Pela 1ª vez desde a Segunda Guerra, líderes europeus admitem risco de conflito entre aliados da Otan

Europeus discutem plano contra ameaças de Trump à Groenlândia As ameaças de Donald Trump sobre a Groenlândia puseram a Europa diante de um desafio histórico. Pela primeira vez desde o fim da Segunda Guerra Mundial, líderes europeus admitem abertamente a possibilidade de um conflito entre aliados da Otan. A França confirmou que trabalha com Alemanha e Polônia num plano de resposta caso os Estados Unidos avancem militarmente sobre a Groenlândia. O chanceler francês, Jean-Noël Barrot, disse que qualquer ação precisa ser coordenada, coletiva e europeia. No parlamento dinamarquês, a deputada da Groenlandia Aaja Chemnitz, disse que o território não está à venda. E, segundo ela, tratar a ilha como ativo geopolítico ignora a vontade de seu povo. Numa rede social, Trump fez críticas à Otan, mas disse sempre apoiará a aliança militar. Em Washington, o secretário de estado, Marco Rubio, afirmou que todo presidente mantém a opção militar diante de ameaças à segurança nacional, ainda que defenda soluções diplomáticas. Rubio confirmou que vai se reunir com autoridades dinamarquesas. A porta-voz da casa branca, Karoline Leavitt, confirmou que a equipe de Trump está discutindo como adquirir a Groenlândia. E lembrou que esse é um interesse antigo dos Estados Unidos, desde o século 19. Já em 1867, no mesmo ano em que comprou o Alasca da Rússia, os Estados Unidos avaliaram a possibilidade de adquirir a Groenlândia. Durante a Segunda Guerra Mundial, com a ocupação da Dinamarca pela Alemanha nazista, os Estados Unidos instalaram bases militares na ilha, para impedir o avanço alemão no Atlântico Norte. Depois da guerra os Estados Unidos fizeram uma nova oferta para comprar a Groenlândia por 100 milhões de dólares. Copenhague recusou. Mas em 1951, Estados Unidos e Dinamarca assinaram um tratado que permitiu a presença militar americana permanente na ilha, para alertar contra mísseis passando sobre o polo norte. Esse acordo depende da permanência tanto dos Estados Unidos quanto da Dinamarca na Otan. E a segurança nacional foi o principal argumento usado por Donald Trump para retomar o interesse americano na ilha. Neil Melvin, diretor de segurança internacional do Royal United Services Institute, em Londres, diz que tanto as questões de segurança quanto o interesse nos recursos naturais poderiam ser resolvidos facilmente. Para ele, a principal motivação é mostrar que os Estados Unidos continuam a crescer, no ano em que comemoram os 250 anos de independência. É uma questão do legado político de Trump. Mas para Neil Melvin, essa união está sob risco, e uma intervenção americana na Groenlândia poderia provocar um racha na Otan e na Europa. "Há muitos interesses contraditórios no continente, e Trump entende isso. Ele tem muitas cartas para jogar, enquanto a mão dos europeus é mais fraca", diz ele. O presidente do Conselho da Europa, Antônio Costa reafirmou o compromisso da União Europeia com a soberania da Dinamarca e da Groenlândia. E disse que a Europa permanece inabalável na defesa das leis internacionais e do multilateralismo. A crise acontece num momento em que os europeus discutem outra questão que divide o continente: o acordo de livre comércio com o Mercosul. Nesta quarta-feira (7), ministros da agricultura europeus se reuniram em Bruxelas, e a expectativa é que o acordo seja anunciado na sexta-feira (9). De um lado, os que consideram a parceria uma forma de enfrentar o tarifaço imposto por Donald Trump aos produtos europeus. Do outro, governos que querem adotar medidas protecionistas no setor agrícola. Nesta terça-feira (6), essa balança pendeu mais a favor do acordo, depois que a primeira-ministra da Itália anunciou que vai apoiar a assinatura. E a França de Emmanuel Macron ficou mais isolada. Nesta quarta-feira (7), um editorial do jornal francês Le Monde disse que Macron levou a França a fazer uma aposta diplomática errada num momento decisivo para a Europa.