Venezuelana que migrou para o Recife relata medo e incerteza em Caracas após bombardeios A venezuelana Zuleika Matamoros mora no Recife desde 2022, quando deixou a Venezuela empurrada pela crise econômica e política. Professora da rede pública por muitos anos, ela não conseguiu atuar formalmente na área em Pernambuco por dificuldades na validação do diploma e passou a trabalhar com artesanato e pequenos empreendimentos de alimentos. Há poucos meses, voltou a Caracas para resolver pendências familiares e documentais. Agora, está no meio de um cenário que descreve como sendo de medo, incerteza e clima de tensão após os bombardeios e a deposição do presidente Nicolás Maduro, capturado pelos Estados Unidos no sábado (3) com sua esposa, Cilia Flores. ✅ Receba no WhatsApp as notícias do g1 PE Zuleika mora em 23 de Enero, comunidade localizada no Município Bolivariano Libertador, único município do Distrito Capital da Venezuela. O bairro é um dos mais emblemáticos de Caracas, com histórico de mobilização popular e conhecido também por abrigar os restos mortais do ex-presidente Hugo Chávez. Foi também, segundo ela, uma das áreas atingidas pelos bombardeios. Desde então, de acordo com a venezuelana, o cenário é de medo e apatia. Ela descreve uma cidade tomada por forças armadas e grupos armados populares. “Jogaram uma bomba perto de onde a gente está. Estou na capital, que foi onde jogaram mais bombas. O medo se sente. [...] Está tudo muito militarizado. Tem milícias com metralhadora em todo canto. Você pensa: parece que é contra a gente, não contra os gringos. As pessoas ficam com a sensação de que tudo pode ser bombardeado de novo”, afirma. Ela contou que pretendia voltar para o Brasil assim que tivesse organizado as pendências que tinha, mas, com os bombardeios, os planos mudaram. Com medo de novos ataques e da instabilidade política, ela diz que sairia do país na primeira oportunidade. Para ela, o cenário pode provocar um novo fluxo migratório. “Eu vim há poucos meses para fazer documentação, diplomas, apostila. Um problema familiar me trouxe de volta e eu estou aqui, na minha casa, mas sou residente brasileira. [...] Queria arrumar tudo antes de voltar, mas agora, com essa situação, deixo tudo para lá. Se fosse por mim, eu iria embora hoje. Mas nem todos podem. Tem famílias que vão ficar”, diz. Bombardeios dos EUA na Venezuela Reprodução/WhatsApp Três anos no Brasil A decisão de deixar a Venezuela, anos atrás, veio da perda de condições mínimas de vida. “Em 2022, eu deixei a escola pública onde trabalhava havia muitos anos. O salário ficou praticamente eliminado. Perdi tudo que acumulei para uma aposentadoria decente. Aqui não tem salário, é muito baixo”, diz. “São as consequências que a gente sofre no corpo da crise". Politicamente, Zuleika se define como alguém que sempre apoiou a Revolução Bolivariana, de 1999, que levou Hugo Chávez à Presidência e defendia soberania nacional, justiça social e integração latino-americana. Entretanto, ela conta que não se sente representada pelo governo Maduro. Sua saída do país, inclusive, não se deve apenas ao aspecto econômico. Tem a ver, também, com a falta de referentes políticos no país. “Não sou arrependida de ter apoiado, mas ele [Maduro] não fez o que a gente esperava. As crises que teve que administrar, jogou nas costas do trabalhador. Foi muito autoritário, inabilitou candidatos e partidos, e até a esquerda que faz oposição ficou diminuída. Eu, por exemplo, sou desse setor”, conta. Apesar de crítica ao governo Maduro, Zuleika diz não se sentir representada pela oposição e por sua líder, María Corina Machado, principal opositora do regime, que ganhou o Prêmio Nobel da Paz 2025. “É um projeto que pede ingerência estrangeira, que fala em privatizar tudo. Não é uma alternativa para os trabalhadores. Não me sinto representada”, diz. Após os bombardeios, Zuleika defende que a saída para o país deveria passar por um processo democrático. “Eu pensava que devia ter um referendo, para saber se deve haver novas eleições. Quem decide o presidente somos nós, não os Estados Unidos”, declara. Segundo ela, a população vive sem garantias. “Estamos ameaçados de bombardeio, sem garantias constitucionais, sem dinheiro para comprar comida, com o custo de vida subindo todo dia. Quem sofre somos nós”, lamenta. Mesmo sem saber quando ou como poderá sair novamente, Zuleika resume o sentimento que diz ver ao redor. “As pessoas estão pressionadas a voltar a uma ‘normalidade’, mas qual normalidade? A gente vive na incerteza”, diz. No Brasil, apesar de ter encontrado mais perspectivas, ela afirma que também enfrenta obstáculos. A filha dela vive no Sul do país desde 2018, mas elas não conseguiram morar juntas. “Sou professora, trabalho com cultura tradicional, tenho experiência em várias coisas. Mas, como migrante, o diploma não é fácil de validar. Muita coisa trava”, conta. Zuleika Matamoros é venezuelana e mora no Recife desde 2022 Reprodução/WhatsApp VÍDEOS: mais vistos de Pernambuco nos últimos 7 dias