Terremotos no fundo do oceano podem impulsionar explosões de vida microscópica na Antártida

O que terremotos escondidos sob quilômetros de água gelada têm a ver com o oxigênio que respiramos? Uma pesquisa publicada em dezembro na revista Nature Geoscience revela que tremores registrados no fundo do Oceano Antártico podem desencadear grandes florações de fitoplâncton na superfície meses depois, conectando movimentos da crosta terrestre à saúde dos oceanos e ao clima do planeta. Lagos sob gelo fino podem ter mantido água líquida em Marte frio, sugere estudo O estudo, liderado por pesquisadores da Universidade de Stanford, mostra que a atividade sísmica próxima à Dorsal Meso-Sul da Antártica durante o inverno influencia diretamente a intensidade das florações de fitoplâncton no verão seguinte. Esses organismos microscópicos são a base da cadeia alimentar marinha e desempenham papel central na absorção de dióxido de carbono da atmosfera, além de contribuírem para a produção de oxigênio. Segundo os cientistas Casey Schine e Kevin Arrigo, da Escola de Sustentabilidade Doerr, o principal fator que determina o tamanho dessas florações é o número de terremotos ocorridos nos meses anteriores ao período de crescimento. A conclusão veio após a análise de imagens de satélite e registros sísmicos entre 1997 e 2024. Em anos com tremores de magnitude cinco ou superior, as florações atingiram proporções excepcionais — em 2014, cobriram cerca de 266 mil quilômetros quadrados, área comparável à da Nova Zelândia. A explicação está no fundo do mar. Os terremotos abrem fissuras em fontes hidrotermais localizadas a cerca de 1.800 metros de profundidade, permitindo a liberação de fluidos ricos em ferro e outros nutrientes. Como o ferro é escasso no Oceano Antártico e limita o crescimento do fitoplâncton, esse aporte extra funciona como um gatilho para a explosão de vida microscópica. Até então, acreditava-se que esses nutrientes levariam décadas para alcançar a superfície. O estudo, porém, indica que o transporte pode ocorrer em semanas ou meses, desafiando modelos tradicionais sobre a circulação oceânica. Jens-Erik Lund Snee, sismólogo e coautor da pesquisa, confirmou a correlação entre terremotos e aumento da produtividade biológica, enquanto Joseph Resing, da Universidade de Washington, destacou que os dados reforçam o papel da atividade sísmica na intensificação das fontes hidrotermais. Os efeitos vão além do microscópico. As florações alimentam o krill e pequenos crustáceos, base da dieta de baleias, focas e pinguins. Schine lembra que já foi documentado que baleias-jubarte se concentram nessas áreas logo após grandes terremotos, evidenciando como um evento geológico pode repercutir por toda a cadeia alimentar. Ao capturar carbono, o fitoplâncton também ajuda a mitigar as mudanças climáticas. Arrigo afirma que compreender esses mecanismos pode levar a previsões mais precisas sobre quanto carbono os oceanos são capazes de absorver. Se o aporte de ferro for tão rápido quanto o observado, os modelos atuais podem estar subestimando o papel do Oceano Antártico na regulação do clima. Embora a pesquisa tenha foco em uma região específica, especialistas apontam que processos semelhantes podem ocorrer em outras áreas com intensa atividade sísmica, como o Anel de Fogo do Pacífico. Em artigo na revista Science, a pesquisadora Sophie Bonnet alertou que o impacto global ainda é incerto, dada a dificuldade de estudar essas zonas remotas. Novas expedições científicas, como a realizada em dezembro de 2024, buscam ampliar esse entendimento e mapear como tremores no fundo do mar podem influenciar a vida — e o clima — na superfície do planeta.