Entenda como jejuns prolongados podem alterar metabolismo e humor

Ficar muitas horas sem comer pode alterar o humor, o comportamento e a forma como reagimos a conflitos. Irritabilidade, impaciência e até dores de cabeça têm uma base biológica, ligada a alterações hormonais, metabólicas e neuroquímicas que são ativadas quando o corpo fica sem energia. Esse fenômeno, conhecido como "fome irritada" (um mau-humor causado pela fome), não é um traço de personalidade ou falta de autocontrole, mas um sintoma fisiológico. A explicação está em como o corpo obtém e gerencia seu principal combustível: a glicose. Trabalho publicado em revista científica: experimento revela o que o jejum prolongado realmente faz com o corpo humano Café da manhã: do jejum ao que comer em cada idade — o que a ciência diz sobre a refeição mais importante do dia O que acontece ao corpo quando há falta de alimentos? A glicose e o oxigênio são as principais fontes de energia do corpo. Quando comemos, os alimentos são decompostos em unidades simples de glicose, que as células utilizam para funcionar. O cérebro, em particular, é um dos órgãos mais dependentes de glicose: ele consome uma grande quantidade de energia mesmo em repouso. Quando os níveis de glicose caem, o cérebro entra em estado de alerta e ativa mecanismos de emergência. Um deles é a glicogenólise, um processo pelo qual o corpo libera glicose armazenada no fígado através de um aumento no glucagon, um hormônio fundamental na regulação do açúcar no sangue. No entanto, essas reservas são limitadas e, se o jejum for prolongado, o sinal de alerta se intensifica. Nesse contexto, o corpo começa a liberar hormônios do estresse, como catecolaminas, adrenalina (epinefrina e noradrenalina) e cortisol. Essas substâncias preparam o corpo para reagir rapidamente e buscar alimento, mas também geram um estado de tensão, ansiedade e irritabilidade. Ao mesmo tempo, a grelina, o chamado hormônio da fome, é liberada, aumentando o apetite e reforçando a vontade de comer. Fome, cérebro e emoções O impacto da fome não é apenas metabólico. No hipotálamo, uma região fundamental do cérebro, existem sensores que detectam os níveis de açúcar, água e sal no corpo. Quando esses sensores identificam um déficit energético, ativam circuitos neurais voltados para a sobrevivência — uma resposta primitiva e automática. Por isso, quando uma pessoa está com fome, tende a ficar mais hipervigilante. Em indivíduos mais sensíveis ou reativos, esse estado se manifesta como irritabilidade, ansiedade ou impaciência. Além disso, as alterações metabólicas influenciam neurotransmissores ligados ao bem-estar emocional, como a serotonina e a dopamina, o que explica as oscilações de humor associadas ao jejum. Cardio em jejum ajuda a perder peso? O que a ciência diz sobre isso Alzheimer, diabetes, perda de peso: saiba quais são as 10 novidades da medicina previstas para 2026 O centro da saciedade, também localizado no hipotálamo, não apenas regula a fome, mas também interage com circuitos que modulam o humor, reforçando a ligação entre alimentação e emoções. A explicação psicológica da "fome irritada" Do ponto de vista psicológico, o fenômeno também tem uma explicação clara. Quando uma necessidade básica como a alimentação não é satisfeita, outras prioridades ficam em segundo plano. O cérebro concentra seus recursos em resolver essa carência, aumentando a atenção a qualquer estímulo relacionado à comida. Essa abordagem ajuda a explicar por que, quando estamos com fome, nossa tolerância à frustração diminui e nossa capacidade de regular as emoções é reduzida. Não se trata de falta de força de vontade, mas sim de uma resposta adaptativa do organismo. O que acontece se o jejum for prolongado? Embora a irritabilidade causada pela fome seja geralmente temporária, o jejum prolongado pode ter efeitos mais profundos. Com o tempo, o corpo passa por adaptações metabólicas e pode alterar a taxa metabólica basal, ou seja, a energia mínima necessária para manter funções vitais como respiração, batimentos cardíacos, atividade cerebral e produção hormonal. Quando dietas restritivas são repetidas com frequência, o corpo interpreta isso como falta de energia e começa a "conservar": o coração bate mais devagar, a respiração torna-se menos frequente e vários processos metabólicos são reduzidos. A longo prazo, isso pode afetar a massa muscular, a produção hormonal, a sensibilidade à insulina e a saúde óssea, levando à perda de densidade mineral óssea. Em casos de jejum crônico, o metabolismo pode girar principalmente em torno das gorduras, gerando cetoacidose, uma condição que, em situações extremas, pode até afetar a função cardíaca. Jejum, dietas e contexto social Embora o jejum possa ser clinicamente indicado e benéfico em alguns casos, deve sempre ser realizado sob supervisão profissional. O problema surge quando a restrição alimentar é idealizada como uma solução universal. Comer não é apenas um ato biológico: possui um forte componente psicológico, social e cultural. Pensar constantemente em comida ou impor regras rígidas pode fomentar relações pouco saudáveis ​​com a alimentação e aumentar o risco de transtornos alimentares. Além disso, discursos que promovem o jejum sem nuances frequentemente ignoram fatores estruturais importantes, como o acesso a alimentos saudáveis, o preço dos produtos, longas jornadas de trabalho ou a falta de tempo. Essa visão simplista reforça a ideia de que "comer menos é sempre melhor", quando uma alimentação saudável também envolve prazer, contexto, cultura e sustentabilidade a longo prazo. Entender por que a fome nos deixa irritáveis ​​não só ajuda a explicar eventuais maus humores, mas também nos ajuda a repensar nossa relação com a comida a partir de uma perspectiva mais holística, realista e saudável.