O que são, afinal, os enigmáticos pontos vermelhos que surgem nas imagens mais profundas do universo? Uma nova análise baseada em observações do Telescópio Espacial James Webb (JWST) indica que essas fontes compactas e extremamente luminosas podem representar um estágio decisivo na formação dos primeiros buracos negros supermassivos. O estudo foi apresentado por astrônomos do Centro de Astrofísica Harvard & Smithsonian (CfA) durante a 247ª reunião da Sociedade Astronômica Americana, em Phoenix, e publicado no servidor arXiv no fim de dezembro. Telescópio Hubble detecta 'galáxia fracassada' e revela nuvem sem estrelas dominada por matéria escura Minhocas-zumbi 'devoradoras de ossos' somem do fundo do mar e acendem alerta entre cientistas Conhecidos como Pequenos Pontos Vermelhos, esses objetos estão entre os mais distantes já detectados. Observados inicialmente pelo telescópio Hubble, surgiam apenas como manchas avermelhadas no limite do universo observável, resultado da expansão do cosmos, que estica a luz para comprimentos de onda mais longos. Essa característica dificultava a identificação de sua natureza física. Da dúvida ao modelo físico A virada ocorreu com as primeiras “imagens profundas” do Webb, em 2022. Sensível ao infravermelho, o telescópio permitiu observar esses pontos com muito mais nitidez, reacendendo o debate sobre sua origem. Hipóteses iniciais envolviam cenários complexos, como buracos negros cercados por discos de acreção e nuvens densas de poeira. O novo estudo, liderado por Devesh Nandal, astrônomo do CfA, propõe uma explicação mais direta. Pela primeira vez, os pesquisadores desenvolveram um modelo físico detalhado de uma estrela supermassiva rara, pobre em metais, com crescimento rápido e massa cerca de um milhão de vezes superior à do Sol. As características previstas — luminosidade extrema, espectro em formato de “V” e emissão incomum de hidrogênio — coincidem com as observadas nos Pequenos Pontos Vermelhos pelo Webb. Segundo Nandal, a identidade desses objetos tem sido motivo de controvérsia desde a descoberta. “Os pequenos pontos vermelhos têm sido fonte de debate intenso”, afirmou. Para ele, os novos modelos indicam que há “uma única estrela gigantesca envolta em uma fina camada”, capaz de explicar de forma consistente os dados obtidos pelo JWST. A análise espectral sugere que apenas as estrelas mais massivas atingem o brilho necessário para corresponder às observações atuais. O grupo avalia que, caso futuras campanhas identifiquem pontos menos luminosos e menos massivos, será possível compreender melhor como esses objetos se formam e evoluem. Mais do que resolver um mistério observacional, o estudo abre uma janela inédita para os primórdios do cosmos. “Se nossa interpretação estiver correta, não estamos apenas inferindo a existência das sementes dos buracos negros massivos. Estamos observando o nascimento de algumas delas em tempo real”, disse Nandal. No artigo, os autores destacam que a rápida formação dos primeiros buracos negros supermassivos exige núcleos muito pesados, sendo as estrelas supermassivas seus principais progenitores teóricos. Os cientistas esperam que os resultados apresentados pela equipe do CfA sirvam de base para novas observações com o Webb e outros instrumentos, permitindo identificar variantes desses objetos e avançar na compreensão dos processos físicos que deram origem aos primeiros buracos negros e às galáxias no início do universo.