Geneviève Boghici quebra silêncio e diz que filha Sabine não se matou: 'Foi manipulada e morta'

Viúva do marchand Jean Boghici, Geneviève Rose Marie Coll Boghici quebrou o silêncio dois anos após a morte trágica da filha, a atriz Sabine Coll Bohici, que caiu do 4º andar de um prédio na Lagoa, Zona Sul do Rio. Ela contesta a versão de suicídio e acusa a vidente Rosa Stanesco Nicolau — esposa de Sabine e apontada como responsável por aplicar um golpe de R$ 725 milhões em obras de arte — de manipulação e assassinato. O caso voltou a ser investigado pela polícia, após ser desarquivado. Caso de Sabine Boghici, herdeira de marchand, é reaberto após mãe contestar suicídio Acusadas de golpe contra viúva de marchand, Sabine Boghici e Rosa Stanesco se casam na prisão Geneviève procurou o blog Segredos do Crime para fazer um relato emocionado e, pela primeira vez, decidiu contar em primeira pessoa como viveu a tragédia e quais suspeitas carrega desde então. Caso Sabine Boghici "Na vida, a gente tem que lutar pela verdade. O crime que causou a morte de Sabine é cheio de mentiras. Por isso eu decidi não me calar. Rosa Stanesco e sua família são bandidos. Não estou falando contra os ciganos, mas de Rosa, que se apresentava como a vidente Mãe Valéria. Eu e minha filha fomos vítimas de roubo dessa gente, por acreditar em cartomantes. Inventaram que minha filha iria morrer. Eu, como mãe, faria qualquer coisa pela vida da minha filha Antes de tudo isso, vivíamos bem. Morávamos em uma cobertura na Avenida Atlântica e tínhamos uma galeria de arte reconhecida no Brasil e no exterior, com quadros valiosos. Seu pai, Jean, foi quem lhe ensinou a amar as artes. Sabine era atriz, modelo, dubladora, cantora e colecionadora de brinquedos. Entenda: falsas videntes se aproveitaram da fé de idosa para golpe com obras de arte avaliadas em milhões de reais Sabine vivia como uma princesa, cheia de vida e sonhos. Amava os animais, principalmente cachorros, e dizia que um dia abriria um instituto para protegê-los. O marchand Jean Boghici, em 2012 Pablo Jacob/Agência O Globo Em 2019, tudo começou a mudar. Rosa e pessoas próximas dela se aproximaram de nós. Sabine contou detalhes da nossa vida para elas e, a partir daí, começaram as perseguições. Uma meia-irmã de Rosa, Diana Stanesco, me abordou na rua como se já me conhecesse, como se soubesse minha história. Foi aí que começaram as exigências: disseram que eu tinha que fazer trabalhos espirituais. Disseram que Sabine estava possuída e que eu precisava pagar por trabalhos espirituais, porque ela morreria. O primeiro pedido foi de R$ 50 mil — e nunca mais pararam. Eu dei muito dinheiro. Rosa Stanesco, acusada de aplicar um golpe contra a viúva do marchand Jean Boghici Reprodução / Fantástico Rosa alegava que os quadros traziam má sorte e precisava levá-los para “benzer”. Ela levou obras valiosas para a casa dela. Era um golpe muito bem arquitetado. A manipulação não era só financeira. Elas entraram na nossa casa, afastaram pessoas de confiança, fizeram com que minha filha demitisse empregadas que trabalhavam para nós há anos. Aos poucos, Sabine se transformou. Passou a obedecer às ordens de Rosa, a seguir orientações espirituais que eu não entendia. Ela dizia que Sabine precisava obedecer à Pomba Gira em tudo, ou jamais seria feliz. Eu mesma fui mantida em cárcere privado no meu próprio apartamento. Rosa controlava tudo, e Sabine me espionava, porque Rosa a manipulava o tempo todo pelo telefone. Em um dos episódios mais assustadores, Sabine chegou a me ameaçar com um facão. Rosa colocou na cabeça dela que eu estava possuída e que precisava morrer. Eu só sobrevivi porque comecei a investigar quem elas eram. Ao descobrir o passado da família Stanesco, tentei buscar ajuda médica para Sabine, mas fui impedida. Rosa mandou Sabine fugir. Essa foi a última vez que vi minha filha viva. Caso Boghici (foto de Genevieve Boghici com a filha, Sabine): Justiça nega pedido de liberdade para filho da vidente “Mãe Valéria de Oxóssi”, acusado de participar de golpe contra Genevieve Reprodução Procurei a polícia e algumas obras foram recuperadas, mas Sabine acabou presa com Rosa e os demais envolvidos. Em seguida, a Justiça determinou uma medida protetiva, que me afastava da minha filha. Foi o momento mais doloroso da minha vida. Eu não pude cuidar dela quando mais precisava. Sabine ficou seis meses na prisão e foi libertada por não ter antecedentes. Depois, passou a morar com Catarina, filha de Rosa, num prédio na Lagoa. Após a morte de Sabine, amigos e vizinhos começaram a relatar horrores. Segundo testemunhas, Catarina agredia Sabine diariamente e a mantinha sob controle, junto do marido. Funcionários do prédio da Lagoa contaram que ouviram gritos e chamaram a polícia por várias vezes. Mas, quando interfonavam para o apartamento de Catarina, ela dizia que estava tudo bem. Certa vez, chegou a dizer que eles estavam apenas fazendo sexo selvagem. A polícia acabava indo embora. Era sempre assim. Justiça decreta a prisão de Sabine Boghici e falsas videntes acusadas de golpe milionário em obras de arte Sabine passava fome. Descia para encher garrafas de água no playground do prédio porque não podia usar o filtro. Pedia ao porteiro para dividir a marmita com ela. Foto de Sabine Boghici em seu quarto, no apartamento da Lagoa, com manchas roxas pelo corpo Reprodução cedida pela família de Sabine Numa ocasião, ao encontrar uma amiga no fórum, Sabine disse a ela que tinha medo de morrer e que a comida tinha gosto amargo. Acredito que ela estava sendo envenenada aos poucos. Um motorista de Rosa contou à polícia que ela pediu para arrumar alguém para me dar remédios controlados, na época em que eu estava em cárcere privado. Esse modo de agir, pequenas doses na comida, é típico de quem quer matar sem deixar suspeitas. Por isso pedimos a exumação do corpo, porque acreditamos que um exame possa revelar se houve envenenamento. Há cartas e provas documentais que me reforçam a minha suspeita: cartas de Catarina para Rosa, após a morte de Sabine, em que a filha de Rosa pergunta para a mãe, que se encontra presa: "Quantos corpos precisará mandar para o IML para ficar com os bens da Geneviève?". O plano, na minha leitura, era matar Sabine gradativamente para parecer suicídio. Sabine nunca faria um testamento (como foi registrado pela filha de Geneviève, antes de morrer) para deixar sua parte da herança ao filho adotivo de Rosa. Era algo completamente contrário aos seus planos. Ela sonhava em ajudar os animais, não em beneficiar quem a manipulava. Caso de golpe milionário em mãe: testemunhas de Sabine Boghici e Rosa Stanesco serão ouvidas Reprodução Na noite da queda, houve fatos estranhos: uma interrupção na filmagem do prédio foi recolhida pela polícia. Sabine era alta, de pernas longas. A janela era estreita. Não consigo acreditar que ela caiu sozinha. Há relatos de que ela perguntou ao porteiro o que havia acontecido logo após cair. Não foi suicídio. Além disso, testemunhas relatam marcas de tortura no corpo de Sabine, que apresentava marcas violáceas, adquiridas antes da queda. Um bombeiro, que socorreu minha filha, chegou a comentar isso no local, mas depois disse que não se recordava. Golpe milionário: obras de Tarsila do Amaral envolvidas em crime de filha contra mãe sobreviveram a incêndio há 10 anos Tudo isso nos leva a acreditar que não foi suicídio. O caso chegou a ser arquivado, mas foi reaberto após a minha insistência. Uma testemunha próxima de Rosa avisou meu advogado que ela planejava se casar com Sabine e depois matá-la — e foi exatamente o que aconteceu. Hoje, eu e amigos continuamos a juntar provas: depoimentos, testemunhas, relatos dos porteiros, cartas e possíveis registros que liguem a família Stanesco aos golpes e à manipulação. Rosa dizia com arrogância que "a polícia e a Justiça comiam na mão dela", que "seus advogados sabiam os caminhos”. O arquivamento do caso foi estranho e inexplicável, por isso lutamos pelo desarquivamento, e conseguimos. Sinto muita falta da minha filha. Ela era amorosa, minha amiga e companheira. Não consegui salvá-la. Foi manipulada, torturada e assassinada, na minha convicção. O que fizeram com ela, fizeram comigo também. Hoje vivo escondida, mudando de casa a cada três meses. Só que eu sobrevivi. E ela, não." Sabine faz selfie com cachorro Sabine Coll Boghici / Divulgação O que dizem as defesas Catarina Stanesco, por meio de seu advogado Hugo Novais, respondeu as acusações por nota: "A defesa da Senhora Catarina, por meio do Advogado Hugo Novais, informa que restou compravado no inquérito policial que não houve qualquer crime praticado contra a Sabine, a qual cometeu suicídio em virtude das agruras executadas por sua genitora. Ressalta ainda que todos os funcionários do condomínios foram ouvidos, relatando que não havia ninguém acompanhando Sabine quando da ocorrência de sua morte". A advogada Gabriela Mazzini, por parte de Rosa Stanesco, também respondeu por nota às acusações de Geneviève: "É imperioso reiterar que Rosa Stanesco e Sabine Coll Boghici Stanesco eram legalmente casadas, compartilhando uma vida em comum pautada por amor e respeito mútuo. O trágico falecimento de Sabine, conforme atestado por laudo necroscópico expedido pelo Instituto Médico Legal (IML), foi resultado de suicídio – uma conclusão técnica e oficial que desmente qualquer versão fantasiosa de assassinato ou agressão. Veja a lista dos quadros: filha é presa por golpe de R$ 725 milhões contra a mãe em esquema de roubo de obras de arte e joias As acusações da Sra. Geneviève Boghici de que Rosa e sua família seriam "bandidos", "golpistas", e de que Sabine era vítima de agressões diárias, fome ou "cárcere privado" são totalmente infundadas, maliciosas e desprovidas de qualquer base factual. Pelo contrário, todas as evidências demonstram que Sabine tinha plena autonomia e liberdade, e que sua escolha de viver com Rosa e Catarina (filha de Rosa) era fruto de sua vontade livre e consciente. É inadmissível, inclusive, a referência ofensiva a Rosa como "falsa cigana", o que reflete preconceito injustificável e desrespeitoso à sua cultura. Chama-se atenção para a cronologia e a natureza oportunista das ações da Sra. Geneviève. Após ter acusado falsamente Rosa e a própria Sabine de crimes como roubo, extorsão, cárcere e estelionato – denúncias que culminaram na prisão preventiva de ambas –, a Sra. Geneviève, somente após o trágico e comprovado suicídio de Sabine, decidiu tentar anular o casamento sob a tese de que sua filha teria sido manipulada e coagida. A defesa de Rosa Stanesco Boghici sublinha que a verdadeira motivação por trás dessas manobras judiciais e midiáticas não é a preservação da memória ou do bem-estar de Sabine, mas sim a tentativa de angariar indevidamente o patrimônio da falecida. Fica evidente que a Sra. Geneviève busca, a qualquer custo, criar um cenário de "incapacidade" ou "vulnerabilidade" de Sabine para justificar a anulação do matrimônio e, assim, tolher os direitos de herança de Rosa e de outros entes queridos de Sabine." Em resumo, a defesa de Rosa Stanesco afirma que não há indícios de que Sabine estivesse em situação de vulnerabilidade ou sob coerção. Segundo os advogados, ela nunca fez denúncias nesse sentido e deixou cartas que demonstram vínculo e afeto com Rosa e sua família. A defesa também destaca que Rosa não é alvo da investigação sobre a morte de Sabine, que corre sob segredo de justiça, e que as acusações surgem após decisões judiciais desfavoráveis à mãe de Sabine em disputas patrimoniais. A 15ª DP (Gávea) está investigando o caso, que foi desarquivado por determinação do Ministério Público do Rio.