Closet cheio, endividamento silencioso: quando o consumo de imagem pressiona as finanças pessoais

Roupas novas, sapatos pouco usados, acessórios ainda com etiqueta. A cena é comum em muitos guarda-roupas, mas nem sempre reflete organização financeira. Especialistas em comportamento de consumo e finanças pessoais vêm chamando atenção para um fenômeno silencioso: o endividamento associado a gastos recorrentes com imagem, especialmente quando não há planejamento ou estratégia por trás dessas escolhas.  O tema não se resume a vaidade ou consumo impulsivo. Ele está ligado a fatores culturais, sociais e profissionais que impactam de forma desigual homens e mulheres. Em ambientes corporativos e sociais, a aparência feminina costuma ser mais observada, comentada e cobrada, o que cria uma pressão constante por renovação de vestuário e adequação estética.  Esse tipo de gasto, quando pulverizado em pequenas compras frequentes, tende a passar despercebido no orçamento mensal. Parcelamentos curtos, uso recorrente do cartão de crédito e compras justificadas como necessidade profissional contribuem para que o impacto financeiro só seja percebido quando o endividamento já está instalado.  Segundo a economista e consultora de imagem Alessandra Azevedo, o problema não está no investimento em imagem, mas na falta de estratégia. “Quando o ato de se vestir não está conectado aos objetivos em geral, ele deixa de ser uma ferramenta de comunicação e passa a competir diretamente com a construção de segurança financeira”, afirma.  Outro fator relevante é o uso da imagem como mecanismo de pertencimento e validação social. Redes sociais, ambientes profissionais competitivos e padrões estéticos amplamente difundidos reforçam a percepção de que repetir roupas ou reduzir o consumo pode gerar julgamentos, o que alimenta ciclos de gasto pouco conscientes.  O impacto vai além do orçamento. A pressão financeira associada a esse tipo de consumo pode gerar ansiedade, sensação de culpa e dificuldade de reorganização financeira, criando um ciclo difícil de romper.  Especialistas defendem que a discussão precisa sair do campo moral e avançar para o campo da educação financeira e da estratégia pessoal. Planejar o consumo de imagem, definir prioridades e alinhar gastos à realidade financeira são passos fundamentais para transformar o closet em um recurso funcional, e não em um passivo silencioso.