significativo: a equipe de Movassaghi conseguiu criar a (+)-11,11'-dideoxiverticilina A, um composto fúngico semelhante. Ainda assim, embora a diferença entre as duas substâncias seja apenas a presença de dois átomos de oxigênio, a síntese da verticilina A continuou sendo um desafio, explica o pesquisador: "Esses dois oxigênios limitam enormemente a janela de oportunidade que você tem em termos de transformações químicas. Isso torna o composto muito mais frágil, muito mais sensível, de modo que, embora tivéssemos tido anos de avanços metodológicos, o composto continuou a representar um desafio para nós”. Com o passar dos anos, eles descobriram que o momento em que era realizada uma das etapas necessárias, a dimerização, poderia ser a resposta. O processo envolve unir dois fragmentos idênticos para formar uma única molécula chamada dímero. Geralmente, isso é feito no final da síntese. "O que aprendemos foi que o cronograma dos eventos é absolutamente crítico. Tivemos que mudar significativamente a ordem dos eventos de formação de ligações", explica o especialista. Por isso, eles desenvolveram uma nova forma de realizar esse procedimento exclusivamente para criar a verticilina A. A logística complexa deu certo, e os cientistas conseguiram finalmente construir a molécula final em laboratório. Com isso, eles também puderam ajustá-la para gerar derivados, em especial aqueles que demonstraram potencial anticâncer. Pesquisadores do Instituto para Câncer Dana-Farber, nos EUA, que também participaram do estudo, testaram, então, esses compostos contra vários tipos de glioma difuso da linha média, tumor cerebral que possui poucas opções de tratamento. Eles descobriram quais células cancerígenas eram mais vulneráveis, sugerindo qual tipo de paciente poderá se beneficiar no futuro. "Identificar os alvos potenciais desses compostos desempenhará um papel crítico na compreensão adicional de seu mecanismo de ação e, mais importante, ajudará a otimizar os compostos do laboratório Movassaghi para que sejam mais específicos ao alvo no desenvolvimento de novas terapias", diz Jun Qi, professor no Dana-Farber e na Escola de Medicina de Harvard, autor do trabalho. Eles também identificaram quais eram os derivados da verticilina A com maior potencial: (+)-11,11'-dideoxiverticilina A N-sulfonilada e a verticilina A N-sulfonilada. Movassaghi explica que “o produto natural em si não é o mais potente, mas foi a síntese do produto natural que nos trouxe a um ponto onde podemos fabricar esses derivados e estudá-los". Agora, a equipe do Dana-Farber trabalha na validação adicional do mecanismo de ação dos compostos e espera começar em breve testes em modelos animais de câncer cerebral pediátrico, a primeira etapa dos estudos pré-clínicos de um novo tratamento. "Compostos naturais têm sido recursos valiosos para a descoberta de medicamentos, e avaliaremos totalmente o potencial terapêutico dessas moléculas integrando nossa experiência em química, biologia química, biologia do câncer e atendimento ao paciente", afirma Qi.