'Mamãe, o que acontece quando morremos?': como falar sobre a morte com os pequenos

"Mamãe, o que acontece quando morremos?". Poucas perguntas fazem o coração de um adulto parar como essa. Não apenas porque muitas vezes não sabemos o que dizer, mas porque falar sobre a morte ainda é, mesmo hoje, um terreno cheio de medos, silêncios herdados e emoções que preferimos não enfrentar. Prevenção: Dançar é associado a risco 76% menor de demência em novo estudo Alzheimer: Anvisa aprova novo medicamento para fase inicial da doença Apesar de ser um tema que faz parte natural da vida, culturalmente aprendemos a enxergá-lo como algo doloroso e angustiante, afirmou a psicóloga Gabriela Cossi, da Clínica Internacional a Hogar y Familia. Desde gerações passadas, transmitiu-se a ideia de que a morte é sinônimo de perda e sofrimento, e isso moldou nossa forma de reagir a ela, levando muitas vezes à evitação do assunto. No entanto, as crianças percebem rapidamente: entendem que a morte assusta, que é algo incômodo e que causa tristeza. E assim, sem querer, crescem sem as ferramentas emocionais para enfrentá-la. Mas o tabu não surge apenas da cultura; ele também nasce dentro de nós. A morte nos confronta com aquilo que mais tememos: a falta de controle, a incerteza, a ausência e a possibilidade real de perder quem amamos. Por isso, muitos adultos preferem evitá-la, como se não falar sobre o tema a tornasse menos real. O problema é que o silêncio não protege: confunde, assusta e gera ansiedade, especialmente na infância, quando a imaginação preenche os vazios deixados pelos adultos. O impulso de proteger: silenciar ou acompanhar? Esse impulso de proteger as crianças do tema da morte nasce de um gesto profundamente humano: o desejo de poupá-las da dor. Como explicou a psicóloga, muitos adultos sentem que falar sobre a morte pode perturbá-las e, ao mesmo tempo, temem enfrentar o próprio luto ou emoções ainda não resolvidas. Desse medo bem-intencionado surge a tendência de silenciar, deixar o tema para quando “forem maiores” ou “entenderem melhor”. No entanto, como advertiu a especialista, "esse silêncio, embora pareça protetor, acaba deixando as crianças sem um marco emocional ou cognitivo para compreender a perda, o que pode gerar ainda mais confusão ou medo diante do desconhecido". Na mesma linha, Kate Eshleman, psicóloga pediátrica da Cleveland Clinic, ressaltou que, quando a conversa é adiada ou evitada, os pequenos preenchem os vazios com fantasias que costumam ser mais angustiantes do que a própria realidade. Sem palavras claras ou explicações adequadas, qualquer perda real encontra a criança desprovida de ferramentas para processá-la. Mas não se trata apenas de falar, e sim de como os adultos vivenciam o próprio luto. Segundo o psicólogo Paul Brocca, professor do curso de Psicologia da Universidade Científica do Sul, no Peru, "os adultos são modelos para processar e expressar emoções, assim como para se reerguer diante de experiências difíceis. Por isso, a forma como vivem o luto influencia diretamente a maneira como as crianças o enfrentam". Assim, quando os adultos vivem o luto de forma aberta, honesta e regulada, mostram às crianças que a tristeza não é perigosa, que pode ser nomeada, compartilhada e acompanhada. Se um pai ou uma mãe chora com serenidade, explica o que sente e deixa espaço para perguntas, a criança aprende que as emoções não se escondem: elas são atravessadas juntas. Em contrapartida, se o adulto se bloqueia, evita o tema ou finge que está tudo bem, a mensagem transmitida é a de que a tristeza deve ser ocultada e que sofrer é algo que não se demonstra. Isso não apenas gera ansiedade, como também dificulta que a criança reconheça e expresse a própria dor. Como as crianças entendem a morte de acordo com a idade A forma como as crianças compreendem a morte muda significativamente ao longo do desenvolvimento. De acordo com Gabriela Cossi, diferentemente dos adultos, elas não vivenciaram tantas perdas; ainda assim, são muito perceptivas e sensíveis ao que acontece ao redor. Por isso, sua compreensão não é linear, mas construída a partir do que observam, sentem e do que lhes é explicado. De 0 a 3 anos: vivem a perda como uma ausência. De 3 a 5 anos: podem ter pensamentos mágicos, acreditando que a pessoa vai voltar ou que está dormindo. De 5 a 9 anos: começam a entender que a morte é irreversível, embora ainda possam misturar fantasia e realidade. Adolescência: integram a morte como um fenômeno universal e definitivo; sabem que todos os seres vivos morrem e conseguem refletir com maior profundidade. Justamente por essa sensibilidade, é fundamental não subestimar sua capacidade de compreensão. "As crianças entendem mais do que expressam. Quando não recebem uma explicação clara, preenchem os vazios com as próprias conclusões. A clareza, nesse contexto, é uma forma de cuidado" afirmou a psicóloga Alexandra Sabal, da Clínica Ricardo Palma, localizada em San Isidro, no Peru. Além disso, mesmo sem falar diretamente sobre o tema, muitas crianças dão sinais de que já estão processando a ideia da morte. Segundo Cossi, podem surgir mudanças no sono, como dificuldade para dormir ou despertares noturnos, alterações no apetite, dificuldades de concentração ou queda no rendimento escolar. Também são comuns regressões, como voltar a fazer xixi na cama ou demonstrar maior dependência dos adultos. — Todos esses comportamentos são tentativas inconscientes de buscar segurança diante da incerteza e da dor — disse. Esperar a pergunta ou se antecipar ao tema? Segundo Kate Eshleman, conversar sobre a morte antes que ocorra uma perda real pode ser muito benéfico. Quando o assunto surge de forma natural, por exemplo, ao observar o ciclo de vida de uma planta que murcha ou a morte do animal de estimação de um vizinho, a criança se aproxima da ideia sem a carga emocional de um luto imediato. Isso permite construir um espaço de confiança e compreensão em que a morte é integrada como parte da vida, e não como um conceito abrupto ou assustador. — Em um contexto como o peruano, onde muitas famílias só mencionam a morte em momentos de dor ou sob uma perspectiva religiosa, antecipar o diálogo pode desativar medos e transformar a conversa em uma experiência de aprendizado vital — indicou a psicóloga pediátrica. No entanto, se a pergunta surge espontaneamente da criança, esse momento deve ser aproveitado. Não é necessário forçar a conversa; o essencial é responder com calma, disponibilidade e honestidade. Quando a criança pergunta, está abrindo uma porta emocional, e a forma como o adulto responde determina se essa porta permanecerá acessível ou se se fechará por medo ou confusão. Falar sobre a morte mesmo quando não há uma perda recente ajuda a compreender que ela não implica apenas ausência, mas também legado, memória e um amor que permanece. Para Gabriela Cossi, os benefícios emocionais de crescer em um ambiente onde a morte é tratada com naturalidade são significativos: maior resiliência, empatia, confiança nos adultos, tolerância à incerteza e uma relação mais saudável com emoções difíceis. Ao não preencher os vazios com fantasias ou culpas internas, as crianças constroem ideias mais realistas e protetoras sobre a finitude. — Plantar desde cedo uma relação saudável com a ideia da morte começa pela atitude do adulto. Quando as crianças fazem perguntas e os pais respondem com calma, sem transmitir angústia ou medo, aprendem que a morte não é um tabu, mas uma realidade que todos enfrentamos. Isso fortalece a segurança emocional e o vínculo com quem as acompanha, ensinando que, embora a vida tenha finais, ela continua cheia de amor, proximidade e sentido — explicou. Como falar sobre a morte com as crianças Quando uma criança pergunta "o que acontece quando morremos?", o mais adequado, segundo a psicóloga da Clínica Internacional, é responder de forma clara e sincera, usando palavras simples e alinhadas aos valores da família. Explicações como "o corpo se apaga e já não sente dor" ou, em famílias religiosas, "vai para o céu e nos acompanha de lá" podem ser úteis, desde que não se recorra a mentiras como "foi viajar" ou "vai voltar logo", que podem quebrar a confiança da criança quando ela descobrir a verdade. A linguagem também influencia. Sabal recomendou usar frases curtas, concretas e livres de metáforas, que podem confundir os pequenos. A comunicação deve ser pausada e acompanhada de gestos de afeto, como um abraço, que permitam à criança sentir-se acolhida e valorizada. Além disso, para não sobrecarregá-las, é importante observar suas reações e responder apenas ao que perguntam. Se ficarem em silêncio ou parecerem precisar de tempo, não se deve pressionar. — Nesse processo, sobretudo quando há um luto presente, a sinceridade ocupa um lugar central. É possível consolar sem mentir: o adulto pode oferecer informações verdadeiras com um tom afetuoso, sem incluir detalhes desnecessários que possam causar inquietação. Validar emoções como medo ou tristeza, por exemplo, dizer “sei que isso dá medo, mas estou aqui com você”, fortalece a confiança e permite que a criança se sinta acompanhada. Também é válido reconhecer quando não se sabe uma resposta e sugerir procurá-la juntos — destacou Cossi. No entanto, falar sobre a morte nem sempre é fácil para os adultos. Às vezes, eles próprios sentem medo, dor ou incerteza. Nesses casos, é válido compartilhar isso de forma moderada: dizer "eu também estou triste" ensina a criança a reconhecer e lidar com as próprias emoções. E, se o adulto se sentir sobrecarregado demais para sustentar a conversa, buscar apoio profissional é melhor do que evitar o tema. Outro ponto importante surge quando os pais têm crenças diferentes sobre a morte. Lidar com essa diversidade exige cuidado. De acordo com Paul Brocca, a inconsistência no sistema de crenças pode gerar ansiedade ou confusão nas crianças. Por isso, os adultos devem conversar previamente entre si e, depois, explicar à criança que existem diferentes formas de entender a morte, apresentando cada perspectiva com clareza e respeito. Recursos práticos para acompanhar Abordar a morte com as crianças não envolve apenas responder a perguntas difíceis, mas também oferecer ferramentas concretas que as ajudem a traduzir o que sentem em palavras, gestos e símbolos. Os especialistas concordaram que, mais do que protegê-las do tema, trata-se de aproximá-las de forma sensível, honesta e significativa. Relatos — escritos ou audiovisuais — permitem que as crianças observem a experiência da morte a partir de um lugar simbólico e seguro. Quando acompanhados de perguntas e diálogo, tornam-se ferramentas muito valiosas. Livros recomendados: "O Pequeno Príncipe", de Antoine de Saint-Exupéry; "Para Sempre", de Camino García; "A Árvore das Lembranças", de Britta Teckentrup. Filmes: "O Rei Leão" e "Viva – A Vida é uma Festa". Guias: a Associação Americana de Psicologia oferece materiais claros para falar sobre o luto infantil. O mais importante é compartilhar essas atividades, não delegá-las: sentar juntos, assistir, perguntar ou ouvir. Depois de ler um livro ou ver um filme, Eshleman sugeriu perguntas como "o que você acha que o personagem sentiu?" ou "que parte te deixou triste?". Isso ajuda a criança a transformar o simbólico em palavras. Atividades criativas para canalizar emoções Aqui, a chave não é explicar a morte, mas dar forma à emoção. Atividades criativas permitem que a criança transforme sentimentos difíceis em algo concreto. Desenhar o que sente ou lembra. Escrever uma carta para a pessoa que morreu. Criar um álbum de fotos ou uma caixa com objetos significativos. Registrar momentos importantes que deseja guardar. Essas práticas ajudam a reconhecer emoções, dar-lhes nome e compartilhá-las. Rituais que dão sentido, continuidade e consolo Diferentemente das atividades, os rituais não buscam expressar, mas acompanhar e ressignificar. São gestos que ajudam a criança a compreender que a pessoa já não está presente, mas continua tendo um lugar em sua vida. O psicólogo Paul Brocca destacou que rituais como acender uma vela, escrever uma carta, desenhar um símbolo especial ou rezar ajudam a processar emoções e evitam que a tristeza fique isolada ou sem nome. — As crianças devem participar desses rituais familiares: levar flores, visitar o cemitério ou contar ao ente querido como foi a semana. Longe de prejudicá-las, essas ações oferecem uma compreensão mais realista, acompanhada e amorosa da ausência — afirmou Gabriela Cossi.